ensaio

Barthes ria

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 2, 2011

Em um momento formidável (um de muitos momentos formidáveis) de seu A Preparação do Romance, Barthes diz, a respeito de Sidônio Apolinário:

Bispo de Clermont-Ferrand (século V) que defendeu Clermont contra os visigodos (importante obra poética).

Era uma gracinha? Será que Barthes estava cortejando o riso da audiência, sugerindo aí uma alça de leveza a ser inscrita na matéria trágica de sua exposição (o luto, a dificuldade de mudar, o absurdo da Vita Nuova)? Eu ri e achei bom: era isso? Rindo, leio bem essa formulação, de chofre e anacrônica, de uma performance poética? O que ele queria com esse colateral?

Há alguns anos, em um evento peri-acadêmico, vi um luminar da crítica local, em exercício, louvar, via Stockhausen, a Obra de Arte Total que era/ seria o 11 de Setembro: as torres fabulosamente em chamas, a irrupção do absoluto inesperado cancelando a rotina, o concerto das nações com a respiração suspensa, o nunca-ouvido e o jamais-visto juntos e simultâneos. Grande bosta, pensei, grande cretinice. Mas, claro, funciona como um doce de má-qualidade que vem, todavia, no melhor dos invólucros, o próprio doce de chucrute que uma vez me foi oferecido na casa de uma namorada, que recebi como se fosse grande coisa e que se provou uma ofensa ao paladar, uma afronta, um surto que tomou de assalto minha língua, colonizando-a com um ressaibo diabólico. Vem embalado em Stockhausen, agonizante intelectualmente e vivendo sua miséria particular e seu envelhecimento, vem com Schklovsky também, e o kit multiuso do Estranhamento, vem A Possibilidade da Arte no Século XXI – mas nada disfarça seu sabor hostil, a Crítica como a falência da Graça, o contrário da Graça, pura assertividade dura, pura peremptoriedade, precisamente o contrário do que encontro, quase sempre, em Barthes.

Muito bem: comentei isso hoje com um amigo, pessoa sensível e, na medida do possível, sensata: está escrevendo uma tese sobre Sebald e, como é próprio de momento de escrita de tese, anda mergulhado nessas coisas. Nos falamos ao telefone, obviamente sobre a tese, Sebald e, nessa vizinhança aí (Austerlitz, ruína, etc) o papo derivou para a imolação do Bin-Laden e, por essa via, para nossas memórias do 11 de Setembro. A certa altura, ele me disse algo como Camarada, o nosso é um mundo desgraçado, no qual até as Teses sobre a História de Benjamin são ridicularizáveis, são ridículas, pois não há mais nem resíduo da possibilidade de barrar o maldito progresso da ruína – e essas afirmações de Stockhausen não ficam atrás do sistema de esforços para dizer que o que acabou ainda não acabou. Não sei se entendi, mas ele ria ao falar – e eu, que sou seu amigo, ri também, como se entendesse, e assim nos despedimos.

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Ganhando meu pão – 2

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on abril 1, 2010

Há alguns dias estava numa defesa. Era uma primeira vez – nunca tinha participado de uma qualificação e, depois, da defesa. Isso foi bom, ver que algo se deslocou, que houve aprendizado. Tudo isso, claro, é uma suposição: ele supõe que algo desse aprendizado se deva à maneira como ele rabiscou um texto, e a uma conversa que teve com a moça que escreveu o texto no dia do exame e depois, em um ou outro encontro. Acredita nessas coisas, o que nesse caso quer dizer que acredita que o que faz tem, ali, valor e, no meio da liturgia toda, enquanto espera sua vez, lembra do dia em que ele estava ali, no lugar daquela moça, respondendo aos examinadores. Foi uma hora de inquietude, de excesso de presença, de desejo de durabilidade – e já se passaram quase cinco anos, cinco anos.

Finda a cerimônia, no estacionamento, entra no carro se sentindo vazio, ordeiro, leve – feliz. Todos estavam felizes, aprovados com distinção. O engarrafamento é uma abominação, mas tudo bem. Tudo bem.

Dois dias depois, passa o dia inteiro com os colegas em um auditório: discussões, debates, grupos de trabalho, lideranças, estilos de protagonismo, disciplinas obrigatórias, a vocação histórica deste curso. Um aluno acumula uma rudeza nunca vista por ele, uma brutalidade: embora trabalhem juntos, nunca ouviu um bom dia do garoto, e se pergunta porque, há um enigma na proporção e na integridade da rudeza. Outro aluno murmura perto dele Pra quê outra literatura portuguesa? O que é que tem literatura portuguesa? Só tem Saramago e acabou. Há muito esforço e empenho, mas também há confusão, dispersão, maledicência; uma colega, a certa altura, diz A abnegação é um gesto político, eu me sacrifico. Ouve muitas pessoas, ouve à exaustão: é um curso breve de colonialismo, e pensa se, aos setenta, setenta e tantos anos vai se lembrar de um dia como esses, e se arrepender de sua puta paciência.

No fim do dia, extenuado, gasto, com uma sensação de demasia. Foi um potlatch. Esqueceu alguma coisa. A chave do carro? De casa? Algum livro? Nada. Que açoite, pensa. Que açoite da porra.