ensaio

Elementos de Crítica Patética – I

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 23, 2015

O melancólico palimpsesto de todos os textos alheios nos quais você já meteu a mão: os infindos trabalhos escolares revisados, os pareceres inumeráveis, os emails, as manifestações, os ofícios.

A agoniada rede semântica na qual você se embaraçou: fiada por você, ano após ano, suas monotonias, sua incomensurável chatura enquanto ânsia de relevância.

Ó, tédio filhodaputa do eterno retorno do turno de fala. Da importância da literatura na formação do homem. Da memória cultural. Do hiato entre a experiência e o texto.

O que é a influência? O sujeito da escritura evolui. Programa de uma vanguarda.

Um instrumento sutil (ele não sabe aprofundar direito).

Uma banalidade corrigida.

haillet1973-1

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Derridabase 2.0

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 4, 2011

O meio de uma manhã de Maio de 2011: ele está preparando aulas.

Essa denominação vulgar obscurece um procedimento muito idiossincrático que é, algo paradoxalmente, um dos esteios de sua profissão – que é, por sua vez, uma profissão que é tomada como dado, como envolvendo um saber que todos tem, sendo algo que todos podem. Em um certo sentido isso está correto – mas é também parte do resumo grotesco de incompreensão geral que envolve esse que é o seu trabalho, no qual ele está envolvido nessa manhã.

A certa altura, ele hesita. Devo discutir Derrida aqui? O debate que pretende travar com os alunos hoje circunda as relações entre etnografia e estruturalismo, então talvez valha a pena recuperar algo de “A estrutura, o signo e o jogo”, de Derrida. Ele vai à estante, procura o livro, não acha, perturba sua mulher, encontra o livro, o abre, e começa. Mas, ao invés de continuar procedendo como procedia – lendo pela enésima vez esse texto, destacando trechos em uma ficha que depois vai organizar em um esquema em outra ficha, que depois vai reproduzir no quadro e que vai utilizar como recurso mnemônico e norteador da discussão – desliza e divaga para o seu primeiro encontro com esse texto, na época do mestrado, há mais de quinze anos.

O que era esse texto para ele, então? Um enigma, uma foice a recolher de um golpe só suas entranhas, sua suposta inteligência, sua capacidade de se defrontar com o desconhecido reduzida a uma cabeça de fósforo, tudo reduzido à sua devida insignificância hermenêutica.  A primeira vez que ouviu uma menção a esse texto ocorreu no meio de um discurso inflamado de uma professora, uma cientista política de quem não ouve falar há muito, muito tempo, mas que sabe que se aposentou cedo, nunca terminou o doutorado e mora, se ainda vive, no interior. Essa mulher tinha uma têmpera única, ele nunca viu de novo aquele tipo específico de condução da energia em uma discussão: qualquer conversa podia se transformar em um debate, e um debate era sempre um engalfinhar-se, mas era como se houvesse uma alegria de fundo, um automatismo como o do riso quando vem, inevitável, irresistível, no fim de uma piada. Uma vez ela disse Vendi todos os meus livros e deixei só uns de Foucault; outra vez, perguntou Ora, você não está levando isso a sério, não é, rapaz? E se você não está levando a sério então porque é que tá levando, hein? E ele, obviamente, nada soube responder.

Essa foi a mulher que uma vez lhe disse Ficam aí discutindo como se Derrida nunca tivesse escrito A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências sociais, ficam aí tergiversando como se isso fosse nada. Essa declaração, em sua força enigmática, oracular, o inquietou enormemente – e lá foi ele, contrito e cdf, procurar ler o que deveria já ter lido, sempre atrasado e aflito, sempre atrás de si mesmo, demasiado lento pra ser eficaz ou achar que está em sintonia certa com seu tempo, suas necessidades, tudo que é imperativo saber para ser. Essa primeira leitura, realizada na biblioteca da universidade, incompreensível, não foi menos oracular que o proferimento que o havia levado à leitura – e foi ela que retornou hoje, enquanto ele preparava sua aula, pensando no que debater com seus alunos, quinze anos depois de todos esses incidentes, sua memória cheia de lembranças e nomes desses personagens perdidos com os quais conviveu e que foram remexendo nele como se fosse de barro, como se ser jovem fosse o mesmo que não ter nenhum formato, nenhum livro de Foucault a preservar, a menor consciência do que disse Derrida, e na verdade nada a dizer.

