ensaio

Tenho quatro amigos

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on setembro 20, 2014

O primeiro é bonito, vaidoso, encantador: é um mitômano, uma espécie de perene ficcionista da oralidade, vive tecendo suas histórias enquanto ajeita a roupa e o topete, e ergue as sobrancelhas, como se passasse marca-texto no que diz, e confirmasse com seu interlocutor alguma coisa que é da ordem do pacto de bastidores que travaram antes da conversa, no qual tudo foi acertado. Nos conhecemos assim, nos arredores de nossas mentiras, e de lá nunca saímos, o amor pela ficção um elixir que tudo cura, e um certo comunismo de minha parte que garante um atrito útil com um certo fascismo da parte dele. Ficamos embevecidos quando, depois da décima cerveja, ele se dedica a erguer alguma revelação, esboçar alguma narrativa que, sendo sempre mentira, nos dará algum encontro com o novo, o inusitado, o insólito, o belo. É muito generoso, e todas as vezes causa problemas nas contas de bar por querer pagar demais; sua motivação nunca é a culpa, sempre é a alegria. Costuma dizer que é invejoso, e que deseja ser autor, ostentador, magnata cultural. Mas essa é outra de suas ficções: o que deseja é estar ali, centro magnético da mesa de bar, ou caminhando pela Rua da Glória, marionetando suas histórias, sua audiência, confiante no abraço de despedida feliz no fim da noite. Uma vez, estando com ele em um bar repleto, chorei; no bar cheio, era notável que as outras mesas se interessavam pela anomalia de um adulto se emocionando em lugar impróprio: ele se manteve impassível e solidário, silencioso, ouvinte, amigo.

O segundo é quieto e reservado; sei que é meu amigo, e na medida em que nossa vida errática permite sempre atesto com felicidade os esforços que ele faz para me encontrar, muitas vezes para que a gente converse bem pouco, como se não precisasse mais disso. Uma versão das amizades inglesas preconizadas por Borges, excluindo de saída a vulgaridade da confidência e prescindindo do diálogo sempre que possível. Dizem que era tímido na adolescência e, embora hoje esteja longe dessa coisa própria da timidez que é o impedimento à vontade, ainda parece se comunicar com essa área da experiência de uma maneira que me é alheia; me atribulo no trabalho (carreira, projetos) e na vida (dinheiro, brigas) de um jeito que parece nunca ter sido problema pra ele, senhor tranquilo de um saber que não possuo aí. Nosso horizonte de conversas se concentra em nossa experiência com nossos pais; nossos problemas com a literatura; nossas perturbações com as mulheres. Há coisa de um ano ele estava morando em X, cidade onde morei há muito tempo e que virou uma espécie de explicação e signo místico para mim, lugar em que me reconheci como pertinente e pertencente ao mesmo tempo em que me sabia excluído e menor, em um processo tão ambivalente que até hoje imagino ser essa uma de minhas características mais fáceis de detectar. Nos falamos no skype, ele muito triste e com frio, e fiquei numas de animar ele recuperando momentos de minha vida lá, perguntando “Ainda tem isso em tal rua?”, “Ali na esquina de A com B tem tal coisa”, “Você já foi em Z?”. Recuperava aqueles lances de memória já muito manipulados e gastos pelo uso, mas dessa vez com ele como protagonista, ele nas ruas em que andei, ele com minha calça jeans e camiseta branca, ele admirando coisas, experiências, mulheres inatingíveis, inesquecíveis.

O terceiro mora em um quarteirão solitário, perto da praia, numa casa repleta de livros. Seus irmãos, muitos, foram se mudando e ele foi ficando: vive com os móveis e objetos dos anos oitenta de uma casa que precisa de pintura, a casa onde ele nasceu e cresceu e onde continua até hoje. Minha admiração por ele é quase infinita: sua delicadeza tranquila, um homem corpulento, de quarenta anos, que nunca parece ter se desgastado tentando provar nada para ninguém e que portanto é desprovido da carapaça na qual eu, por exemplo, investi tanto tempo e dinheiro. É muito erudito (lê em russo) e rodado (passou dois anos vivendo no leste europeu; antes, morou num kibbutz) e é um dos melhores autores de sua geração, maior ainda por parecer não se importar com fato de ser quase desconhecido e seriamente desprestigiado para quem tem tanta imaginação e força, abundante a ponto de permitir que ele publique naquela lata de lixo da história que é o facebook posts como esse

Quando meu pais eram vivos sempre esperávamos uma visita que nunca chegava. Tínhamos que estar de banho tomado, com roupas sempre limpas, cabelo penteado. Alguém, nunca soubemos quem, podia chegar a qualquer momento na nossa casa. Os móveis tinham que estar impecáveis. Os brinquedos trancados em um quartinho. Minha mãe forrava a cama enquanto eu ainda estava dormindo sobre ela. Naquela época eu ainda não sabia, mas no meu caso a visita eram os livros. Essa é a minha love story, como diria Haňt’a. Escrevo isso enquanto indico um livro para uma amiga. Escrevo enquanto lembro da minha leitura de Jardim, cinzas, de Danilo Kiš. Escrevo enquanto, sem pensar muito, defino assim o livro para uma amiga: É como se o Tio Pepin de Hrabal irrompesse nos salões do Palácio dos Sonhos de Sandman e lá encontrasse as crianças da Rua Paulo e todos dançassem o Čoček.

