ensaio

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 10, 2014

A Amazon me diz “You purchased this item on September 16, 2002″. E, de fato, lembro: tive esse livro, o livro do Donald Richie sobre Ozu, na época em que eu dava aula de Inglês na Rua Fernandes Tourinho: lembro de fumar um cigarro enquanto esperava um espresso no restaurante na esquina com a Rua Sergipe, onde eu costumava almoçar, e cujo dono – cujo nome não me lembro – me ensinou a jogar gamão. Assim é a memória, injusta: ri com esse homem, comentei sobre muitas mulheres e coisas da vida, aprendi a jogar gamão com ele, e no entanto não lembro seu nome, lembro sua fisionomia e lembro desse dia em que, esperando que ele preparasse meu café, enquanto eu fumava e ele mesmo tinha um cigarro aceso na mão, folheava esse livro e descobri que alguém havia arrancado duas paginas do meio do livro. 

Isso me deixou estupefato. Quem arrancou? Era um livro novo, intacto, comprado na Amazon. Fiquei com certeza, imagino, ponderando as razões daquelas paginas, o que havia nelas, ou se só acidente, ou gratuidade perversa. O que aconteceu ali? Lembro também que a chave de abertura do livro é algo como “Ozu tem como tema principal a família japonesa, que ele examinou de todo jeito, usando-a como microcosmo”: é isso, só que dito com a graça habitual de Richie, dito melhor, dito bem. Nunca esqueci.

Nunca avancei na leitura desse livro, e ele terminou se perdendo no fim de algum casamento, na voluntariosa perda de livros que fiz com que me acontecesse aqui e ali. E hoje, depois de muito tempo sem lembrar dele, ou mesmo de Ozu, lembrei dos dois, enquanto assistia Another Year, o filme de Mike Leigh de 2010. Uma vez, conversando com F, ele me perguntou se eu já tinha visto o último filme de Leigh – era outro filme, não era esse, essa é uma memória antiga, a alegria do encontro com F diz Isso é remoto, isso aconteceu faz muito tempo. Disse que não e perguntei É como o outro? Inglaterra, gente fudida, agonias da pobreza, etc? e ele riu e disse Sim, isso – só que esses personagens são mais fudidos ainda! E eu ri também, e depois vi o filme, e em momentos assim era muito bom ser amigo de F, como é bom lembrar dele assim, rindo, e de minha graça também, junto com ele, uma graça de velhos amigos e que pena que isso também acabou. Então esse é mais um filme de Mike Leigh, e há isso, Inglaterra, gente fudida, etc: uma concentração numa família miúda, em seu modo de vida, em hábitos, alguns matizes próprios. Esse filme é mais próximo de uma classe média bem média, e o protagonista tem um irmão: parecem duas versões de mim, uma que foi pra universidade e outra que ficou no subúrbio. Ou seja: me lembrei de Ozu, das famílias de Ozu, e me lembrei de minha vida também, pois para isso muito me serviu o cinema, a literatura, e arte: me afasta de minha vida com uma mão e me devolve com a outra. Enlevado pela passagem do ano que o filme inventa e oferece, imaginei um cotidiano presente e futuro, o envelhecimento que bate à porta, meu testemunho do sucesso relativo dos próximos e minha próprias réguas e cálculos de ascensão ou declínio E, sendo hoje dia dos pais, lembrei de uma das últimas vezes que almocei com meu pai: não numa mesa doméstica mas, como era nosso encontro nos últimos anos, em um restaurante perto do trabalho dele onde sequer éramos habituais, só clientes casuais e ordinários num dia de semana. Numa dessas vezes, não a última, mas uma das últimas, contei pra ele que tinha feito algo importante pra mim, queria dizer pra ele que tinha tido algum sucesso, alguma forma de sucesso – e o que lembro é que ele ouviu, e que ele pareceu estar feliz por mim, comigo, ali.

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Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on novembro 26, 2013

Estava escrevendo um ensaio sobre Levrero, o primeiro que escrevo sobre sua obra, e na verdade algo menos, menor que um ensaio: era uma participação em uma mesa-redonda, um discurso breve, de meia hora, para uma audiência heterogênea.

