ensaio

No hay banda

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 4, 2011

Ler A Preparação do Romance me fez lembrar do magnífico e anômalo The Unstrung Harp, or: Mr Earbrass writes a novel. 

O primeiro trabalho de Edward Gorey, publicado em 1953, é um ensaio sobre a monotonia, o tédio, o sucesso e, claro, a escrita, a escrita de ficção, o empenho do ficcionista. Gorey tinha então 28 anos: vamos estimar que aquilo é resultado de um labor concentrado de um ano e de leituras que, chutando, vem desde a adolescência, o que se agrega a imagens e compromissos passionais perdidos na aurora da identidade para, pouco antes dos 28 anos, tudo se coagular no lamentável Mr Earbrass, sua fronte-nariz, seu bigode, seu olhar perplexo, suas manias vitorianas, e sua harpa sem nenhuma corda.

Trata-se, evidentemente, de um elogio a um exercício laboral que, já nos anos 50, demonstrava fadiga e sinais de decrepitude. Observamos que nos recônditos da mansão vazia de Mr Earbrass há muito pouco: supostamente, é um espaço convidativo à lassidão e ao conforto, mas o que vemos são livros, papéis, candelabros, solidão, insistência, labor. Como ajustar o título à trama? O que é esse personagem? O que fazer com o incidente crucial do capítulo 3 no capítulo 19? Quem fala agora? Quem ouve? Quem entende?

E, no entanto, como uma manobra de pura contrariedade: um personagem, subitamente, o assombra; uma passagem próxima da virada de um corredor sussurra uma música vagamente familiar; o cansaço é enorme, algo se insinua por trás de uma cortina. Sabemos que esse Autor não sabe o que está fazendo, isso é óbvio: há muito mais pergunta que resposta, muito mais titubeio que conhecimento de causa. Mas vemos um savoir faire em operação aqui: o Autor insiste, sabe que tem de fazer, recorta, cola, joga fora, desiste, refaz, padece de insônia, lamenta, lamenta e pois, voilà, o livro está pronto, seu título é The Unstrung Harp.

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Shields, Coetzee

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 13, 2010

Pela primeira vez em muito tempo, pude terminar uma resenha, deixar descansando dois dias, e reler, e revisar, e alterar umas coisinhas antes de enviar: que coisa mais refrescante e feliz. Semana que vem estará lá, no caderno, e será outra alegria.

Ano passado, em Setembro mais ou menos, liguei para minha mãe e ela disse Chegou um livro aqui pra você. Dias depois, quando fui lá, qual não foi minha surpresa ao encontrar Summertime, de Coetzee: junto, nenhuma explicação, só uma nota de envio com informações de almoxarife, na qual estava escrito à mão “Review copy”. Não eram as provas do livro, era o livro mesmo, capa dura e tudo – não faço a menor idéia de quem foi o responsável por isso, e sei que há uma cadeia de relações e indicações por trás de algo assim; o fato de terem enviado para a casa de minha mãe indica que tinham um endereço antigo meu, mas e daí? Por mais que pensasse continuava ao léu – mas, é claro, muito feliz, com o livro na mão.

Comentei isso com o Kelvin, e ele me disse Não vejo a hora de isso acontecer comigo também, Tio. Ele estava, mais uma vez, coberto de razão (isso é um puta non sequitur, mas é também verdade): eu também durante muitos anos desejei que isso acontecesse comigo, desejei ser surpreendido por livros chegando em minha casa inadvertidamente. Claro: como todos os desejos, este, quando se realizou, acompanhou a forma que lhe é própria, agregando mil sedimentos à sua casca em uma deriva peculiar entre a formulação imaginária e a coisa batendo à sua porta, obviamente uma forma incompatível com aquela, sempre pálida, mansa e unilateral, com a qual aparece pela primeira vez. Assim, os livros chegam, e são muitos, e muitos sem ter necessitado de minha agência de maneira alguma. Mas uma surpresa como essa, receber o livro de Coetzee recém saído do forno – isso é raro sim, e é bom sim, e eu desejei muito ocorrências como essa em minha vida. É um pouco como as “impossible good news” que Chesterton mencionava, e que minha irmã tanto preza.

O livro é formidável, e senti muita alegria ao terminar essa resenha – não só por ter conseguido revisá-la e fazer um texto que, creio, não insulta o texto que o motiva, mas porque tem um trabalho do cão por trás da coisa toda, desde as conexões misteriosas entre meu nome e o de alguém, alhures, que houve por bem me enviar o livro, até a leitura do livro, cheia de momentos muito pungentes, que comentei com o Tiago e com o Leandro e, também, claro, com o Kelvin, passando pelo post que escrevi na época em que li o livro, até chegar ao texto, esse, que acabei de terminar.