Ou esse:

Devo a César Aira a ideia que os acidentes de memória criam todo tipo de monstros. Às vezes lembramos algo que já não sabemos se aconteceu daquela maneira ou foi nossa imaginação que criou e preencheu as partes que estavam faltando com simulacros dos acontecimentos, como os dinossauros do Jurassic Park criados a partir de rãs. Assim também são com os livros que nos surpreendem quando procuramos um trecho que imaginávamos de outra forma. Assim é com os livros que li, assim é com Moby Dick, assim é com Extinção. Ambos são relatos obsessivos sobre a extinção. E provavelmente não foi assim que aconteceu, mas foi assim que lembrei: Queequeg é Gambetti. Bernhard e Melville escrevem antibiografias. A grande baleia branca é a Áustria nazista. O redemoinho no mar e na linguagem. O apagamento da origem, da nação, dos pais, do poder. O curto-circuito entre memória e esquecimento. A carta nunca entregue de Kafka ao seu pai.

A menção a Aira não é trivial para mim: conheci Aira por ele, que me enviou um livro, Um acontecimento na vida do pintor viajante, que foi meu primeiro Aira, e que terminou me levando a escrever uma tese sobre Aira. O livro, lamentavelmente, se perdeu em minhas separações e mudanças, mas recordo que a dedicatória dizia, aludindo a minha pobreza e quase impossibilidade de comprar livros novos Meu amigo, ganhar não é comprar.  É o único de meus amigos que tem a barba cheia, o mundo não sabe apreciá-lo, não conhece a alegria de sua proximidade em uma mesa de café, ao redor de uma pizza, a seu lado, caminhando, na calçada, na parte velha da cidade. 

Esses são os quatro amigos.

Prague, Hrabal

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Ratos diversos

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 26, 2014

Emputecido com aquele sacana, pensei Porra, que rato filadaputa!

Momento menor, ato reflexo do pensamento e, portanto, irrefletido: faux pas semântico, pois assim insultava o rato, toda a espécie, e nada mais.

Me ocorreu que há um momento no Diário de Manhattan, de Néstor Sanchez, em que ele menciona um rato do Harlem. O diário, sabemos, consome pouco tempo na vida de Sanchez, no início do inverno de 1975, e consiste em anotações muito breves devotadas principalmente ao sucesso de seus exercícios físico-espirituais, aprendidos com Gurdjieff (sendo destro, só escrever com a mão esquerda; em hipótese alguma cruzar as pernas; carregar os pertences em uma sacola, mantendo sempre as mãos livres; nos sonhos, tentar ver a própria mão, etc). Me afeiçoei muito a esse texto, nem sei a razão, o que talvez fale de uma verdade do afeto que justifica meu retorno ao texto, minha certeza de que o texto me diz algo, e continua dizendo a cada leitura. Há um diálogo platônico no qual se diz, como um elogio à fala, que um texto escrito, ao ser interpelado, sempre lhe responde o mesmo: vê-se que Platão era um asno ou, no mínimo, péssimo leitor.

Aqui está Sanchez, em Manhattan, com muito frio, e se propõe, como um exercício, a passar uma noite no Harlem, na rua, dormindo na rua – ou, pelo menos, sobrevivendo à noite na rua. Não é sua Nova Iorque hipster e asséptica: é 1975, uma cidade suja e putona, o cenário de Taxi Driver, a Times Square comentada por Delany em Times Square Red, Times Square Blue. Então tem esse sudaca doidão: é um homem que ignorou seu único filho por mais de vinte anos; é um autor que tinha sucesso, foi resenhado positivamente por Cortázar, imaginem o que era isso em 1971? Mas Sanchez caga pra tudo e, cheio de lances espirituais levados muitíssimo a sério, vai passar a noite no Harlem:

segunda 8

O vandalismo, sobretudo em crianças e jovens, é comentado com frequência como um grave problema nacional. Não há dúvida: visitando ontem a universidade, impressionou o espétaculo da esficácia destruidora em tudo, de novo o alarde da feiúra, somado à grosseria e ao grito de tudo. Vida neurótica do homem americano, que se proibiu o sussurro. Inconstância neurótica, ninfomaníaca, da mulher americana, que se proibiu o desejo futuro.

Tentando dormir no Harlem; primeiro, me aproximei de um latão de lixo em que improvisaram uma fogueira, fisionomias hostis, não fui bem-vindo. Impossibilidade do gesto solidário, subhumanidade. Em um beco, me encosto em uma porta que parece não ter sido aberta há muito tempo, e a temperatura, aqui, está melhor. Quando me aquieto e começo a me aquecer sinto algo e, levando a mão às costas, toco um rato, querendo também se aquecer. Nenhum temor de parte a parte.

“Nenhum temor de parte a parte”: esse trecho poderia ter sido o alvo de um comentário de Levrero em seu “momento rato”, no Diario de un canalla — ao falar de seu oposto, está falando da mesma coisa. O incidente funciona como uma espécie de parêntese à inauguração do leitmotif das pombas, que vai percorrer quase tudo que Levrero escreve desse texto até o fim, e que vai protagonizar a deriva de La novela luminosa. É também um dos raros momentos em que se tematiza, de maneira algo positiva, a condição filial: em Levrero o filho é estorvo (Juan Ignacio, em El discurso vacío), ou invisível, está à margem, não faz tema (sua filha, anônima, que recebe parte da bolsa Guggenheim, que tem um filho, em La novela luminosa).