Me custou escrever: havia muito o que dizer, ou assim imaginava, e havia um ruído de fundo que tem me esgarçado um pouco, sedando certas habilidades, me deixando em geral um pouco distraído mas, o que é um pouco lamentável, não inconsequente. Assim, o quadro é tal que a preocupação vem, com sua gana de consumo, mas gera pouco resultado, como se eu testemunhasse a aflição sem medo, mas sabendo de seus custos. Lembro de fingir que era um fantasma me cobrindo com um lençol e acreditar que as pessoas não sabiam quem eu era: é algo dessa ordem. Ao longo do último mês fui lendo e amealhando notas e notas sobre La Novela Luminosa, e fui conduzindo essas notas ao estado de ensaio, construindo um argumento nas fichas, cotejando a marginalia com o que já tinha lido de recepção a Levrero. Muita coisa, muita confusão: não é assim que se faz, não é assim que se fala. Uma coisa de cada vez.

A primeira ideia que tive para o texto foi explorar uma espécie de epistemologia de esquerda que aparece em Levrero e que passa pela valorização de incidentes sincrônicos, de eventos de ocorrência relativamente frequente para mim também, mas que tendem a ser deslidos pela gente como nada. Para isso me ajudavam alguns ensaios formidáveis da Luciana Martinez, que exploravam justamente essas conexões, digamos, parapsicólogicas em Levrero, e que avançavam no entendimento de uma proposta particular de saber literário, de saber da literatura, saber da ficção, que emana de alguns de seus escritos, em especial de La Novela Luminosa.  Isso foi reforçado por um post e uma conversa com o Rafael, quando nos encontramos lá na Tijuca, da última vez que estive no Rio. O que é que magnetiza o evento coincidente, os fatos do mundo que convergem com os fatos da leitura, quando se lê esse livro que tematiza justamente isso? É efeito do deslocamento de atenção que o próprio livro provoca, atraindo nosso olhar para matéria em geral presente, mas que tende a se fazer mais saliente ao observarmos que lá, na narrativa, o personagem com o qual estamos convivendo está prestando atenção nessas coisas?

A primeira vez que ouvi falar em Levrero estava em Buenos Aires, em 2008, indo lá pela primeira vez, gastando o que não podia comprando livros na Hernandez da Corrientes, e ao meu lado ouvi um homem falar em Portunhol fluente com o vendedor, indagando Que teneis de Mario Levrero? E então eles entabulam uma conversa, discreta e fugidia, e parece que me lembro de falarem sobre a “trilogia”, e que a certa altura o homem – grande, gordo, careca, branco, seus quarenta e tantos anos, terno e gravata, digamos um advogado gaúcho – diz ao vendedor Soy brasileño, e então me distraio da conversa alheia, registro o nome do autor, a coisa sobre a trilogia, e sigo meu caminho. Hoje duvido que essa tivesse sido uma primeira vez, pois o que teria trazido à minha porta aquelas palavras, aquele intercurso entre cliente e vendedor? Muito se ouve, tanto se esquece, mas de onde a durabilidade daquilo. Assim é que anos depois, quando estava lá em Buenos Aires de novo, já muito íntimo da cidade ou assim me achando, quando saí da casa de Cesar Aira e fui caminhando Rivadavia afora em direção à UBA – para desanuviar, para espairecer, para deixar que algo em mim perdurasse, ou permanecesse – me embrenhei na universidade, lá fiz minhas coisas, ou fingi que fiz, e na saída entrei naquela livraria logo ali, no quarteirão seguinte, Gambito de Alfil: excelente acervo, excelente livreiro, adorador, como tantos argentinos, do Presidente Lula. Estou então cruzando a rua, de olho no kiosko, pois sinto sede, está um pouco frio, e olho pro relógio, tenho tempo, entro na livraria, me lembro do leitor de Levrero de anos antes, em outra vida minha, em outra livraria, em outra rua de Buenos Aires, e vejo imediatamente um exemplar de La Novela Luminosa diante de mim, no primeiro balcão que paro para examinar. A precognição talvez seja muito subestimada, não sei se tinha tido uma impressão fugacíssima do livro antes da lembrança, me parece que a lembrança fez o livro aparecer diante de mim, que a memória me moveu e ajudou, Teneis algo de Levrero? A lembrança foi o amigo a me conduzir naquela hora cheia de misturas, de agonia, de aflição, mas também das felicidades todas que a Argentina sempre foi pra mim, Soy brasileño, e me pergunto por que não assim, se assim foi pra mim.

