ensaio

“Estudando Lydia Davis”

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on abril 4, 2014

A acabou de assistir a uma conferência de uma escritora muito apreciada por B, seu amigo.

“Conferência” é uma má palavra, pois tratou-se de um desses incidentes do campo literário, cada vez mais comuns, em que um autor é convidado para ler trechos de sua produção e responder às questões ou de um animador, ou da audiência, ou das duas fontes, ou nenhuma questão. A autora compôs a noite na companhia de um autor que, embora seja infinitamente mais popular, é considerado por B um energúmeno, um “idiota glorificado” – como lembra A, que estava presente, ao lembrar do amigo, e daquilo em que o amigo pensa, e do modo como o amigo fala o que pensa. Então temos aqui A, assistindo a uma, digamos, conferência, ou palestra, ou fala, ou leitura de trechos de textos com direito ou não a questões. Enquanto assiste, A pensa em B, ou talvez fosse melhor dizer que o pensamento de A ligeiramente toca B, as coisas que já conversaram ou partilharam, a presença difusa de B em seu gosto literário, e em particular o fato de B gostar muito do trabalho da autora que está agora falando enquanto A, digamos, pensa em B. Estamos tratando aqui de uma conexão que é ao mesmo tempo mais espessa (é possível que A sequer estivesse aqui não fosse pela ação evangélica de B com relação ao trabalho da autora) e muito mais diáfana (pensa-se em Odo Marquard, em Aristóteles, nas contas a pagar, numa mulher: algo se espicaça e concentra em um fino foco, e longe, longe disso a vaga presença do amigo na memória A, que sequer se articula plenamente em pensamentos do tipo “B ia adorar isso”, que só vão acontecer depois, quando A contar a B o ocorrido).

A autora, após seu desempenho no palco, ainda vai autografar exemplares do livro que está lançando, e A pensa que irá agradar seu amigo com um livro com um autógrafo da autora que ambos admiram mas que, como já sabemos, B admirou antes, B divulgou, B insistiu para que o amigo lesse, fazendo assim dela uma espécie de propriedade de B, um seu direito de precedência e pioneirismo e, por tudo isso, A decide presentear o amigo com um livro autografado pela autora. Para isso, A entra na fila, imensa, de membros da audiência interessados em prolongar seu encontro com a autora ou em conferir uma fixação mnemônica particular à sessão que acabou de ocorrer ou em incrementar o valor do livro recém-adquirido ou em uma série de outras razões – são muitos, a fila é imensa. A entra na fila e, em poucos minutos, é acometido de uma puta vontade de mijar.

“Acometido” é uma má palavra, uma vez que o que está em jogo não tem nada a ver com cacofonia fisiológica de nenhuma ordem. A tomou uma bebida antes de vir, tomou um café ainda antes, e pela ordem natural do funcionamento do corpo humano o que cabe é que o líquido solicite também, uma vez metabolizado, sua excreção.  A já tinha consciência de sua vontade de urinar desde quando estava lá, na audiência, sentado, ouvido os proferimentos do idiota glorificado que fez companhia à autora que aprecia: sua distração e seu tédio provavelmente propiciaram vantagem ao corpo, a uma certa inquietude e desconforto na cadeira, ao gesto de ajeitar o suéter, afastando ele da barriga com um beliscão discreto que já foi, em outra situação, observado por B, que é o tipo de pessoa que observa essas coisas nos amigos e que, ainda, aprecia a autora porque ela parece ser o tipo de pessoa que observa essas coisas em tudo, e B acredita que aí há alguma espécie de moralidade ou exemplaridade, e essa é uma das fontes de sua admiração por ela assim como uma das fontes de sua admiração por A é a maneira como ele afasta o suéter da barriga, o jeito como ele faz perguntas e usa o termo “Camarada”, as mãos que ele tem e muito frequentemente, em febre de eloquência etílica, se movimentam com a graça dos pães que Chaplin uma vez fez dançar no conhecido filme. É aí, nesse momento em que afasta o suéter da barriga, que A se dá de que está com vontade de mijar, e trata-se então de uma situação que é como um chamado do seu nome quando você passeia numa vizinhança estranha de um país que não é o seu, uma improbabilidade mas ainda assim você olha, você busca quem exercita o verbo com seu nome, quem lhe reconheceu, e assim A acolhe a vontade de mijar ligeiramente, com um meneio de cabeça, digamos, ou um “Porra” espiritual, bem diáfano, leve, reconhecendo em si a companhia do mijo, sabedor da fonte originária desse processo típico de nosso funcionamento , o conhaque, a água, o café e lá está a vontade mijar e ao reconhecer isso A a deixa lá, e lá ela fica até que, por força da passagem do tempo e de uma série de outros fatores que são próprios das contingências misteriosas do corpo lá está A na fila, a dez, quinze pessoas da autora, muito perto de conseguir o autógrafo para B, e percebe que não vai conseguir esperar mais, que precisa urgentemente ir ao banheiro e, enquanto hesita pela última vez, ponderando ainda coisas de força de vontade e do tipo “Já esperei até agora”, a autora, em um hiato no que está fazendo que é, provavelmente, hiato pra ela também, uma pausa, um silêncio entre um solicitante e outro a depositar um livro diante dela, proferindo palavras de praxe, trocando sorrisos, nessa pausa que num outro sentido não é absolutamente pausa, pois o processo continua, a autora ergue os olhos, olha para a fila, e seu olhar encontra o de A. E é aí, e só aí, que ele enfim se autoriza a sair da fila, correr para o banheiro, experimentar a conhecida mescla de aflição extrema e alívio justo, e contar depois para B o que passou e o porquê.

lydia

 

 

 

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