Ora, se as pombas são anúncios do Espírito, o que são os ratos? Diante da resposta fácil (seu anátema), Levrero faz o que sabe fazer: presta atenção, descreve o que vê, e é melhor nem dizer mais: vejam aqui o que aparece quando, depois de passar um tempo brincando com a ratazana que apareceu em seu quintalzinho no prédio da Rua Rodríguez Peña, percebe que a cada movimento de aproximação que faz, o animal se esconde, mas sempre deixa a cauda fora do esconderijo:

Esse detalhe de sua ingenuidade despertou, mais que qualquer outro, uma ternura infinita em mim, uma ternura quase insuportável. Vi naquela ratinho um menino, com toda sua inteligencia, mas também com toda sua falta de experiência de vida. Quase diria que vi ali um filho. E isso que escrevo agora me umedece os olhos, me faz arder os olhos.

Por fim, há meu rato favorito na História da Literatura – uma descrição magnífica da amizade, do afeto, da gentileza gratuita e recíproca – que aparece num dos trechos do diário de Jules Renard que foi depois recolhido no Histoires naturelles. Renard está só em La Gloriette, é noite, e ele escreve: escreve precisamente a página que estamos lendo. A cada momento em que começa a escrever, percebe que um som parece fazer eco ao rangido da pena na página. Para de escrever, o outro som para; volta a escrever, o sonzinho volta. É só um murmúrio de um eco, mas há intenção, supõe Renard. Imagine o lampião, imagine o silêncio, o gradual teste empírico de hipóteses, até que Renard se dá conta: é um ratinho, roendo o pé da mesa. No silêncio total, o rato, ressabiado, espera. Mas quando há o som da escrita, o rato rói, tranquilo, a mesa, e se conforta, e Renard continua escrevendo, e nos descrevendo isso, e comenta que o rato, mais confiante, se aproxima, e começa a roer o seu tamanco.

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Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 10, 2014

A Amazon me diz “You purchased this item on September 16, 2002″. E, de fato, lembro: tive esse livro, o livro do Donald Richie sobre Ozu, na época em que eu dava aula de Inglês na Rua Fernandes Tourinho: lembro de fumar um cigarro enquanto esperava um espresso no restaurante na esquina com a Rua Sergipe, onde eu costumava almoçar, e cujo dono – cujo nome não me lembro – me ensinou a jogar gamão. Assim é a memória, injusta: ri com esse homem, comentei sobre muitas mulheres e coisas da vida, aprendi a jogar gamão com ele, e no entanto não lembro seu nome, lembro sua fisionomia e lembro desse dia em que, esperando que ele preparasse meu café, enquanto eu fumava e ele mesmo tinha um cigarro aceso na mão, folheava esse livro e descobri que alguém havia arrancado duas paginas do meio do livro. 

Isso me deixou estupefato. Quem arrancou? Era um livro novo, intacto, comprado na Amazon. Fiquei com certeza, imagino, ponderando as razões daquelas paginas, o que havia nelas, ou se só acidente, ou gratuidade perversa. O que aconteceu ali? Lembro também que a chave de abertura do livro é algo como “Ozu tem como tema principal a família japonesa, que ele examinou de todo jeito, usando-a como microcosmo”: é isso, só que dito com a graça habitual de Richie, dito melhor, dito bem. Nunca esqueci.

Nunca avancei na leitura desse livro, e ele terminou se perdendo no fim de algum casamento, na voluntariosa perda de livros que fiz com que me acontecesse aqui e ali. E hoje, depois de muito tempo sem lembrar dele, ou mesmo de Ozu, lembrei dos dois, enquanto assistia Another Year, o filme de Mike Leigh de 2010. Uma vez, conversando com F, ele me perguntou se eu já tinha visto o último filme de Leigh – era outro filme, não era esse, essa é uma memória antiga, a alegria do encontro com F diz Isso é remoto, isso aconteceu faz muito tempo. Disse que não e perguntei É como o outro? Inglaterra, gente fudida, agonias da pobreza, etc? e ele riu e disse Sim, isso – só que esses personagens são mais fudidos ainda! E eu ri também, e depois vi o filme, e em momentos assim era muito bom ser amigo de F, como é bom lembrar dele assim, rindo, e de minha graça também, junto com ele, uma graça de velhos amigos e que pena que isso também acabou. Então esse é mais um filme de Mike Leigh, e há isso, Inglaterra, gente fudida, etc: uma concentração numa família miúda, em seu modo de vida, em hábitos, alguns matizes próprios. Esse filme é mais próximo de uma classe média bem média, e o protagonista tem um irmão: parecem duas versões de mim, uma que foi pra universidade e outra que ficou no subúrbio. Ou seja: me lembrei de Ozu, das famílias de Ozu, e me lembrei de minha vida também, pois para isso muito me serviu o cinema, a literatura, e arte: me afasta de minha vida com uma mão e me devolve com a outra. Enlevado pela passagem do ano que o filme inventa e oferece, imaginei um cotidiano presente e futuro, o envelhecimento que bate à porta, meu testemunho do sucesso relativo dos próximos e minha próprias réguas e cálculos de ascensão ou declínio E, sendo hoje dia dos pais, lembrei de uma das últimas vezes que almocei com meu pai: não numa mesa doméstica mas, como era nosso encontro nos últimos anos, em um restaurante perto do trabalho dele onde sequer éramos habituais, só clientes casuais e ordinários num dia de semana. Numa dessas vezes, não a última, mas uma das últimas, contei pra ele que tinha feito algo importante pra mim, queria dizer pra ele que tinha tido algum sucesso, alguma forma de sucesso – e o que lembro é que ele ouviu, e que ele pareceu estar feliz por mim, comigo, ali.

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“Estudando Lydia Davis”

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on abril 4, 2014

A acabou de assistir a uma conferência de uma escritora muito apreciada por B, seu amigo.