O que era isso, considerando o ensino?, ele pensa, O que ela estava, de fato, ensinando? Pensa isso e, rapidamente, descarta, isso não é interessante, não é sempre que se ensina, muito menos que se aprende – essas coisas na verdade são difíceis, remotas, e adventícias, provável efeito colateral de uma outra coisa, um enigma mais vasto, talvez mais interessante, mas a hora avança, a manhã se consome, o tempo passa e a aula chegou – e nela, evidentemente, nada disso foi dito.

Problemas da Escrita de si, versão doméstica

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 25, 2010

Um de meus alunos – um bom aluno, com quem já havia trabalhado em outra disciplina – me entregou um desses textos autobiográficos que costumo pedir que produzam nas primeiras aulas dizendo Esse foi um dos textos mais difíceis de produzir pra mim, acho que foi o texto mais difícil que eu produzi na faculdade.

Há uma certa perplexidade de minha parte; penso que, se o texto trata do assunto “eu”, considerando ainda por cima toda a configuração contemporânea, nada mais imediato e automático, não devia haver dificuldade. Onde está o problema?

Por essa via, a perplexidade logo dá lugar a alguma perspectiva e, talvez, algum entendimento do que pode estar em jogo: colocar-se no texto não é necessariamente fácil, a escrita de si também tem seus desafios, a configuração do que é aceitável dizer na academia é em geral adversária desses exercícios, escrúpulos sempre estão associados a dificuldades – por aí vai.

No negócio de escrever, a clareza e o enigma: o estar disponível para a escrita, o que é minimamente necessário para que se escreva. Barthes, em Uma espécie de trabalho manual, comenta o caráter artesanal da escrita, dizendo que a própria lentidão da escrita o protege. Proteção, abrigo, defesa: de quem, de quê? Claro, também se escreve com pressa – mas essa escrita à qual Barthes se refere solicita certa lentidão, acolhe a hesitação como princípio ativo, não arremete nem corre. Responde, antes do ocorrido, à frase Publico x textos por ano, que ouvi outro dia, ostentada por um idiota que é, inclusive, como é costumeiro, tido por proto-idiotas como modelo moral: o mané diz sem hesitar, confirmado pelo espírito de época, como se houvesse valor necessário aí.  Saer, como sempre aparecendo em minhas conclusões – o que diz que as conclusões não são, de fato, minhas, mas sim dele – fala, em uma entrevista, de sua predileção pelos cadernos, pela escrita a mão, pela materialidade de uma relação com o fluxo do que se escreve que, em sua particularidade, produz uma pontuação, conduz a uma sintaxe, do mesmo jeito que a falência do fôlego forja a frase de um jeito ao invés de outro. Uma coisa que, em outro, eu tenderia a repudiar, mas que dita por Saer soa, obviamente, distinta para mim: fazendo um elogio da escrita como metempsicose, que tema mais borgiano, Saer diz que escrever é uma espécie de translado no qual o vivido passa, através do tempo, de um corpo a outro. E, como é Saer quem disse, e como sou eu quem lê, algo acontece que me faz não apenas ler o que meu aluno disse daquela maneira há dois dias mas, também, escrever isso aqui.