Assim que terminei, coloquei Loveless pra ouvir. Talvez, penso agora, tenha escolhido esse disco porque ele parece aquela obra que silencia seu autor: o que fazer depois disso, o que produzir mais, o que produzir ainda? O que será que Coetzee ainda escreverá, o que vem dali, o que virá, como eu lerei, quem lerá? Responder essas coisas é como querer desvendar o paradeiro de velhos amigos, aqueles com com os quais eu tomava cerveja e falava de Kevin Shields no fim da noite em verões passados, todos longe agora, remotos como o tempo em que eu era um cara que desejava receber em casa inadvertidamente livros para ler e comentar e não fazia a menor idéia dos livros que leria assim, do que viria junto com os livros, do que virá.

A álgebra de Henry James e uma prece

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 6, 2010

Minha irmã, leitora fidelissima destas notícias, alerta-me, em um gentil telefonema Rapaz, você é equivocado mesmo, viu? O negócio da álgebra você botou no título e esqueceu. Eu esperava mais de você.

Ela, como de praxe, tinha razão: esqueci de mencionar a que vinha a menção à álgebra, e isso foi uma falha – não foi uma alusão tangencial de caso pensado, como a que fiz a Herzog, e que o Diego Giesel sacou na hora. E vai ficar pra outra hora contar a história toda, mas por enquanto basta mostrar a quadrinha que encontrei um dia num banheiro do terceiro andar da Faculdade de Letras da UFMG.

E sobre a prece: não é puxasaquismo não, que isso não nos convém – mas vejam que coisa linda a Another prayer, mais uma vez do blog do cara de Londres do qual eu fiquei fã: impressionante como há tanta coisa comprimida aí, em uma voz entre o patético e o confessional. Vejam como ele passeio por mil alusões sobre um certo modo de vida, e como isso é realizado com graça, invenção e provocação. Ou seja: é literatura. E para a literatura eu digo Amém. Amém, Irmãos e Irmãs, amém. Amém.

Romance de Formação – 2

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on março 12, 2010

Em meus anos na loja de discos, dois clientes foram de fundamental importância em minha formação. O fizeram  inadvertidamente: estavam apenas fazendo o que fariam de qualquer jeito, mesmo se eu não estivesse lá: fui só uma casualidade, duvido que lembrem de mim.

Um deles, cujo nome esqueci, era um cara de uns trinta anos, rasta, só usava roupa afro, ganja, etc. Não sei exatamente o que ele fazia da vida, mas suponho que trabalhasse em algo na área cultural na região do Pelourinho: talvez eu tenha ouvido algo e esqueci que ouvi, e lembro hoje da impressão de ter ouvido. Era um sujeito abominável, arrogante e sempre disponível para humilhar e espezinhar; também era um adorador de si mesmo: falando de como ele era X, como ele fez Y, quando ele comprou Z. Suas aquisições na loja – sistemáticas, obsessivas, frequentes demais: era um maníaco, que obviamente comprava mais do que podia ouvir – consistiam sempre, e exclusivamente, de reggae, dub e ska.  Foi por causa desse cara que ouvi pela primeira vez Alton Ellis, King Tubby, The Upsetters. Coisas boas, o que talvez sirva como mais uma evidência de que se pode encontrar uma pérola mesmo no maior monte de bosta.

O outro, o nome também esqueci – mas lembro do sobrenome do apelido dele: era “Seco”, isso por um hábito que ele tinha. Esse era um cara de outra cepa: tinha mais de trinta, talvez morasse ainda com a mãe, e tinha um jeito duro, anguloso, vincado – o rosto lembrava um pouco a matriz de onde saiu o rosto de Pasolini. Estava sempre com uma roupa que parecia dizer que ele tinha deixado o paletó na cadeira, roupas sociais, sempre meio gastas. Esse era gerente de uma loja de móveis na região, lembro de passar na porta e ver ele trabalhando lá, atendendo uma pessoa, conversando com os outros caras da loja. Ele falava de outros assuntos: futebol, mulher, bebida, loteria. Ao contrário do Rasta, que parecia não ter problemas de grana, esse cara parecia duro. Parecia labutar, se privar  pra comprar os discos que ele comprava – que eram todos de jazz – só jazz. Esse cara tinha o hábito de dizer coisas como Ouça esse solo. Aí, velho. Scott LaFaro. Porra. SECO. Seco, porra. – com ênfase no seco, donde o apelido.

Tinha muita inveja desses caras. Mesmo achando o Rasta detestável, era um cara que sabia o que queria – que não sofria de minha dispersão, de minha inconsistência, eu que queria ouvir tudo. E com o outro eu ainda tinha uma certa empatia – ele tinha uma coisa melancólica e trágica, e eu sabia que tinha coisa a fazer nesse departamento, da melancolia e da tragédia; essa parte, aliás, deu bem certo pra mim. Vinte anos depois eu, que nunca fui nada pra esses caras, estou aqui me estapeando com um monte de coisas contraditórias que me fazem querer escrever sobre esse período, sobre essa experiência, sobre esses personagens.