“Conferência” é uma má palavra, pois tratou-se de um desses incidentes do campo literário, cada vez mais comuns, em que um autor é convidado para ler trechos de sua produção e responder às questões ou de um animador, ou da audiência, ou das duas fontes, ou nenhuma questão. A autora compôs a noite na companhia de um autor que, embora seja infinitamente mais popular, é considerado por B um energúmeno, um “idiota glorificado” – como lembra A, que estava presente, ao lembrar do amigo, e daquilo em que o amigo pensa, e do modo como o amigo fala o que pensa. Então temos aqui A, assistindo a uma, digamos, conferência, ou palestra, ou fala, ou leitura de trechos de textos com direito ou não a questões. Enquanto assiste, A pensa em B, ou talvez fosse melhor dizer que o pensamento de A ligeiramente toca B, as coisas que já conversaram ou partilharam, a presença difusa de B em seu gosto literário, e em particular o fato de B gostar muito do trabalho da autora que está agora falando enquanto A, digamos, pensa em B. Estamos tratando aqui de uma conexão que é ao mesmo tempo mais espessa (é possível que A sequer estivesse aqui não fosse pela ação evangélica de B com relação ao trabalho da autora) e muito mais diáfana (pensa-se em Odo Marquard, em Aristóteles, nas contas a pagar, numa mulher: algo se espicaça e concentra em um fino foco, e longe, longe disso a vaga presença do amigo na memória A, que sequer se articula plenamente em pensamentos do tipo “B ia adorar isso”, que só vão acontecer depois, quando A contar a B o ocorrido).

A autora, após seu desempenho no palco, ainda vai autografar exemplares do livro que está lançando, e A pensa que irá agradar seu amigo com um livro com um autógrafo da autora que ambos admiram mas que, como já sabemos, B admirou antes, B divulgou, B insistiu para que o amigo lesse, fazendo assim dela uma espécie de propriedade de B, um seu direito de precedência e pioneirismo e, por tudo isso, A decide presentear o amigo com um livro autografado pela autora. Para isso, A entra na fila, imensa, de membros da audiência interessados em prolongar seu encontro com a autora ou em conferir uma fixação mnemônica particular à sessão que acabou de ocorrer ou em incrementar o valor do livro recém-adquirido ou em uma série de outras razões – são muitos, a fila é imensa. A entra na fila e, em poucos minutos, é acometido de uma puta vontade de mijar.

“Acometido” é uma má palavra, uma vez que o que está em jogo não tem nada a ver com cacofonia fisiológica de nenhuma ordem. A tomou uma bebida antes de vir, tomou um café ainda antes, e pela ordem natural do funcionamento do corpo humano o que cabe é que o líquido solicite também, uma vez metabolizado, sua excreção.  A já tinha consciência de sua vontade de urinar desde quando estava lá, na audiência, sentado, ouvido os proferimentos do idiota glorificado que fez companhia à autora que aprecia: sua distração e seu tédio provavelmente propiciaram vantagem ao corpo, a uma certa inquietude e desconforto na cadeira, ao gesto de ajeitar o suéter, afastando ele da barriga com um beliscão discreto que já foi, em outra situação, observado por B, que é o tipo de pessoa que observa essas coisas nos amigos e que, ainda, aprecia a autora porque ela parece ser o tipo de pessoa que observa essas coisas em tudo, e B acredita que aí há alguma espécie de moralidade ou exemplaridade, e essa é uma das fontes de sua admiração por ela assim como uma das fontes de sua admiração por A é a maneira como ele afasta o suéter da barriga, o jeito como ele faz perguntas e usa o termo “Camarada”, as mãos que ele tem e muito frequentemente, em febre de eloquência etílica, se movimentam com a graça dos pães que Chaplin uma vez fez dançar no conhecido filme. É aí, nesse momento em que afasta o suéter da barriga, que A se dá de que está com vontade de mijar, e trata-se então de uma situação que é como um chamado do seu nome quando você passeia numa vizinhança estranha de um país que não é o seu, uma improbabilidade mas ainda assim você olha, você busca quem exercita o verbo com seu nome, quem lhe reconheceu, e assim A acolhe a vontade de mijar ligeiramente, com um meneio de cabeça, digamos, ou um “Porra” espiritual, bem diáfano, leve, reconhecendo em si a companhia do mijo, sabedor da fonte originária desse processo típico de nosso funcionamento , o conhaque, a água, o café e lá está a vontade mijar e ao reconhecer isso A a deixa lá, e lá ela fica até que, por força da passagem do tempo e de uma série de outros fatores que são próprios das contingências misteriosas do corpo lá está A na fila, a dez, quinze pessoas da autora, muito perto de conseguir o autógrafo para B, e percebe que não vai conseguir esperar mais, que precisa urgentemente ir ao banheiro e, enquanto hesita pela última vez, ponderando ainda coisas de força de vontade e do tipo “Já esperei até agora”, a autora, em um hiato no que está fazendo que é, provavelmente, hiato pra ela também, uma pausa, um silêncio entre um solicitante e outro a depositar um livro diante dela, proferindo palavras de praxe, trocando sorrisos, nessa pausa que num outro sentido não é absolutamente pausa, pois o processo continua, a autora ergue os olhos, olha para a fila, e seu olhar encontra o de A. E é aí, e só aí, que ele enfim se autoriza a sair da fila, correr para o banheiro, experimentar a conhecida mescla de aflição extrema e alívio justo, e contar depois para B o que passou e o porquê.

lydia

 

 

 

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on novembro 26, 2013

Estava escrevendo um ensaio sobre Levrero, o primeiro que escrevo sobre sua obra, e na verdade algo menos, menor que um ensaio: era uma participação em uma mesa-redonda, um discurso breve, de meia hora, para uma audiência heterogênea.