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on julho 28, 2013

Já faz alguns meses que ele vem estudando anotações: entrou numas de que há algo de interessante aí, nesse tema, a anotação. Menor que isso, só a ideia, o embrião mais absoluto, desmaterializado e impenetrável que há. Na anotação há alguma coisa sobre a abertura do pensamento para sua incidência: ao se esfarelar na página pela primeira vez, a inteligência ainda vem atracada com as gosmas atávicas do nascedouro, e sem elas ele crê que nada de interessante haveria, nenhum pensamento, nenhuma inteligência na escrita, só casuística e vaidade.

Essa torção é bastante óbvia, pois passou a vida escrevendo anotações, seus caderninhos, sua grafomania. Assim, agora que faz quarenta anos começa a se ocupar dos cadernos alheios, das anotações alheias, e de uma contemplação de algo que, por incapacidade de forjar um termo melhor, sai dizendo que é “método”, “metodologia”, como em frases tipo Tô estudando o método de leitura de Barthes, ou Tô tentando escrever um ensaio sobre o método de Benjamin. O anotador vira estudioso da anotação: o óbvio e o obtuso, amigos para sempre, se resolvendo em dissolução gozosa recíproca enquanto ele almeja algo que se assemelhe à saída do evidente e ao fim momentâneo da burrice, nem que seja pela visitação obstinada da inteligência alheia.

Estava, assim, às voltas com o Caderno N, o famoso momento epistemológico de Benjamin no trabalho das Passagens, uma coletânea de protocolos táticos, de instruções a perseguir, de dicas de procedimento que Benjamin escrevia como quem escreve lembretes a si mesmo. É notável o desvio que essas observações tem à medida que uma certa prestação de contas com o Marxismo se torna mais frequente: a intensidade sinuosa do início do caderno cede a uma pressão externa que torna a escrita mais arrevesada e poliédrica, mas ao final dos escritos a máquina delirante está a todo vapor, celebrando o próprio naufrágio com comentários tão voluptuosos que fazem uma menção a Sainte-Beuve parecer um grande juízo de propriedade anacrônica, quando o que está disposto ali tem apenas um indício em Sainte-Beuve. É a inteligência de Benjamin que o impressiona, é Benjamin escravo de seu próprio pensamento, chaga e profecia, ferida que lambe em eloquência, em uma sala na Biblioteca de Paris, em um minuto de silêncio na escrita de mais uma ficha em que olha pela vidraça para Paris e uma refração demonstra todos os tempos que consumam seu interesse em um átimo, tudo fugidio e incapturável, tudo morrendo e uma sinfonia de estertores que clama dos livros e da rua distrai Benjamin, o roubou de suas notas por um momento, até que ele voltasse o rosto para a mesa, o livro, o caderno, a ficha, a nota. Ora presunçosa, ora escolástica; Eu amava tudo aquilo que é falho; Assim como Proust; Assim como a folha; Despertar:  como ficar imune a essas palavras? Como tratar esse negócio como matéria de exegese no século XXI sem ceder à estupidez grotesca do esforço de didatização nem ao voluntarismo arrivista do uso? Puta merda, pensa – e, dessa vez, quem se distrai é ele, recordando um incidente ocorrido há alguns dias que o contaminou e perturbou muito e até agora está aqui, interferindo em seu estudo, em sua leitura, sequestrando o momento passado com Benjamin. No decorrer de uma avaliação final de doutorado, uma professora adentra a sala de defesa e, na audiência, começa a conversar com uma aluna. As conversações perduram, a professora ri. O doutorando hesita, em seu transe semi-apoplético, na exposição: não sabe também o que fazer, parece admirar a professora que fala sem cessar, histericamente, e ri, enquanto apenas a aluna dirige seu olhar à mesa onde se senta a banca, como uma criança que convoca os adultos na hora da traquinagem, como alguém que erra com consciência de que está cortejando a admoestação. Não é uma grande defesa, em hipótese alguma: é um exercício no qual o que tropeça no texto examinado se traduz em titubeio e insistência e reiteração, mas nunca em revelações de improviso que carregam a força dos anos de estudo para uma incandescência da hora, propiciada pelo exame, convidada pela arguição. É, em todos os sentidos, um evento morno, assim como é morno e protocolar seu desempenho, seus comentários atenuados, seu tédio. Mas há algo no comportamento da professora que conversa na audiência que parece sal na ferida, e há algo também no orientador, que preside a mesa, e que hesita e parece temer fazer uso de uma assertividade que a situação, imagina, solicita.