Blogologia – 1

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on junho 2, 2010

Como já comentei aqui antes, este blog busca se aproximar de outros, que servem de modelos com relação aos quais meço meu sucesso relativo aqui. Claro, isso deve ser tomado cum grano salis – isso não é uma corrida de cavalos, e efetivamente estou apenas falando, de um jeito que julgo mais acertado, desse negócio que vai por aí chamado de “inspiração”. Se escrevo esse blog é porque, antes, li outros – e, tendo lido, quis escrever também, participar da conversação desse jeito particular que se configura quando você escreve. Sei que muitos de meus alunos ficarão horrorizados ao se defrontar mais uma vez com esse pronunciamento, mas é o tipo da Verdade que clama por enunciação desde o Início dos Tempos: a gente lê primeiro e depois, eventualmente, escreve. Isso, que está sendo escrito aqui, segue essa cadeia causal, assim como tudo o mais que já escrevi e provavelmente que escreverei.

Assim, vejam aqui algumas fontes deste blog:

1. Il Miglior Fabbro. DP, Mojo-man, escreveu por um tempo o melhor blog que li, o que mais curti ler: eu dava aulas de Inglês em horários ridículos, encarava todo tipo de problemas de um professor subalterno, que ao mesmo tempo era um profissional em formação – mas eu sempre encontrava algum tipo de consolação boeciana nos textos desse senhor. Hj o blog é um finado, mas pode-se ver pelos fósseis espalhados na web que o material era fino. Depois houve uma outra investida, no esquema dos Amores Expressos – e mais uma vez DP se notabilizou e distinguiu. The motherfucker just can’t help it.

2. O Amigo. Maurício Raposo foi um dos poucos amigos que fiz na época do mestrado; depois que paramos de nos ver e falar – e isso durou anos, viagens minhas, viagens dele, casamentos meus, casamentos dele – só sabia dele por seu blog. Que era sempre bom, que tinha uma pegada fenomenal, que parecia ser movido por um pathos todo particular que eu teria de renascer pra encarnar. Um dia pensei isso mesmo: que só com uma biografia como a dele se escrevem coisas como essa, ou essa, ou esse projeto de pastiche de Eça. Às vezes penso que em minha hora final lembrarei dele, com sua calça de moleton às avessas, sua barba por fazer, suas fitas de Neubaten, seus cigarros amassados, sua voz molenga de ex-carioca. Direi, com muita dificuldade, Raposão… e ele, em silêncio total, sem nenhuma hesitação, acenderá um Marlboro e o colocará entre meus dedos, trêmulos e marcados de velhice e leitura, como os dele. Acenderá um pra ele também e começará a recitar, em Alemão, aquela passagem dos Tagebuchen de Kafka que eu tanto gosto. Amigo é pra essas coisas, também.

3. Gringos acadêmicos. Modelos de excelência impressionantes – como esses caras conseguem? como produzem tempo, e disponibilidade, para encarar essas caixas de comentários voluptuosas? enigmas. Destaco três, com considerável variedade: o superprofissa Michael Berubé (veja esse post aqui, observe a sagacidade no uso dos links, a condução esperta de um argumento complexo, mas exposto com tranquilidade, passo a passo), o brasileiro-cum-cajun Idelber Avelar (que deu um tempo no blog, e isso já faz um bom tempo – mas como ele escrevia: veja aqui uma página qualquer, que não escolhi por ser especial para mim por alguma razão, mas justo por revelar o que era a ordem do dia quando o blog funcionava: vai do conflito entre Israel e Palestina até Cássia Eller, do importante ao trivial, do legal ao brega), e esse anônimo blogueiro que descobri graças ao DP (veja que manifestações magníficas essa e essa aqui – observe como o segundo é uma cápsula de etnografia da literatura contemporânea, ou das práticas que fazem isso que chamamos de “campo literário”). Diante desses, só me resta dizer Porra.

E vejam que nem mencionei o Kelvin, ou o Douglas, ou o Xerxenesky, ou esse negócio muito impressionante que o Berna vem fazendo quietinho, há anos, ou ainda esse projeto de comunidade imaginada dos Mesquita Bros & Co. E há mais, muito mais: ruim, bom, razoável, sofrível, risível, constrangedor. O negócio é abundante, e o problema não é – provavelmente nunca é – a escassez de recursos.  E qual é, então, o problema?, você se pergunta. E eu, que sou de poucas perguntas, tomo emprestado essa sua e pergunto a Adorno, na praia.

