ensaio

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 10, 2014

A Amazon me diz “You purchased this item on September 16, 2002″. E, de fato, lembro: tive esse livro, o livro do Donald Richie sobre Ozu, na época em que eu dava aula de Inglês na Rua Fernandes Tourinho: lembro de fumar um cigarro enquanto esperava um espresso no restaurante na esquina com a Rua Sergipe, onde eu costumava almoçar, e cujo dono – cujo nome não me lembro – me ensinou a jogar gamão. Assim é a memória, injusta: ri com esse homem, comentei sobre muitas mulheres e coisas da vida, aprendi a jogar gamão com ele, e no entanto não lembro seu nome, lembro sua fisionomia e lembro desse dia em que, esperando que ele preparasse meu café, enquanto eu fumava e ele mesmo tinha um cigarro aceso na mão, folheava esse livro e descobri que alguém havia arrancado duas paginas do meio do livro. 

Isso me deixou estupefato. Quem arrancou? Era um livro novo, intacto, comprado na Amazon. Fiquei com certeza, imagino, ponderando as razões daquelas paginas, o que havia nelas, ou se só acidente, ou gratuidade perversa. O que aconteceu ali? Lembro também que a chave de abertura do livro é algo como “Ozu tem como tema principal a família japonesa, que ele examinou de todo jeito, usando-a como microcosmo”: é isso, só que dito com a graça habitual de Richie, dito melhor, dito bem. Nunca esqueci.

Nunca avancei na leitura desse livro, e ele terminou se perdendo no fim de algum casamento, na voluntariosa perda de livros que fiz com que me acontecesse aqui e ali. E hoje, depois de muito tempo sem lembrar dele, ou mesmo de Ozu, lembrei dos dois, enquanto assistia Another Year, o filme de Mike Leigh de 2010. Uma vez, conversando com F, ele me perguntou se eu já tinha visto o último filme de Leigh – era outro filme, não era esse, essa é uma memória antiga, a alegria do encontro com F diz Isso é remoto, isso aconteceu faz muito tempo. Disse que não e perguntei É como o outro? Inglaterra, gente fudida, agonias da pobreza, etc? e ele riu e disse Sim, isso – só que esses personagens são mais fudidos ainda! E eu ri também, e depois vi o filme, e em momentos assim era muito bom ser amigo de F, como é bom lembrar dele assim, rindo, e de minha graça também, junto com ele, uma graça de velhos amigos e que pena que isso também acabou. Então esse é mais um filme de Mike Leigh, e há isso, Inglaterra, gente fudida, etc: uma concentração numa família miúda, em seu modo de vida, em hábitos, alguns matizes próprios. Esse filme é mais próximo de uma classe média bem média, e o protagonista tem um irmão: parecem duas versões de mim, uma que foi pra universidade e outra que ficou no subúrbio. Ou seja: me lembrei de Ozu, das famílias de Ozu, e me lembrei de minha vida também, pois para isso muito me serviu o cinema, a literatura, e arte: me afasta de minha vida com uma mão e me devolve com a outra. Enlevado pela passagem do ano que o filme inventa e oferece, imaginei um cotidiano presente e futuro, o envelhecimento que bate à porta, meu testemunho do sucesso relativo dos próximos e minha próprias réguas e cálculos de ascensão ou declínio E, sendo hoje dia dos pais, lembrei de uma das últimas vezes que almocei com meu pai: não numa mesa doméstica mas, como era nosso encontro nos últimos anos, em um restaurante perto do trabalho dele onde sequer éramos habituais, só clientes casuais e ordinários num dia de semana. Numa dessas vezes, não a última, mas uma das últimas, contei pra ele que tinha feito algo importante pra mim, queria dizer pra ele que tinha tido algum sucesso, alguma forma de sucesso – e o que lembro é que ele ouviu, e que ele pareceu estar feliz por mim, comigo, ali.

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