Me custou escrever: havia muito o que dizer, ou assim imaginava, e havia um ruído de fundo que tem me esgarçado um pouco, sedando certas habilidades, me deixando em geral um pouco distraído mas, o que é um pouco lamentável, não inconsequente. Assim, o quadro é tal que a preocupação vem, com sua gana de consumo, mas gera pouco resultado, como se eu testemunhasse a aflição sem medo, mas sabendo de seus custos. Lembro de fingir que era um fantasma me cobrindo com um lençol e acreditar que as pessoas não sabiam quem eu era: é algo dessa ordem. Ao longo do último mês fui lendo e amealhando notas e notas sobre La Novela Luminosa, e fui conduzindo essas notas ao estado de ensaio, construindo um argumento nas fichas, cotejando a marginalia com o que já tinha lido de recepção a Levrero. Muita coisa, muita confusão: não é assim que se faz, não é assim que se fala. Uma coisa de cada vez.

A primeira ideia que tive para o texto foi explorar uma espécie de epistemologia de esquerda que aparece em Levrero e que passa pela valorização de incidentes sincrônicos, de eventos de ocorrência relativamente frequente para mim também, mas que tendem a ser deslidos pela gente como nada. Para isso me ajudavam alguns ensaios formidáveis da Luciana Martinez, que exploravam justamente essas conexões, digamos, parapsicólogicas em Levrero, e que avançavam no entendimento de uma proposta particular de saber literário, de saber da literatura, saber da ficção, que emana de alguns de seus escritos, em especial de La Novela Luminosa.  Isso foi reforçado por um post e uma conversa com o Rafael, quando nos encontramos lá na Tijuca, da última vez que estive no Rio. O que é que magnetiza o evento coincidente, os fatos do mundo que convergem com os fatos da leitura, quando se lê esse livro que tematiza justamente isso? É efeito do deslocamento de atenção que o próprio livro provoca, atraindo nosso olhar para matéria em geral presente, mas que tende a se fazer mais saliente ao observarmos que lá, na narrativa, o personagem com o qual estamos convivendo está prestando atenção nessas coisas?

A primeira vez que ouvi falar em Levrero estava em Buenos Aires, em 2008, indo lá pela primeira vez, gastando o que não podia comprando livros na Hernandez da Corrientes, e ao meu lado ouvi um homem falar em Portunhol fluente com o vendedor, indagando Que teneis de Mario Levrero? E então eles entabulam uma conversa, discreta e fugidia, e parece que me lembro de falarem sobre a “trilogia”, e que a certa altura o homem – grande, gordo, careca, branco, seus quarenta e tantos anos, terno e gravata, digamos um advogado gaúcho – diz ao vendedor Soy brasileño, e então me distraio da conversa alheia, registro o nome do autor, a coisa sobre a trilogia, e sigo meu caminho. Hoje duvido que essa tivesse sido uma primeira vez, pois o que teria trazido à minha porta aquelas palavras, aquele intercurso entre cliente e vendedor? Muito se ouve, tanto se esquece, mas de onde a durabilidade daquilo. Assim é que anos depois, quando estava lá em Buenos Aires de novo, já muito íntimo da cidade ou assim me achando, quando saí da casa de Cesar Aira e fui caminhando Rivadavia afora em direção à UBA – para desanuviar, para espairecer, para deixar que algo em mim perdurasse, ou permanecesse – me embrenhei na universidade, lá fiz minhas coisas, ou fingi que fiz, e na saída entrei naquela livraria logo ali, no quarteirão seguinte, Gambito de Alfil: excelente acervo, excelente livreiro, adorador, como tantos argentinos, do Presidente Lula. Estou então cruzando a rua, de olho no kiosko, pois sinto sede, está um pouco frio, e olho pro relógio, tenho tempo, entro na livraria, me lembro do leitor de Levrero de anos antes, em outra vida minha, em outra livraria, em outra rua de Buenos Aires, e vejo imediatamente um exemplar de La Novela Luminosa diante de mim, no primeiro balcão que paro para examinar. A precognição talvez seja muito subestimada, não sei se tinha tido uma impressão fugacíssima do livro antes da lembrança, me parece que a lembrança fez o livro aparecer diante de mim, que a memória me moveu e ajudou, Teneis algo de Levrero? A lembrança foi o amigo a me conduzir naquela hora cheia de misturas, de agonia, de aflição, mas também das felicidades todas que a Argentina sempre foi pra mim, Soy brasileño, e me pergunto por que não assim, se assim foi pra mim.

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 13, 2013

Hoje, adoentado e melancólico, decidiu ler um trecho do Entrevistas com Brodsky.

Como descobriu esse livro? Não se lembra, mas lembra que chegou no Brodsky pelo entusiasmo de uma resenha do Diogo Mainardi. E nunca mais deixou Brodsky, ou vice-versa: todos os semestres submete os alunos a uma sessão de leitura da Canção de Boas-vindas; uma vez viu Il Miglior Fabbro lendo esse poema em uma oficina de poesia que frequentou; outra vez comentou algo com F, ambos já meio bêbados, e foram os dois trocando estrofes favoritas até que o poema se dissolvesse em riso metafísico e na poeira cósmica anunciada, que nos tragará e continuará. E hoje, sabe-se lá por qual rota, chegou no livro que, lembra, retirou de uma prateleira infeliz no Elizarte, um sebo do Rio que frequenta fielmente há mais de vinte anos, desde a primeira vez que foi ao Rio, moleque ainda. Lá estava esse livro de entrevistas, meio caído, meio mofado, muito barato.