Opoyaz, ganha-pão

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on junho 2, 2010

Eis que Kelvin aparece com mais dois posts muito bons, aqui e aqui. Ele está falando de coisas em meu terreno – que é também, em certa medida, o dele. Em que pesem todas as diferenças geracionais e estilísticas, ler, falar e escrever sobre Saer, Piglia, e mesmo Aira é parte do que põe o pão na mesa pra nós dois – nós dois participamos dessa fortuna.

Falei pra um amigo outro dia, Esses blogs são minha Opoyaz. Claro: uma Opoyaz ralé, pós-pós-tudo, cheia de Pro-Ams, sem tanta solidificação quanto sua matriz e inspiradora involuntária, sem manifesto, provavelmente mais apta a acolher diferença e vacilação que a versão anterior, privada de gênios. Mas é um coletivo que mantém uma rotina de conversações e barganhas que nutre as produções de cada um; com sua particularidade faz uma coisa que, independente de qualquer telos desejado ou projetado, é vida literária no século XXI.

Por exemplo: há alguns dias, o assim-chamado Andreis Passarinho publicou em seu blog uma análise sinóptica do trabalho de Bernardo Carvalho. É um post de umas mil palavras, mais de seis mil caracteres: é bem mais do que tenho quando escrevo pro jornal. Salvo engano, aí está ele a usar seu blog para fazer um negócio que, na falta de melhor palavra, é crítica literária. Observem que o crítico anota a obra, se posiciona, exibe o comentário na esfera pública – se isso ainda não é crítica, não sei o que é, e vou me poupar de brandir Terry Eagleton por hora.

Postei em uma comunidade do Orkut que modero um comentário sobre o texto do Andreis; disse:

Eu concordo e discordo ao mesmo tempo com quase tudo! O básico é que os aspectos que o crítico usa para malhar são para mim sinal de excelência: acho que BC se esforçou bastante para produzir dois grandes livros – o Nove Noites e o Sol se põe em São Paulo – e agora está iniciando um outro negócio, que vamos ver no que vai dar.

Eu teria, terei muito mais a falar sobre BC – como vcs ja sabem. Já escrevi sobre o cara, e não tenho problema em dizer que o “estudo”, que o que ele faz é incorporado por mim a parte de meu trabalho tb. Mas, antes de meter minha colher, queria ver o que vcs acham do post aí. O que vcs acham?

E, em questão de horas, li que o Diego Giesel pensava que

AM, quando o Andreis falou sobre o Vida modo de usar eu pensei a mesma coisa. Concordo e discordo.

E que o Refrator de Curvelo, por sua vez, achava que

Não. Eu tendo a concordar. Estou mesmo incomodado com as coisas que o Andreis escreveu. E não se enganem. Defendi, com relativo sucesso, nosso Bernardo Carvalho em algumas situações e tenho o sujeito como um baita artesão de letras que, inclusive, me causa inveja. É bom ter por aí alguém que sabe o que está fazendo. Mas falta algo.

Não gosto, contudo, de pensar que a responsabilidade do que falta é do Bernardo Carvalho. Esta é uma perspectiva crítica desmobilizadora, e muito cínica. Falta que os sujeitos que tenha coragem para errar consigam fazer isso com competência, e não com a cara cheia de pó ou coisa parecida. Que BC é um engenheiro, isso é. Que faz transplantes narrativos (coisa que o Andrei não fala, mas me salta aos olhos; é fácil encontrar Perec em “Teatro”; Bernhard em “As iniciais”; Chatwin em “Nove noites” – e encontrar eu digo encontrar, mesmo, como se fosse para tomar um chazinho ou encher a cara), também está lá. E faz bem, com maestria. O que está faltando é o resto que Bernardo Carvalho não é. Inclusive, ele não é outras pessoas. E isso, hoje, não temos. Outras pessoas.

C´est ça.