Notas, 09 de Março de 2010

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on março 10, 2010

1. Meu Pai o Folhetim: A alegria de ler o livro de Mark Frost, The List of Seven — folhetim desabusado produzido por um autor que sabe exatamente o que quer fazer, e que me devolveu a mil alegrias infantis, me fez gargalhar e esquecer de mim mesmo por horas — foi substituída pela tarefa de ler um livro que me impressionou justamente porque seu autor, aparentemente tão experiente quanto Frost, é incapaz de dizer o que quer fazer. Ou, pelo menos, foi incapaz de dizer isso a mim.

1.1. Devo, com isso, julgar que o livro é mau ou julgar que má é minha flexibilidade hermenêutica? Tomem aí, seus sacanas que tem a desfaçatez de insinuar que vida de crítico é fácil.

2. É O TCHAN é uma merda: Estou cheio de amigos decentes e bem-intencionados que tem um pedantismo estético da porra: estão dispostos a aplaudir uma merda popularesca qualquer se lhes convém como diacrítico inclusivo (uma bandeira que diz “Vejam, eu não sou só high brow, eu também sou povão!”) mas torcem o nariz para coisas fenomenais que não trariam rendimento imediato em popularidade. Muito bem: enquanto escrevo estou ouvindo De Leeuw.

2.1. As folhas da música de Satie para piano ficaram anos e anos esperando De Leeuw para enfim encontrarem uma morada. Depois dessa interpretação, desgraçados dos próximos que se aventurarem em uma Gnossienne – estarão na mesma situação que o pobre Keith Jarrett com suas Variações Goldberg depois do Glenn Gould: tadinho do Keith.

2.2.1. Os que lêem o que eu leio hão de localizar, no item acima, bovarismo meu com O Náufrago, de Bernhard: va bene, é vero.

3. Homenagem a Ferreira Gullar: Sempre quis escrever coisas assim, peremptórias e sem muita preocupação com a justificativa ou com o imperativo de oferecer a quem lê alguma medida de razoabilidade. Na verdade já fiz isso – em cartas, em diários, mas nunca em público. Há um prazer na coisa, uma sensação de traquinagem infantil, uma solicitação proibitiva com a perspectiva de ser flagrado. Mas há a feiúra de fazer-se voluntariamente comparável a Ferreira Gullar, e isso é imperdoável. Ou seria imperdoável, se eu não estivesse feliz.

4. Razão para a felicidade: Minha mulher faz aniversário hoje: I clap my hands and say YEAH.

Romance de Formação – 1

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on outubro 31, 2009

1. Já proferi, com valor de verdade, as seguintes sentenças: Aprendi Inglês com Bob Dylan (1995); Aprendi Inglês por causa de Bob Dylan (2006); I’ve started to learn English with Bob Dylan, trying to translate his lyrics (1989).

Dylan Rotolo Blues

2. No meio de uma conversa, com propósito de azaração, por volta de 1991, proferi a seguinte frase: Não, que nada, nunca gostei de Sex Pistols não, sempre achei chato pra caralho. Bom é Clash, punk é The Clash, London Calling, ali sim. Azaração foi mal-sucedida.

Joe Strummer era meu pai

3. “Comprei” esse disco como parte de meu “salário” enquanto trabalhava na Kaya, por volta de 1988.

Shake dog shake

Summertime

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on setembro 26, 2009

Há aquela história famosa envolvendo Gershwin: ele visita Webern, declara-se um admirador, Webern providencia uma execução de algo exclusivamente em deferência ao visitante. Tudo é, obviamente, austríaco, austero. Depois, como bom anfitrião, Webern convida Gershwin a tocar algo; a proposta é recebida com acanhamento e alguma hesitação, e a esse titubeio Webern responde Ora, Senhor Gershwin, música é música.

Hoje recebi a notícia de que um amigo querido vai embora.  Eu, que já fui esse amigo que vai embora tantas vezes, lembrei não sei porque dessa história de Gershwin, e pensei em como desejei aprender a tocar piano melhor para, como num filme de Woody Allen, começar a tocar standards discretos e conhecidos de todos nas reuniões com a família e os amigos: os novos e os velhos, os idos, os que foram e os que vieram, os godos, os visigodos e os ostrogodos, todos todos todos, porque música é música.

Gershwins & Fred

Notas sobre Mark Hollis

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 9, 2009

1. Como todos nos anos 80, ouvi Talk Talk, aquela faixa.

2. Em 1992 eu trabalhava esporadicamente numa loja de discos. Apareceu um dia Spirit of Eden: lembro de ouvir o vinil de manhã, assim que abri a loja, enquanto abria a correspondência. Eu sabia o que esperar, já tinha lido a respeito.

3. Dizem que um dia ele solicitou um naipe de metais pra uma faixa e ficou horas no estúdio, um dia inteiro, com esses músicos: no final, no disco, o que aparece é apenas o som de um trumpetista tentando ajustar o lábio, tentando acertar a embocadura antes de tocar. Não sei de onde tirei essa história, que acho linda, mas algo que vem junto com ela me leva a pensar também em uma estação de metrô, em colocar as mãos no bolso da calça porque está frio.

4. Volta e meia lembro dele: penso no que ele estará fazendo a essa hora, por exemplo, ouvindo o quê, ouvindo a quem.

markhollis

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