Que desrespeito!, pensa, indignado. O que essa mulher está pensando? Onde essas pessoas estão com a cabeça? Tem vergonha de seus alunos, presentes, observando o descalabro, e lamenta, lamenta, lamenta mas, por mais que lamente, efetivamente não sabe o que essas pessoas estão pensando, estavam pensando, estarão pensando. Sabe, todavia, que uma espécie particular de miséria o tragou ali, e lê repetidas vezes as repetidas vezes em que Benjamin escreve, como conclusão de uma anotação, Despertar, e lembra, por causa disso, de um trecho do Rua de mão única, que se dá ao trabalho de consultar, e que vê na consulta que estava bem lembrado, que se lembrava do trecho quase certo:

Todas as manhãs o dia está aí, como uma camisa lavada em cima da nossa cama; esse tecido incomparavelmente fino e incomparavelmente resistente cai como uma luva. A felicidade das próximas vinte e quatro horas depende da gente saber ou não agarrar esse tecido na hora de acordar.

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Em Novembro de

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on janeiro 26, 2013

Em Novembro de 2012 constatei que estava perdendo a memória. Nada grave, mas era inegável, e estava alojado quase que exclusivamente na região da memória mais recente: não havia nenhum caso que envolvesse lembranças de infância perdidas, por exemplo.

Um incidente representativo do processo. Lembro que estava às voltas com a compra de livros de fotografia, e desejei lembrar de uma fotógrafa em particular. Lembrava da capa de um livro dela, de auto-retratos dela, de elementos da relação dela com os pais: ou seja, eu lembrava dela. Mas o nome me escapava, e sequer conseguia lembrar de um nome próximo.

Lembrava do curador de uma exposição que incluía o trabalho dela, um cara que escreveu textos sobre o trabalho dela – mas lembrava isso também de maneira trôpega: lembrava um nome parecido com o sobrenome do cara, mas que eu sabia não ser o próprio nome dele.

Lembrava outras coisas. Que os trabalhos, pelo menos os que eu conhecia, eram todos preto-e-branco. Que a relação da artista com os pais era complicada. Que sua produção se concentrava em poucos anos. Que morreu muito jovem. Que eu achava a bunda de uma das modelos em uma das fotos linda. Que a tensão nas fotos parecia se transformar em outra coisa cheia de uma agonia mordaz e destemida, um espectro sinistro e pouco controlável de entrega urgente a uma alteridade poluída, mas sedutora, convidativa. “Venha”, diziam as fotos. “Tome”, diziam, “Eu sei que você quer também”.

Lembrava, portanto, muita coisa, mas foi só horas depois que lembrei que era Woodman.

woodman

Em Setembro de …

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on setembro 24, 2012

Em Setembro de 2002 eu estava lendo quase que só coisas de e sobre Raymond Carver. Por alguma razão que hoje ignoro entrei numas de Carver naquela época, e lembro de passar um tempão sentado em um pufe que tinha na sala, com o cinzeiro do lado, fumando e lendo até altas horas.

Será que havia alguma espécie de purgação ou catarse nessas leituras? Eu estava bem fodido, mas é dureza você estar mais fodido que um personagem de Carver. Bem podia ser uma pulsão terapêutica, voltada para estabelecer minha boa fortuna relativa por contraste. Vai saber. Lembrei desse período faz uns dois anos quando, na casa de F, vi um exemplar da biografia de Carver. É boa?, perguntei. Não sei, não li ainda, ele respondeu. Mas foi o G que me recomendou, ele gostou. 

