ensaio

Exercícios de Crítica Literária Contemporânea

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 5, 2011

1.

O comentário biográfico incide reiteradamente sobre dois processos em Henry James.

Um, é seu tartamudear: não é de forma alguma uma gagueira, mas uma enunciação hesitante e tateante que o persegue desde muito cedo. Não há gravações de James, mas podemos imaginar a sequência de Well… Uhm… I mean… So… etc

Outro é o uso que faz de um amanuense: por volta dos 50 anos, James começa a manifestar os sintomas do que hoje é a conhecida Síndrome do Túnel do Carpo e, como uma resolução para seu sofrimento cotidiano, contrata um copista. É possível imaginá-lo, a partir desse momento, alterando sua rotina de trabalho, e incorporando ao seu processo composicional um deambular pela sala, um ir e vir que ocorre em paralelo à enunciação enquanto o copista, silencioso, oculto, atento, copia.

Estabeleça um paralelo entre os incidentes citados e as peculiaridades do discurso indireto livre na obra tardia de James, com particular atenção a The Golden Bowl.

2.

Em 1942, Bowles se mudou para um apartamento na 14th St com a 7th Ave. O ocupante anterior tinha sido Duchamp e, assim, eles se conheceram.

Improvise.

3. 

É conhecida a afirmação de Piglia: A critica é uma das formas modernas da autobiografia. Um sujeito escreve sua vida quando crê estar escrevendo suas leituras.

Disserte sobre o tema, considerando as manifestações em A, B, e C.

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No hay banda

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 4, 2011

Ler A Preparação do Romance me fez lembrar do magnífico e anômalo The Unstrung Harp, or: Mr Earbrass writes a novel. 

O primeiro trabalho de Edward Gorey, publicado em 1953, é um ensaio sobre a monotonia, o tédio, o sucesso e, claro, a escrita, a escrita de ficção, o empenho do ficcionista. Gorey tinha então 28 anos: vamos estimar que aquilo é resultado de um labor concentrado de um ano e de leituras que, chutando, vem desde a adolescência, o que se agrega a imagens e compromissos passionais perdidos na aurora da identidade para, pouco antes dos 28 anos, tudo se coagular no lamentável Mr Earbrass, sua fronte-nariz, seu bigode, seu olhar perplexo, suas manias vitorianas, e sua harpa sem nenhuma corda.

Trata-se, evidentemente, de um elogio a um exercício laboral que, já nos anos 50, demonstrava fadiga e sinais de decrepitude. Observamos que nos recônditos da mansão vazia de Mr Earbrass há muito pouco: supostamente, é um espaço convidativo à lassidão e ao conforto, mas o que vemos são livros, papéis, candelabros, solidão, insistência, labor. Como ajustar o título à trama? O que é esse personagem? O que fazer com o incidente crucial do capítulo 3 no capítulo 19? Quem fala agora? Quem ouve? Quem entende?

E, no entanto, como uma manobra de pura contrariedade: um personagem, subitamente, o assombra; uma passagem próxima da virada de um corredor sussurra uma música vagamente familiar; o cansaço é enorme, algo se insinua por trás de uma cortina. Sabemos que esse Autor não sabe o que está fazendo, isso é óbvio: há muito mais pergunta que resposta, muito mais titubeio que conhecimento de causa. Mas vemos um savoir faire em operação aqui: o Autor insiste, sabe que tem de fazer, recorta, cola, joga fora, desiste, refaz, padece de insônia, lamenta, lamenta e pois, voilà, o livro está pronto, seu título é The Unstrung Harp.