O entrevistador, Volkov, era também um exilado, e tava numas de fazer entrevistas com exilados: Balanchine, Shostakovich, etc. Ia lá no apartamento do Brodsky, no Brooklyn, ligava um gravador, e os dois engatavam a conversa. Brodsky obviamente estava a fim de falar, e falou: conta tudo, é uma espécie de autobiografia oral, com muito toma lá dá cá e alguma correção recíproca; não parecem ser amigos, há farpas paca, mas a coisa continua. Impressiona como Brodsky tava a fim: você tem hoje a mesma idade que ele tinha quando deu essas entrevistas, pouco tempo depois ele faria uma cirurgia do coração, o seu também anda combalido. Impressiona como ele tava a fim, e você se pergunta se é a insinuação de mortalidade que o motiva, se ele já tinha escrito Canção de Boas-Vindas, se ele já tinha escrito Menos que um. 

O livro estava muito mofado, se sentia o mofo imortal e vencedor brilhando cada vez mais a cada virada de página, rumando em ondas místicas como um Minuano do Saara em direção ao nariz, uma fala cuja única tradução é a alergia.

Você coloca o livro na janela para tomar um pouco de sol: abre o livro, espalha as paginas e a sobrecapa. Volta, depois, e vira o livro, muda tudo de posição: o sol se vai e você ainda deixa o livro no vento, na janela, apoiado na tela.  A certa altura ficou virada pra você uma foto do Brodsky, careca e pançudinho, quarenta anos, muito bonito e formidável, uma vida e tanto, puta poeta, morava no Brooklyn, de vez em quando se acostava com a Sontag. Quantas calças será que ele tem? Como é seu guarda-roupa nessa época? Como ele fazia para arejar o próprio mofo?

brodsky

Javier Marías, Balzac

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on junho 12, 2011

Hoje ia fazer uma prova sobre a trilogia do Javier Marías – que, como vocês sabem, não li. Não tinha medo: planejava improvisar, usando o que já li do Marías mais o que já li sobre, achei que com isso ia dar conta.

Cheguei e, como de costume, havia toda aquela liturgia na biblioteca, a arrumação dos dias de exame, o silêncio. Quando estava já pra começar a escrever, entrou no salão um homem de uniforme, um guarda, e trocou algumas palavras com o supervisor que, imediatamente, apontou para mim, assentindo com a cabeça. O guarda se aproximou, me abordou, confirmou meu nome, e me disse que eu precisaria retirar meu carro, que estava obstruindo o trânsito.

Obviamente, me atrapalhei, me esbafori e me apressei, saí correndo para tirar o carro logo e voltar o quanto antes, a tempo de ter tempo para fazer o exame. Mas ao retornar a biblioteca parecia ter se desdobrado em várias outras, uma infinidade de salas e corredores e escadarias semelhantes que nunca me levavam à minha sala, ao salão de onde eu tinha saído, onde me esperava meu supervisor, meus colegas e, em minha mesa, minha folha de exames com meu nome, minhas canetas, tudo de que eu precisava para escrever minha dissertação sobre a trilogia de Marías. Perguntei a uma pessoa que lia no corredor sobre o teste e ele fez um gesto em direção a uma sala e me disse Aqui é sobre Balzac. Caminhei mais, a luz baça dos vitrais no corredor, apertei o passo para alcançar uma moça que caminhava à minha frente e perguntei a ela sobre a prova e ela disse Eu também tô indo pra lá, tô atrasada, é no salão, sobre Balzac, não é?

História abreviada dos livros que publiquei

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 13, 2011

Lancei três livros até agora.

O primeiro foi uma coletânea de textos do Rorty: três conferências, um texto autobiográfico, um texto de prognóstico e profecia: todos traduzidos com muita alegria por mim, em meu velho Mac Classic, e revisados em conversas com minha então orientadora. O livro contava ainda com uma introdução que eu e ela escrevemos juntos e com uma orelha generosa do Luiz Eduardo Soares. Nunca houve lançamento desse livro, nunca dei autógrafo, e sequer fui remunerado pelo trabalho; a edição se esgotou, e eu mesmo só tenho um exemplar. Lembro de ter ficado feliz quando apareceu, lembro de ter achado bonito e de ter sentido orgulho.

O segundo foi um livro que resultou de um prêmio que recebi de um banco interessado em promover a cultura: meu nome saiu na capa, junto com o de outros onze premiados, e o livro é esse balaio, sem outro norte a não ser o conferido pela premiação. O texto que saiu nesse livro me trouxe muita alegria: talvez pela primeira vez tenha me arriscado, tenha escrito algo sem saber direito o que escrevia. Era, é claro, apenas um ensaio: comentário, crítica, que é tudo que escrevi até agora, tudo que escrevo. Mas era também uma outra volta do negócio: acreditei  que o texto honrava minha relação com o Autor que comentava, e não me sentia perseguido pelo medo do erro.  Depois desse livro fiquei um tempo cheio de sonhos loucos de um novo começo, acreditei que estava descobrindo algo a respeito da escritura. Eu era e sou um filho de Barthes – bastardo e tardio e não-planejado, mas amado, no amor que vai de mim pra ele, sempre – e estava descobrindo aos trinta e poucos anos o que, enfim, se queria dizer com a distinção escrevência/ escritura. Mas, é claro, nada ocorreu, pois assim é a vida: as coisas só ocorrem às vezes, seria talvez o caso de compreender isso que chamamos de adventício a partir de outra matriz de valoração – pois vivemos todos mais ou menos escravos da razão prática e da lógica do resultado, do suposto matrimônio de trabalho e amor, mas o que fazer de amores de dissipação, de forças-de-vontade que se esgarçam sem muito ônus, sem muita preocupação com operações monumentais de fixação de marcos de passagem – o que fazer? Claro está que, se a pessoa pensa em coisas assim, apenas ocorreu algo da mesma ordem daquilo que nutriu a fatura do ensaio que propiciou essa forma peculiar de aprendizagem e alegria que nunca se fixou nem em conquista nem em método nem em transformação da vida nem em epifania – e, como tudo o mais, também se foi.