E já o Leandro disse

Eu também concordo e discordo ao mesmo tempo com quase tudo. Nove Noites e O Filho da Mãe são dois grandes livros. AM, acho que o O Sol se põe… tem um grande defeito, de inserir uma personagem que não tem nenhuma utilidade (a irmã do protagonista no Japão). O defeito que ele vê, de alguém que trabalha sempre com as mesmas peças, pra mim é uma grande qualidade. Algo failbettter.

Há outras contribuições, mas vou abdicar de arrolar todas aqui. Agora me diga você a que vem interditar essa conversa do status de crítica. Vá lá que não é Teoria, não se trata disso  mas há, aqui, especulação e empenho da atenção no tratamento da “matéria literária”. Claro: o estado é de embrião, e precisa de mais tempo e condições para acontecer, e só eventualmente se transforma, e sai dessa coisa mais dispersa e ligeira para virar outra coisa, coagulada em um comentário mais recheado de argumentos e com a devida arrecadação de evidências e desfile de justificativas. Observe que nesses comentarinhos, que seus autores escreveram provavelmente entre uma obrigação e outra, no meio de um dia ordinário, ou se refastelando numa procastinação comezinha e culpadinha, como é por exemplo do meu feitio, há, principalmente, leitura, e conversação sobre a leitura – e sem esses dois ingredientes, nosso ganha-pão cai por terra fácil.

Esse ganha-pão é difícil, mas também bom. Pode ser executado com retidão, e pode ser feito de maneira escrotinha. Pode se beneficiar muito de uma certa obnubilação – que, se vampirizada com destreza, garantirá ao picareta um modus vivendi relativamente folgado e privilegiado, com pouca chance de desmascaramento público – e é sempre bom lembrar que a casa também faz às vezes de asilo de dementes, de inviáveis alhures que aqui encontram abrigo. Esse ganha-pão pode, enfim, trazer uma alegria no processo, um esquecimento eventual do produto que se liga a recuperações infantis, a curiosidades atiçadas ad eternum, e distribui epifanias no ordinário; mas pode ser uma faina frustrante e amarga também, uma litania do ganho pouco, do me falta, etc.  É ainda possível que, como diz Bloom, esse negócio esteja agora em sua condição crepuscular. Mas, claro, ainda não: não viveremos pra ver isso.

Opoyaz on the beach

A carteira de estudante de Jorge Amado

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 26, 2010

Amanhã estarei em um evento sobre Jorge Amado, no Pelourinho. Estarei lá com uma camisa havaiana, calça jeans e, talvez, de sandálias; esse paramento – que, como é do conhecimento de vocês, não me é exatamente alheio – será também parte do comentário, que por conseguinte não será apenas comentário, mas também performance, como aliás é via de regra. A história do que me leva a esse evento talvez mereça ser contada aqui, em outro post – e fica, então, para outro post.

Para produzir o texto, pedi ajuda ao Mundo, e ele colocou diante de mim uma carteira de estudante do Jorge Amado, da época em que ele fazia cursos na Université de Paris. Ouvi, das evocações francesas da carteirinha, que deveria chamar por Babá Barthes, pois ele nunca me faltará; ouvi também que usar fotos, e memória, e discutir identidade, me servirá. Vejam vocês como o mundo é prenhe de sentidos potenciais, à espera apenas do olhar interessado.

Bom, bola  pra frente. Espero que seja um evento feliz.

Sabatina

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 22, 2010

Uma manhã sem natação = melancolia. Mais: obrigações sem conta no fim de semana, das mais prosaicas e sociais (o aniversário de uma amiga, ir ao supermercado) às mais portentosas e amedrontadoras (um artigo para começar e terminar, computar as notas dos alunos para devolver os trabalhos, ler todos os trabalhos que ainda não li). Tinha prometido a uma aluna – entenda-se: uma boa aluna, do tipo que merece esse tipo de compromisso – que comentaria um artigo que ela vai apresentar na segunda, e é essa a razão que, junto com tudo que mencionei antes, me traz aqui, para esse PC, para esse post.