Na praia com Sylvia Plath

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 21, 2010

1. Sloterdjik/ Zizek. Um dia fui numa conferência do Zizek. Uma anomalia: um domingo ensolarado, um centro de cultura alemã, Zizek com duas rodelas imensas de suor debaixo do sovaco de uma camisa com um desenho do Mickey. Todavia, como às vezes acontece, é na morada do bizarro que encontramos a companhia amiga que mais nos é cara. Pois a meio caminho de sua exuberante e careta superinterpretação de They Live, de John Carpenter, Zizek vai e menciona mais ou menos o seguinte:

O Ocidente projeta uma imagem de si mesmo como sendo fundado na necessidade de compreender o Outro. Ora, talvez a proposta de Sloterdjik seja bem mais próxima do que é o caso. Sloterdjik diz que progresso social é criar mais e melhores condições para ignorar o Outro. Compreender dá muito trabalho, e mesmo a performance da compreensão, que ocupa tantas vezes o lugar da própria coisa, dá muito trabalho. Não quero compreender meu vizinho: quero poder ignorá-lo, e ser ignorado por ele.

Há algo duro e cínico aí, e a extensão indiscriminada desse ethos me envergonharia – claro, sou um velho nerd pós-humanista, mal e porcamente informado sobre o contemporâneo. Mas volta e meia penso nisso, nos usos disso. E em particular, penso nisso quando estou nadando. Hoje de manhã mesmo: um dia sombrio, gelado, daqui da janela nuvens carregadas. Chuva, talvez; mais certo era um dia frio, um vento cortante aqui na descida da ladeira, aquelas lufadas vindas do mar que enchem o agasalho. Nem hesitei, nem me passou pela cabeça não ir. E fui. Lá na piscina estava só, junto com dez pessoas, que salvo a mais elementar polidez (“Bom dia”, “Tá usando a prancha?”) ignorei.

2. Utilidade Pública. Projeto inovador e arrojado do camarada DP, que aparece aqui para enlevo de todos.

3. Leituras de fim de semana. Como sempre, a ganância me domina. Mas deve ser algo que inclua a) Shklovsky, A sentimental journey: Memoirs, 1917-1922 ou b) The Letters of John Cheever ou c) Carola Saavedra, Paisagem com dromedário ou d) Margulies, Rites of realism. Além disso, posso garantir que, em algum momento do fim de semana pensarei em a) Henry James (O Mestre, Pessoal, O Mestre!) b) Bolaño (2666 tá na boca do povo, e tem até concurso de resenhas no site da editora!) c) Kelvin (amigo é pra essas coisas) e d) Sylvia Plath.

Como é do conhecimento de vocês, a grande anomalia nessa lista é a presença da famosa poeta suicida. Mas observem essa foto:  imaginem uma poesia de pouca morte, de nenhum desejo de morrer, como a que nós temos quando estamos felizes o suficiente para ir à praia, e uma pessoa querida quer uma foto nossa, e nem pensamos antes de sorrir para a câmera, para o sol, para o resto do dia, para o resto dos dias.

O fim do livro de Maurício Raposo

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 7, 2010

Como em quase qualquer coisa, há uma certa ambiguidade na ocasião do fim da leitura. Alguns livros se permitem o abandono, e com isso o fim da leitura parece uma coisa conquistada, um objeto adicionado a seus pertences. Outros repudiam qualquer sensação de conquista: uma vez finda a leitura, o que continua com você é a perda. Você perdeu, o livro não está mais com você, aquela companhia se foi, e você vai continuar sem ela – e com a sensação da perda.

Assim, você se vê numa noite de quinta-feira, perdido em sua própria casa, pois seu livro terminou: você estava lendo sobre Henry James, algo que tem uma aura toda particular para você: conhecer, ler, usar Henry James é um indicativo de que você se afastou muito da pessoa que era quando saiu de casa, pois você tem uma idéia meio demodê de formação que está indissociavelmente ligada a Henry James e outros luxos afins. Então você passou os últimos dias, uma semana difícil, uma semana hostil, enfiando essa leitura de uma “biografia romanceada” de James nos hiatos entre as tarefas. A denominação é cretina: o livro é ficção: é bonito e bom, e é ficção. Você pensa E daí que flerte com supostos acontecimentos documentados? Quem inventa e não faz isso que atire a primeira pedra. Nossa épica, mesmo que se prove fudida e gasta, é essa: uma invenção vampira, uma criação dependente. Não é secundária, não é necessariamente derivativa – mas por mais que se esforce, e tem se esforçado, não abandona sua amante, que é também sua nêmesis, suas vias de fato.