O terceiro foi um livro que escrevi sem saber que estava escrevendo, pois o que estava escrevendo eram uns artigos com um amigo pra uns eventos acadêmicos que foram aparecendo. Me impressiona observar o pouco que lembro hoje de como foram escritos esses textos: o que lembro é do período, e isso é como lembrar do conjunto, mas não do conteúdo, e só são coisas vagas, minha dureza eterna, o apartamento, os livros, a mesa, a cama, os cigarros, uma lâmpada que eu adorava, as estantes que eu fiz. Mas lembro, claro, da amizade: lembro da presença dessa pessoa, meu amigo, o co-Autor, em minha vida, como uma pontuação: a primeira vez que nos encontramos, conversa X, conversa Y, conversa Z, visitas, saídas, risadas, conselhos; sua insistência para que eu parasse de fumar e começasse a nadar, a diferença na ordenação e no suposto projeto de nossas vidas, o gosto musical lastimável que até hoje o caracteriza. Uma vez viajamos os dois para a Europa e não nos encontramos em Praga por dias de diferença – e, depois, rimos ao pensar no encontro fortuito, ele de terno e com toda pompa e circunstância, eu de mochila e o antípoda da pompa. Outra vez, na véspera de minha defesa de doutorado, nos encontramos sem marcar nada na hora do almoço no restaurante japonês que, seis anos antes, eu tinha apresentado a ele. E outra vez liguei pra ele de um orelhão porque me sentia totalmente solitário, e achava que ninguém mais poderia ter algum interesse em me ouvir a não ser, talvez, ele – o que nos diz que o melodrama, como Puig bem sabia (e Barthes também), tem sua zona de pertinência facilmente verificável na carne de quem o vive, onde habita como punctum.

Esses são os livros que há, mas há também os que virão.

Um próximo contará como, ao longo de sete anos, persegui um projeto de escrever uma biografia de um Autor que admiro e naufraguei seguidamente. O livro será a contrafação do insucesso que constitui sua matéria; vou gostar muito de escrevê-lo mas será, é claro, pouco lido e logo esquecido.

Um outro será uma investida de reescrita crítica de alguns textos que admiro mas que julgo problemáticos e enfadonhos, são como uma refeição boa que melhoraria com o apropriado condimento. Assim, em um dos contos veremos trechos do Diário de Moscou, de Benjamin, mas com um pouco de sexo, por favor, pois tanto tesão pela Asja não sobreviveria sem alguma puta, sem alguma masturbação, sem subir pelas paredes em ardor. Em outro, pego dois de Os Três Mosqueteiros e os coloco a caminhar por uma alameda a discutir algumas questões menos monárquicas, e mais suculentas: Athos descobre uma forma de proto-Marxismo, e começa a temperar suas análises de conjuntura com essa mirada oblíqua, sugerindo estratégia a partir de pressupostos Revolucionários. Um terceiro e último conto – pois o livro será também, evidentemente, uma homenagem a Flaubert, dispensável para ele mas necessária para mim – será a história de um arqueólogo jovem, em início de carreira, escavando em Túnis e descobrindo ruínas com inscrições, textos antigos que contam uma história alternativa à que é contada em Salammbô: o arqueólogo ignora Flaubert e, enquanto ele pensa ver a escrita da História nós, que lemos a história dele, sabemos que já não sabemos mais qual é o fim da Ficção. O livro será um exemplo de crítica como prática revisionista da literatura – e será demolido pelos neoconservadores da crítica, esses que ainda estão de fraldas agora mas estarão de dedo em riste no futuro próximo, prontos a antagonizar tudo que seja um mundo que não seja o seu – mas se pagará plenamente pelas gargalhadas que darei ao escrevê-lo, e será lembrado, de vez em quando, por meus amigos.

Há um outro, por fim, um livro meio acadêmico, que coleta todas as coisas lindas que o Kelvin me sugeriu ao longo dos anos. Tio Toni, porque você não escreve aquela história do grego em Nova York? ou E aquele texto que você disse que ia fazer comparando o minimalismo de Carver ao de Lydia Davis, hein? Cadê? Tinha até título, o título ficou bacana. ou Você lembra que me disse uma vez que tinha um ensaio sobre o Diário do ano da peste, de Defoe? Que fim levou esse texto?  Esse livro escreverei sem esforço quase nenhum, o que é uma mentira, e será um bom começo portanto para um livro que só tratará de fatos: nele, vou incluir aquele trecho do meu diário no qual conto a respeito do dia em que atravessamos a Avenida Paulista, eu e o Kelvin, de ponta a ponta, o passeio acompanhado de uma inigualável conversa fiada na qual falamos inclusive de Saer, e que escrevi como se fosse uma versão 2.0 de Glosa – pardacenta, turbulenta, edulcorada, mas minha, enfim meu manifesto de libertação do jugo da prosa de Saer. Sei muito pouco sobre esse livro além disso, mas sempre imagino que vou estar feliz no dia do lançamento.


