ensaio

Exercícios de Crítica Literária Contemporânea

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 5, 2011

1.

O comentário biográfico incide reiteradamente sobre dois processos em Henry James.

Um, é seu tartamudear: não é de forma alguma uma gagueira, mas uma enunciação hesitante e tateante que o persegue desde muito cedo. Não há gravações de James, mas podemos imaginar a sequência de Well… Uhm… I mean… So… etc

Outro é o uso que faz de um amanuense: por volta dos 50 anos, James começa a manifestar os sintomas do que hoje é a conhecida Síndrome do Túnel do Carpo e, como uma resolução para seu sofrimento cotidiano, contrata um copista. É possível imaginá-lo, a partir desse momento, alterando sua rotina de trabalho, e incorporando ao seu processo composicional um deambular pela sala, um ir e vir que ocorre em paralelo à enunciação enquanto o copista, silencioso, oculto, atento, copia.

Estabeleça um paralelo entre os incidentes citados e as peculiaridades do discurso indireto livre na obra tardia de James, com particular atenção a The Golden Bowl.

2.

Em 1942, Bowles se mudou para um apartamento na 14th St com a 7th Ave. O ocupante anterior tinha sido Duchamp e, assim, eles se conheceram.

Improvise.

3. 

É conhecida a afirmação de Piglia: A critica é uma das formas modernas da autobiografia. Um sujeito escreve sua vida quando crê estar escrevendo suas leituras.

Disserte sobre o tema, considerando as manifestações em A, B, e C.

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Taprobana, Bowles

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 21, 2010

1. A primeira vez que li Paul Bowles foi na biblioteca: eu passava muito tempo lá, às vezes tentando estudar, mas na maioria das vezes só explorando, e foi assim que encontrei o livro na estante. Achei curioso, não sabia nada sobre o autor, mas vi que tinha uma introdução do Gore Vidal – desse eu já tinha ouvido falar. Li a introdução, que me deixou ainda mais interessado – mencionava, claro, o Marrocos, e o caráter escandaloso de algumas narrativas. E por isso, por causa de minha necessidade de negligenciar minhas obrigações, matar o tempo e me esquecer de mim mesmo, de uma introdução de Gore Vidal, e de meu interesse por histórias escandalosas, comecei a ler Bowles – lá se vão vinte anos.

2. Quando eu estava fazendo o doutorado, volta e meia acalentava a idéia de usar a história de “Um episódio distante” como uma espécie de pano de fundo alegórico para o que eu pretendia discutir na tese: lembro de ficar sentado em uma poltrona velha que eu tinha herdado do espólio da mãe de um professor – lembro que li Vida: Modo de Usar nessa poltrona – até tarde, com uma prancheta na mão e um caderno, rabiscando idéias em torno disso, um cinzeiro que eu tinha apoiado no braço da poltrona, um suéter gasto que eu sempre usava dentro de casa.

O conto, como sabemos, é apenas um momento em uma matriz que Bowles perseguiu e reiterou muitas vezes, e fala de um linguista que perde a língua e a razão em uma aventura oriental. Eu achava que isso dizia muito, que teria muito a dizer com isso. Não tinha, não tive, nem tenho: tudo que essa história tem a me dizer já foi dito, e foi dito pelo Autor e por seus personagens, dito para mim com todas as letras desde a primeira vez que a história foi lida, numa biblioteca, em Salvador, em 1990. Nenhuma alegoria, nenhuma lição, nada a dizer: já devo ter lido essa história umas dez vezes, e a reli há dois ou três dias, no dia em que escrevi outro post sobre Bowles.

3. Durante muito tempo não soube qual era a cara de Bowles, até que um dia encontrei uma foto: ele está com a mulher, Jane, em um barco, ou coisa do gênero: a cena é muito bonita e, ao mesmo tempo, discreta, doméstica. Vemos o assanho que a embarcação provoca na água, no lado esquerdo da foto, o lado pro qual eles estão olhando; o sol está na frente do rosto de ambos; o espaço à direita é só a quietude opressora do mar aberto, só água até o horizonte. Nenhum deles olha para a câmera, Paul está sem camisa; ninguém está exatamente sorrindo, mas é fácil ficar com a impressão de que o sorriso está por perto, e que isso é bom.

A essa altura eu já tinha lido que Bowles chegou efetivamente a adquirir – comprar, possuir, ter – a ilha de Taprobana com a grana que ganhou por causa do sucesso editorial de O céu que nos protege. Invejei muito isso. Que maravilha deve ser, pensava, poder realizar tanto, ser tão premiado por ter escrito um livro. Imaginava um lugar magnífico, senhorial e um pouco descascado – mas lindo, sempre lindo, com uma beleza abrupta e enigmática só amaciada pela umidade insistente dos trópicos, e ainda com uma população nativa imprecisa, interessante, ritualística. Com tudo isso, imaginei que essa foto retratava um momento da vida do casal nessa ilha – que os dois estavam ali celebrando sossegados e satisfeitos a Sorte Grande, a Grande Oportunidade que deve ser amar e ser amado e ter uma ilha inteira só para viver e conversar de literatura vida afora. Depois, lendo biografias de Bowles, descobri que estava enganado – mas que fazer? Essa foto é linda.

Barco, Bowles

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 19, 2010

Noite passada, já deitado, já recolhido, ele se lembrou de um trecho de um conto de Bowles: um pássaro persegue um barco. Estamos longe da costa, muito longe: é extraordinário que esse pássaro esteja aqui e por isso a coberta está cheia de homens, marujos, prestando atenção, surpresos. O pássaro está exausto – não aguenta mais, e se esforça para alcançar o barco, e alcança. Mas, assim que se aproxima, se aproxima também dos homens na coberta, e hesita em pousar, recua, teme, e o barco avança, e o pássaro fica para trás. O pássaro está exausto – não aguenta mais, e se esforça para alcançar o barco, e alcança – vai por aí. Então, um garoto desce, entra no barco – e volta com um gato na mão.

Muito bem: essa história foi lida há exatos vinte anos. Nessa época, ele costumava passar a tarde lendo na biblioteca do curso de Inglês; foi lá que ele descobriu Bowles, lá que leu “A distant episode”, “A delicate prey”, e foi fisgado: nunca abandonou Bowles desde então, nem vice-versa. Ele gostaria muito de passar por aquele corredor e olhar pela porta de vidro hoje para aquele rapaz, 18 anos, lendo Paul Bowles. Mas isso não vai acontecer, e o mais perto que ele vai chegar disso é: aqui está esse homem, 38 anos, na hora de dormir, lembrando de um lance de uma história lida há vinte anos.

Com isso, claro, ele se levanta – vai às estantes, procura um livro de Bowles, e começa a folhear. Não: pega outro. Lá se vai meia hora, mais um pouco, uma hora foi fácil. Acha a história enfim, lê, vê que lembrou corretamente da cena, mas esqueceu de todo o resto – todo o resto da história. Ora, isso é lembrar?, pensa. Se o que eu lembrei tem mais esquecimento do que lembrança, do que é mesmo que eu lembrei? E com isso, com essa variação de um tema já explorado tantas vezes por ele, decide dormir e, já deitado, já recolhido, lembra de um lance de uma história que seu pai lhe contou.