Está claro que, se você está pensando essas coisas por volta de uma e meia da manhã, sua noite está em alguma medida comprometida e, como um estranho em sua própria casa, você se demora diante da proporcionada desordem das estantes, quer saber o que vem a seguir, quem ocupará o lugar vago, quem virá resolver alguma coisa agora que você terminou de ler The Master, agora que você não sabe mais o que ler, ainda. Você se dirige ao setor Henry James: será a hora de reler algum desses contos? Reler What Maisie knew? Coisas de crítica e comentário: Os prefácios, com o prefácio aos prefácios escrito pelo Marcelo Pen? O capítulo de Eakin sobre os textos biográficos de James? O primeiro volume da biografia de Edel? Saer escreveu um bom prefácio para “The lesson of the Master” – onde está isso? É titubeio, e passa tempo, mas é tudo vão, você sabe: essa noite, essa solidão, é isso que você vai ter.

Então você encontra, enfiado na estante acima dos livros, entre alguns pocket books largados e amarelíssimos, quase impossíveis de se ler agora, e nem são tão velhos assim – The turn of the screw, The Aspern Papers, um Conrad, todos comprados em um balaio que tinha perto do restaurante da UFMG – você encontra uma moldurinha, um porta-retratos barato, com uma foto dos irmãos James, os dois já bem coroas, no jardim da casa de Henry em Rye. Essa foto, que você carrega há mais dez anos, foi parar na moldura como um presente de Natal e de despedida para um amigo, um presente que nunca foi enviado: a legenda, que dizia originalmente William and Henry James, Lamb House, 1900, está riscada e embaixo, escrito à mão, está agora Antonio Marcos Pereira e Maurício Raposo, Belo Horizonte, 2001. A consequência óbvia de encontrar com um objeto desses em tais condições é ponderar vagamente sobre amizade, perda, erro – e, também, claro, sobre a força pálida de alegrias passadas, o prazer de colocar as mãos no bolso do agasalho em um dia frio, o vazio todo particular da espera, a casualidade apropriada da mão no ombro do amigo, do irmão, do cúmplice eletivo, seu abraço.

A álgebra de Henry James e uma prece

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 6, 2010

Minha irmã, leitora fidelissima destas notícias, alerta-me, em um gentil telefonema Rapaz, você é equivocado mesmo, viu? O negócio da álgebra você botou no título e esqueceu. Eu esperava mais de você.

Ela, como de praxe, tinha razão: esqueci de mencionar a que vinha a menção à álgebra, e isso foi uma falha – não foi uma alusão tangencial de caso pensado, como a que fiz a Herzog, e que o Diego Giesel sacou na hora. E vai ficar pra outra hora contar a história toda, mas por enquanto basta mostrar a quadrinha que encontrei um dia num banheiro do terceiro andar da Faculdade de Letras da UFMG.

E sobre a prece: não é puxasaquismo não, que isso não nos convém – mas vejam que coisa linda a Another prayer, mais uma vez do blog do cara de Londres do qual eu fiquei fã: impressionante como há tanta coisa comprimida aí, em uma voz entre o patético e o confessional. Vejam como ele passeio por mil alusões sobre um certo modo de vida, e como isso é realizado com graça, invenção e provocação. Ou seja: é literatura. E para a literatura eu digo Amém. Amém, Irmãos e Irmãs, amém. Amém.

Enxaqueca, livros, William James, algebra

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 5, 2010

1. Enxaqueca. O repertório de imagens em torno do problema é vasto, já foi bem recenseado pelo Oliver Sacks em seu Enxaqueca, e certamente pode prescindir de minha tosca contribuição – mas a de hoje me fez pensar que a caixa craniana estava gradualmente se enchendo de pedras, depois areia, depois água – na sequencia daquela história infame que circulou abundantemente por aí, e que recebemos em spam, em mensagens de natal, ano novo, o diabo. Eis o horror: além do sofrimento característico de um processo agressivo que é na melhor das hipóteses amansado pelo medicamento,  ainda fui brindado com a lembrança dessa fábula.

