ensaio

Exercícios de Crítica Literária Contemporânea

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 5, 2011

1.

O comentário biográfico incide reiteradamente sobre dois processos em Henry James.

Um, é seu tartamudear: não é de forma alguma uma gagueira, mas uma enunciação hesitante e tateante que o persegue desde muito cedo. Não há gravações de James, mas podemos imaginar a sequência de Well… Uhm… I mean… So… etc

Outro é o uso que faz de um amanuense: por volta dos 50 anos, James começa a manifestar os sintomas do que hoje é a conhecida Síndrome do Túnel do Carpo e, como uma resolução para seu sofrimento cotidiano, contrata um copista. É possível imaginá-lo, a partir desse momento, alterando sua rotina de trabalho, e incorporando ao seu processo composicional um deambular pela sala, um ir e vir que ocorre em paralelo à enunciação enquanto o copista, silencioso, oculto, atento, copia.

Estabeleça um paralelo entre os incidentes citados e as peculiaridades do discurso indireto livre na obra tardia de James, com particular atenção a The Golden Bowl.

2.

Em 1942, Bowles se mudou para um apartamento na 14th St com a 7th Ave. O ocupante anterior tinha sido Duchamp e, assim, eles se conheceram.

Improvise.

3. 

É conhecida a afirmação de Piglia: A critica é uma das formas modernas da autobiografia. Um sujeito escreve sua vida quando crê estar escrevendo suas leituras.

Disserte sobre o tema, considerando as manifestações em A, B, e C.

Anúncios

Joseph Mitchell, Dad, 1992

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on fevereiro 25, 2011

Lembramos daquele comentário de Piglia: um crítico narra sua vida ao escrever sobre os livros que leu – suas leituras inscrevem um padrão de saliências específico nos textos, uma marca de identidade hermenêutica. Isso faz sentido: basta ler o blog do Zé Castello ou o do Kelvin por um mês pra perceber que há algo dessa ordem em operação – não é apenas estilo, é mais um modo de usar.

A publicação recente de uma tradução de trechos dos Diários de Cheever me fez dar atenção ao canto da estante no qual estão depositados meus livros de Cheever – Cheever estava na berlinda, vários conhecidos comentando, então pensei em Cheever de novo, fui me aproximar dele de novo, e fui pro canto da estante onde estão seus livros:

É só um amontoado de livros – mas a história do seu amontoamento é, certamente, uma biografia: o crítico também escreve sua vida nos livros que acumula, como os acumula, como os separa, organiza e controla, o que mantém, o que dissipa. Ora, tenho trabalhado como um cão ultimamente pra escrever uma biografia de Saer – mais: para dar sentido ao projeto de sentar todo dia para escrever uma biografia de Saer. Se esse arroubo a respeito da vida nos livros que se tem funciona, o que faria eu diante de um trecho de prateleira de livros de Saer? Esses livros seriam indício suficiente de quê? Servem para quê, a não ser para serem manuseados por febris epígonos fanáticos, eventualmente fazerem uma graninha para a família, os Nobres Livros do Autor Morto – servem para quê?

Posso favorecer a hipótese da utilidade tomando minha própria prateleira na foto como exemplo: aí estão minha vida em NY (os balcões mais baratos da Strand), uma ex (duas, melhor dizendo), um amigo perdido, a época em que queria ser tradutor, o momento em que parei de fumar (era 2008, janeiro, e estava lendo os Diários de Cheever), etc. Aí está também aquela história do Kelvin indo no Berinjela vezes sem conta e vendo o volume de cartas do Cheever e paquerando o livro sem comprar até que, anos depois, o Berna o enviaria pra mim – exatamente o mesmo livro, passando por dois amigos meus, e chegando a mim graças ao antigo dono, ignorado, sem nome  pra mim, que um dia o depositou lá no Sebo – e como abriu mão das cartas de Cheever, em benefício de quê.

Aí está também, envolvido num papel pardo para proteger um pouquinho a capa, um de meus livros favoritos, o quarto exemplar que tenho do mesmo livro, Up in the Old Hotel, de Joseph Mitchell. Mitchell, que tinha uma paciência de Jó, escreveu esses textos maravilhosos, nos quais não se conta quase nada: são só umas histórias de tipos ordinários, que se fazem envoltos em mistérios vãos acho que mais pela força magnética que a noção de idiossincrasia  exerce sobre nossa espécie que por qualquer outra razão. São histórias de quase nada, e todavia. Lembro de uma época em que lia os capítulos, ritualisticamente, toda terça e quinta à noite: eu não trabalhava nesses dias, e ficava grifando trechos e sonhando em escrever bem (eu também fumava, e nem pensava em parar). Lembro de minha melancolia ao ler Joe Gould’s Secret, e como me surpreendeu o fato de estar aparentemente mais tocado ao ler o texto pela segunda vez, tolamente surpreso por estar contrariando uma regra pseudocristã que dá sempre mais valor ao mais virginal (li esse texto em voz alta uma outra vez, lembro). E outro dia – está fresco, foi agorinha mesmo, agora no Natal – cheguei no hotel de uma visita a mil sebos, cheio de livros, feliz, e com mais um volume do mesmo livro de Mitchell. Deitei na cama, abri o livro e vi, então, a dedicatória.