Va bene, tudo ok, penso. E realmente acredito nisso: tudo ok. Mas, por favor, não venham me dizer que professor universitário não trabalha. Você, aluno, que pensa que a vida do professor é uma maré mansa sem fim: pense melhor, e pense bem se você quer isso, se deseja algo assim para si – pois eu tenho visto desejos de fama, fortuna, importância, prestígio, carro importado, e sempre muitos desejos sem fim de auto-engrandecimento, mas ainda não vi um de vocês lendo Don DeLillo pelos corredores, ou escrevendo um blog que não envergonhe a mim, que não o escrevi, que sou apenas seu leitor. Vejo, alunos, seus mil desejos escancarados, pendurados no pescoço pelos corredores, e peço a vocês apenas que trabalhem comigo e com os outros professores a partir de desejos minimamente compatíveis com esse negócio que vocês, em tese, vão fazer na Universidade. Por favor, ofereçam a este, e aos outros professores, a benesse de se defrontar casualmente com a excelência discreta e intempestiva; dêem – como um dom maussiano, sabendo que vai e volta – a seus professores a grande dádiva que será lidar com vocês sem ter de amaciar seus egos cotidianamente, ou pisar em ovos todo o tempo para não ferir suas sumamente situadas, apesar de quase universais, vaidades, ou simplesmente para nos permitir um tempo de trabalho sem que tenhamos de pensar quanto de nosso exercício é consumido no cobrar.

E você, camarada Autor: por favor, pare de pensar nos críticos de literatura como seus antagonistas, ou como a escória da humanidade – estamos no mesmo negócio, camaradas, e se há integridade moral vivendo ao lado de filhosdaputa incompetentes do meu lado da cerca, certamente há o mesmo em sua região também.

E você, camarada Crítico de Literatura, pare de usar hipérbole como se fosse juízo e evidência de vida inteligente – via de regra não é. Inteligência, às vezes, aparece como uma espécie de subproduto adventício, como o suor que às vezes encontramos do lado da geladeira, dessa atividade quieta, meio melancólica mas eventualmente produtora de muita felicidade, a leitura.

E agora vou ler, claro.

Amigos, Literatura

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 14, 2010

1. Uma amiga – pessoa criteriosa, boa leitora, em cuja opinião sempre confio – me diz Antonio, o livro novo do Roth é pavoroso. Que coisa horrível. É triste ver a decadência de um autor tão bom. Ladeira abaixo total. Ouço constrangimento: é como se ela tivesse vergonha da performance manca do autor que, com razão, admira. Eu, que admiro Roth, embora o admire menos que ela, sinto empatia, me sinto próximo do sofrimento dela. Enigma indecifrável, enigma perene: como o Grande Autor faz merda? Como, no Grande Autor, a performance do amador? Onde está o circuito de comentaristas imediatos do Grande Autor para dizer que ele está fazendo merda? Sabemos que as coisas são mais complicadas, me sinto um pouco melancólico com a frustração da minha amiga, assim é a vida literária: nos esforçamos, aqui está nosso tempo e dinheiro, ambos em geral escassos, lemos, e eis que nos fudemos – mesmo com o Grande Autor.

Depois, comentando sobre esse assunto com o Kelvin no gtalk, ele me disse Isso dá um bom título para um livro de um, digamos, filho espiritual de Garcia Marquez: História da Queda de meus Autores Queridos. Muita maiúscula, capa em tons pastéis, talvez um Iberê na capa. Que tal?

2.Leandro, que também é criterioso, um bom leitor, em cuja opinião sempre confio, tem razão: o Voo da Madrugada, do formidável Sérgio Sant’Anna, é irregular. Ele me disse Olha, Antonio, todo mundo elogia o Serjão, você vive evangelizando, falando pra ler o Voo e tal. Mas é o seguinte: aquilo ali parece um livro em que ele passou a mão na gaveta, reuniu uns trocados e mandou publicar. Tem ótimos contos, o do título é um deles, mas tem uma novela meio remendada – O Gorila, que é engraçadinha, mas parece que chegou uma hora que ele deu uma esticadinha e faltou cortar, e ainda tem um ensaio publicado na Bravo!, que li de novo agora dentro do livro e que me pareceu deslocado no volume. E que é bom, é bom – mas fiquei pensando O que é que isso tá fazendo aqui? Olhando as partes, parece bom, mas a soma, pra mim, resultou num livro ruim.