2. Silver lining. Para continuar no terreno das analogias férteis, a dupla obscuridade referida acima foi aliviada por algumas páginas, na verdade dois capítulos, do excelente The Master, que já comentei brevemente aqui: cheio de sentenças lapidares, e atravessado por um processo de emulação de um ritmo jamesiano que, embora não seja, obviamente, a mesma coisa, é também excelente, justamente porque não deseja ser a mesma coisa que James. Embora eu não consiga explicitar totalmente minhas razões, acho que há um aprendizado interessante aí – talvez justamente porque não consigo explicitar totalmente minhas razões.

3. Livros. Como na finada – e em geral chata, mas esse aspecto era legal  – coluna do Nick Hornby pro The Believeralguns livros recém-chegados:

3.1. Hamilton, How to do biography: nunca subestime o poder de um manual de instruções americano – são produzidos por pessoas que acreditam nisso para pessoas que acreditam também, e esse pessoal vem fazendo esse negócio há mais de cinquenta anos! Minha esperança, que me torna irmão em  intenção de todos os que buscam livros de instrução para resolver questões da vida, é ver se o livro do Hamilton me ajuda a proceder com menos sofrimento – e, como sempre é meu desejo, mais organização e método – na redação da biografia do Saer.

3.2 Fitzpatrick, The anxiety of obsolescence – The american novel in the age of television: o título me fez pensar em uma história social da minha geração, aquela que foi formada pela TV e que descobriu internet já adulta, mas não é exatamente isso. Fitzpatrick é bem representativa de um tipo de acadêmico norte-americano antenado e multivalente, proficiente no uso de mídias sociais e disponível para investir na ampliação do circuito de conversações ordinário do professorado: o livro que ela está escrevendo agora vai bem em cima dos meus interesses de pesquisa, e foi por aí, quando estava buscando coisas sobre publicação acadêmica online, que me deparei com o trabalho dela. Calhou que ela tinha escrito esse livro que chegou hoje, que também me interessa. Ela foi colega do DFW em Pomona, e escreveu um dos textos do In memoriam DFW. Por fim, já que estamos no assunto,

3.3 Lipsky, Although of course you end up becoming yourself, parte de minha tentativa de me aproximar de DFW usando uma via que facilita minha vida. Foi culpa, inicialmente, de um comentário de Matt Bucher e, depois, de uma conversa comprida com T

Com sorte e vida longa e próspera, tudo isso terá seu dia de comentário aqui. E, para terminar com uma nota positiva um dia lastimável e sombrio, The Master himself: Henry James aos 16 anos, antes de se tornar “Henry James”, como um lembrete de que mesmo os Mestres começaram pequenos.

Não é brincadeira

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 3, 2010

ficar pensando em como corrigir essa bobagem do espaçamento de linhas do blog e se debater com isso e não conseguir resolver – o Gabriel, como sempre muito gentil, até tentou me ajudar, mas nada. Daí, hoje, depois da natação, depois de escrever uma boa página, uma página inteira, sem dilema, sem problema, talvez até sem erro (mas isso só se sabe depois: o que há agora é a sensação de correção e de propriedade, que é muito distinta da própria coisa) – depois dessa glória insuspeita da manhã me permiti mais um capítulo do excelente The Master, de Colm Tóibin – coisa linda – mas – horror – no meio da leitura me percebi pensando Porra, como vou resolver aquele negócio do espaçamento etc. O que é, com toda a tragédia e a comédia que isso implica, uma inegável manifestação disso que chamamos de identidade. Que monotonia.

Mas vamos, agora, à vida social, às lides acadêmicas, ao ganha-pão.Vamos, pois há trabalho a fazer.