Exercícios de Crítica Literária Contemporânea

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 5, 2011

1.

O comentário biográfico incide reiteradamente sobre dois processos em Henry James.

Um, é seu tartamudear: não é de forma alguma uma gagueira, mas uma enunciação hesitante e tateante que o persegue desde muito cedo. Não há gravações de James, mas podemos imaginar a sequência de Well… Uhm… I mean… So… etc

Outro é o uso que faz de um amanuense: por volta dos 50 anos, James começa a manifestar os sintomas do que hoje é a conhecida Síndrome do Túnel do Carpo e, como uma resolução para seu sofrimento cotidiano, contrata um copista. É possível imaginá-lo, a partir desse momento, alterando sua rotina de trabalho, e incorporando ao seu processo composicional um deambular pela sala, um ir e vir que ocorre em paralelo à enunciação enquanto o copista, silencioso, oculto, atento, copia.

Estabeleça um paralelo entre os incidentes citados e as peculiaridades do discurso indireto livre na obra tardia de James, com particular atenção a The Golden Bowl.

2.

Em 1942, Bowles se mudou para um apartamento na 14th St com a 7th Ave. O ocupante anterior tinha sido Duchamp e, assim, eles se conheceram.

Improvise.

3. 

É conhecida a afirmação de Piglia: A critica é uma das formas modernas da autobiografia. Um sujeito escreve sua vida quando crê estar escrevendo suas leituras.

Disserte sobre o tema, considerando as manifestações em A, B, e C.

Derridabase 2.0

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 4, 2011

O meio de uma manhã de Maio de 2011: ele está preparando aulas.

Essa denominação vulgar obscurece um procedimento muito idiossincrático que é, algo paradoxalmente, um dos esteios de sua profissão – que é, por sua vez, uma profissão que é tomada como dado, como envolvendo um saber que todos tem, sendo algo que todos podem. Em um certo sentido isso está correto – mas é também parte do resumo grotesco de incompreensão geral que envolve esse que é o seu trabalho, no qual ele está envolvido nessa manhã.

A certa altura, ele hesita. Devo discutir Derrida aqui? O debate que pretende travar com os alunos hoje circunda as relações entre etnografia e estruturalismo, então talvez valha a pena recuperar algo de “A estrutura, o signo e o jogo”, de Derrida. Ele vai à estante, procura o livro, não acha, perturba sua mulher, encontra o livro, o abre, e começa. Mas, ao invés de continuar procedendo como procedia – lendo pela enésima vez esse texto, destacando trechos em uma ficha que depois vai organizar em um esquema em outra ficha, que depois vai reproduzir no quadro e que vai utilizar como recurso mnemônico e norteador da discussão – desliza e divaga para o seu primeiro encontro com esse texto, na época do mestrado, há mais de quinze anos.

O que era esse texto para ele, então? Um enigma, uma foice a recolher de um golpe só suas entranhas, sua suposta inteligência, sua capacidade de se defrontar com o desconhecido reduzida a uma cabeça de fósforo, tudo reduzido à sua devida insignificância hermenêutica.  A primeira vez que ouviu uma menção a esse texto ocorreu no meio de um discurso inflamado de uma professora, uma cientista política de quem não ouve falar há muito, muito tempo, mas que sabe que se aposentou cedo, nunca terminou o doutorado e mora, se ainda vive, no interior. Essa mulher tinha uma têmpera única, ele nunca viu de novo aquele tipo específico de condução da energia em uma discussão: qualquer conversa podia se transformar em um debate, e um debate era sempre um engalfinhar-se, mas era como se houvesse uma alegria de fundo, um automatismo como o do riso quando vem, inevitável, irresistível, no fim de uma piada. Uma vez ela disse Vendi todos os meus livros e deixei só uns de Foucault; outra vez, perguntou Ora, você não está levando isso a sério, não é, rapaz? E se você não está levando a sério então porque é que tá levando, hein? E ele, obviamente, nada soube responder.

Essa foi a mulher que uma vez lhe disse Ficam aí discutindo como se Derrida nunca tivesse escrito A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências sociais, ficam aí tergiversando como se isso fosse nada. Essa declaração, em sua força enigmática, oracular, o inquietou enormemente – e lá foi ele, contrito e cdf, procurar ler o que deveria já ter lido, sempre atrasado e aflito, sempre atrás de si mesmo, demasiado lento pra ser eficaz ou achar que está em sintonia certa com seu tempo, suas necessidades, tudo que é imperativo saber para ser. Essa primeira leitura, realizada na biblioteca da universidade, incompreensível, não foi menos oracular que o proferimento que o havia levado à leitura – e foi ela que retornou hoje, enquanto ele preparava sua aula, pensando no que debater com seus alunos, quinze anos depois de todos esses incidentes, sua memória cheia de lembranças e nomes desses personagens perdidos com os quais conviveu e que foram remexendo nele como se fosse de barro, como se ser jovem fosse o mesmo que não ter nenhum formato, nenhum livro de Foucault a preservar, a menor consciência do que disse Derrida, e na verdade nada a dizer.

O que era isso, considerando o ensino?, ele pensa, O que ela estava, de fato, ensinando? Pensa isso e, rapidamente, descarta, isso não é interessante, não é sempre que se ensina, muito menos que se aprende – essas coisas na verdade são difíceis, remotas, e adventícias, provável efeito colateral de uma outra coisa, um enigma mais vasto, talvez mais interessante, mas a hora avança, a manhã se consome, o tempo passa e a aula chegou – e nela, evidentemente, nada disso foi dito.