Ouvi isso e pensei, claro, o que qualquer pessoa em minha situação pensaria: Porra, Leandro. Não tenho argumentos – acho o livro excelente, e talvez varra pra debaixo do tapete o que ele salienta porque, vai saber – porque amor é isso, porque leio Sérgio Sant’Anna desde a época em que ele publicava na Status, vai saber. Quando fui lidando de maneira mais exploratória e sistemática com as possibilidades da narrativa curta contemporânea, muitas vezes tinha a impressão de já ter visto aquilo antes – em contos do Sérgio Sant’Anna. Coover? Barthelme? Carver? Parece que, à sua maneira, Serjão já estava lá quando encontrei todos esses autores – e talvez fosse o caso mesmo de avaliar a exposição a certos autores, tradições e possibilidades quando de sua estadia lá na Iowa Workshop: já vejo o título da dissertação: Inflexões, Influências, Procedimentos: Sérgio Sant’Anna na Iowa writers’ workshop, 1969-1970. Mas, só pra gente retornar aqui ao assunto à mão, disse, claro, como dizia antes, Porra, Leandro e disse também, Tá, você tem razão, mas você também tá pedindo demais, demais mesmo. Olha, pensa aí: troco o Conto Obscuro pelas Obras Completas do Paulo Scott, que tal? Tá vendo como eu tô caridoso? Tô saindo perdendo nessa barganha, broder! E ele, claro, riu.

3. O Diego me escreveu um email dizendo, entre outras coisas, que está lendo o Submundo, de Sua Santidade Don DeLillo – eu nem respondi, estou respondendo agora. Não consigo compreender porque meus alunos não aparecem na aula portanto volumes de Don DeLillo – porque dentre tantos alunos que tenho que são obviamente alunos de Letras frustrados e miserabilizados com sua própria incompetência para passar no vestibular para Comunicação, nenhum se dá conta de que há tesouros à sua disposição entre as páginas de um livro de DeLillo, e talvez uma vida menos amarga e menos desencantada adiante. Não vejo a hora de ocupar o púlpito de uma sala de aula ou de um salão de conferência para fazer uma homilia daquele momento em que um personagem em Os Nomes diz “Se eu fosse um escritor, que maravilha seria se me dissessem que o romance está morto. Imaginem que alegria, quanta liberdade, poder trabalhar nas margens, sem a opressão de uma presença central: eu ia ser uma assombração da literatura, que bom”.

Meu volume de Submundo é essa tradução brasileira, do PHB – eu já estava com o livro na mão há um tempão e um dia, em outro lugar (mas onde? não faço a menor idéia) li “Pafko at the Wall” e pensei Porra. Outro dia mesmo comentei aqui, aludindo ao filme da Martel, os diálogos a la DeLillo. Isso deve ser lido assim: “diálogos do caralho”, diálogos que são o bicho”, “diálogos fenomenais”, “diálogos que redescrevem a concepção de diálogo”, “diálogos que são o diabo para quem quer escrever e os lê”. Não sei mais se foi o Rúpia que me deu o livro de presente, ou se simplesmente pedi o livro emprestado e me apossei (de qualquer sorte, obrigado, amigo). Sei que passei uns quinze dias com ele na mão, era na época em que a Lu morava longe e eu andava pra lá e pra cá como um caixeiro-viajante; o livro é um tijolo, é ofensivo um livro daquele tamanho pra quem viaja. Mas isso dá ainda mais razão para meu orgulho ao ver a lombada torta na estante, o livro virado do avesso na leitura, as páginas cheias de sublinhados e grifos e anotações: eu achava que ia escrever algo sobre o livro mas, ao invés, e talvez com mais proveito para todos os envolvidos, só usei o livro para aprender a ler.