Morton Feldman morreu semana passada aos oitenta e seis anos

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on novembro 23, 2010

Imagine um menino gordinho, todo agasalhado, com cachecol, casaco grosso e roupas de flanela, caminhando pelo Brooklyn, uma pasta com um caderno de música e um lápis dentro, mas também uma bola de gude, um pacotinho de doce, um pedaço de barbante. Lá vai o garoto pra aula de piano: sua professora é uma senhorinha seca e fofa, com sotaque forte, riso fácil e um apartamentinho cheio de tapetes e cortinas pesadas. Ela gosta de Scriabin, então ele aprende a tocar Scriabin. Ela estudou com Busoni, e tem partituras de Busoni, adaptações facilitadas de Bach por Busoni, cheias de marginalia e anotações – então ele aprende a tocar Bach por Busoni, e se perde naquelas anotações. Ela diz Morty, atenção e ele presta atenção na mãozinha fina, nas teclas gastas, nos bibelôs da sala. E ela diz de novo Morty, preste atenção, Morty – então ele presta atenção, ele continua prestando atenção. E ela toca cada acorde, lentamente, um de cada vez, molto lento: Lentissimo, Morty, lentissimo. Isso, isso. E assim passa a aula, que é como todas as aulas e que é apenas mais uma coisa na vida de todos, uma coisinha insignificante, e o garotinho vai agradecer à professora e voltar pra casa, como sempre, pelo mesmo caminho, e vai pensar em muitas coisas, coisas que garotos pensam, coisas que garotos judeus nos anos 30 em New York pensam, essas coisas.

Imagine um rapaz na casa dos vinte, uma camiseta branca e uma calça jeans, em New York pela primeira vez. Vive perigosamente, à beira da pobreza absoluta: quer e não quer ter sucesso, deseja e não deseja tudo que vê e que está à disposição de quem não apenas deseja mas consegue articular desejo e astúcia em um só foco. A pouca astúcia que tem usou para vir pra cá, e assim viver sua épica particular de escolha, dizer sim à cidade dos seus artistas, da sua família escolhida, dizer sim. Ele entra em um salão de concerto apertadinho na New School: estão celebrando os dez anos da morte de Morton Feldman, é de graça, ele quer ver e ouvir aquilo. Não sabe nada de Feldman, a não ser que era amigo de Cage, que era daquela praia – ele se engana, o que não é de se estranhar, uma vez que ele não sabe. O que ele vai saber em breve é o que acontece depois que ele senta no auditório, ignorado por todos, esquecido de si nesse lugar onde ele sabe que ninguém o encontrará, ninguém se surpreenderá ao vê-lo, ninguém está esperando por ele: ali, naquelas cadeiras velhinhas e meio dançadas do auditório da New School, ele vai ouvir Morton Feldman pela primeira vez, sem nenhuma preparação exata para a experiência – o que é correto pois, via de regra, a gente não está mesmo preparado para nenhuma experiência. Saindo do auditório, caminhando para o metrô, ele enfia a camiseta pra dentro da calça mais um pouco, e esse gesto não parece nem mais nem menos gratuito que qualquer outro.

Imagine esse mesmo homem, agora já perto dos quarenta. Anda um pouco asfixiado, e obviamente não aguenta – embora não saiba exatamente o que é que não aguenta, sua vida não é tão ruim assim, é o calor, claro, mas não é só isso. Quando era mais jovem, a vida parecia ser possibilidade pura, possibilidade ilimitada – mas justo naquela época ele mesmo estava fechado e, agora, anos depois, com muito mais abertura, não tem o menor interesse por possibilidades. Agora ele parece se contentar em rearrumar os mesmos velhos móveis num mesmo ambiente, preocupado com bem pouco mais que estabelecer condições práticas muito rudimentares que lhe permitam trabalhar – uma cadeira confortável, a medida adequada de silêncio, um certo esquecimento da melancolia e a despreocupação com o gesto gratuito e suas consequencias. Como, por exemplo, no meio de uma tarde de novembro, ouvir Madame Press died last week at ninety, e sentar em sua cadeira no trabalho e lembrar daquele garotinho judeu no Brooklyn nos anos 30, daquele rapaz no Greenwich nos anos 90, e esquecer de tudo por um momento, esquecer de si mesmo e de todas as suas histórias e promessas e saber que essa é uma das muitas alternativas para ter uma conversa consigo mesmo, aquela que vai lhe permitir abraçar seus amigos, e beber com eles, e conversar, e esquecer de si mesmo mais uma vez, de novo, como se tudo estivesse limpo, como se tudo estivesse claro, de novo.