G nessa época estava prestes a defender a tese dele, que era, mais ou menos, sobre Carver. Botei fé no juízo do especialista e fui ler a biografia. Era boa, mas cheia daquelas interpolações risíveis, e o fato é que depois de vinte, trinta biografias literárias a monotonia do trilho hermenêutico cansa, os perenes licenciamentos dos biógrafos. A meio caminho da coisa a abandonei, cansei de ver Carver se fuder, e já sabia do pano final com aplausos e das baixarias post-mortem entre os herdeiros; larguei o livro à toa, em uma pilha qualquer na casa, me esqueci dele.

Pouco depois minha irmã foi passar férias comigo – era meu último inverno em Belo Horizonte, mas ninguém sabia disso ainda. Ela pegou a biografia um dia, me perguntou se era boa, eu meio que repeti o que o F tinha me dito sobre o G e mais o que acabei de escrever aí em cima; ela ficou uns dias manuseando, levando pra lá e pra cá.

Hoje abri o livro, procurando uma parte que eu tinha sublinhado, e encontrei varias anotações dela. Algumas eram sublinhados a lápis, pedaços de frase como

Sandmeyer was intrigued by an abandoned school, but Ray was restless

praying to Jesus in one breath/ to the snake in the other

He had given up attempts to look cool

Inside was an old iron bed. I found a shoe box under the bed.

He did not know it, but he was already at the midpoint of his life.

Ela também escreveu ao redor de algumas fotos, como se fossem legendas alternativas:

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Thunderous sideburns and a jewfro, brother: that’s how you need ‘em!

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To find solace in one’s art is beautiful.

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There’s something about Ray

Javier Marías, Balzac

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on junho 12, 2011

Hoje ia fazer uma prova sobre a trilogia do Javier Marías – que, como vocês sabem, não li. Não tinha medo: planejava improvisar, usando o que já li do Marías mais o que já li sobre, achei que com isso ia dar conta.

Cheguei e, como de costume, havia toda aquela liturgia na biblioteca, a arrumação dos dias de exame, o silêncio. Quando estava já pra começar a escrever, entrou no salão um homem de uniforme, um guarda, e trocou algumas palavras com o supervisor que, imediatamente, apontou para mim, assentindo com a cabeça. O guarda se aproximou, me abordou, confirmou meu nome, e me disse que eu precisaria retirar meu carro, que estava obstruindo o trânsito.

Obviamente, me atrapalhei, me esbafori e me apressei, saí correndo para tirar o carro logo e voltar o quanto antes, a tempo de ter tempo para fazer o exame. Mas ao retornar a biblioteca parecia ter se desdobrado em várias outras, uma infinidade de salas e corredores e escadarias semelhantes que nunca me levavam à minha sala, ao salão de onde eu tinha saído, onde me esperava meu supervisor, meus colegas e, em minha mesa, minha folha de exames com meu nome, minhas canetas, tudo de que eu precisava para escrever minha dissertação sobre a trilogia de Marías. Perguntei a uma pessoa que lia no corredor sobre o teste e ele fez um gesto em direção a uma sala e me disse Aqui é sobre Balzac. Caminhei mais, a luz baça dos vitrais no corredor, apertei o passo para alcançar uma moça que caminhava à minha frente e perguntei a ela sobre a prova e ela disse Eu também tô indo pra lá, tô atrasada, é no salão, sobre Balzac, não é?

História abreviada dos livros que publiquei

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 13, 2011

Lancei três livros até agora.

O primeiro foi uma coletânea de textos do Rorty: três conferências, um texto autobiográfico, um texto de prognóstico e profecia: todos traduzidos com muita alegria por mim, em meu velho Mac Classic, e revisados em conversas com minha então orientadora. O livro contava ainda com uma introdução que eu e ela escrevemos juntos e com uma orelha generosa do Luiz Eduardo Soares. Nunca houve lançamento desse livro, nunca dei autógrafo, e sequer fui remunerado pelo trabalho; a edição se esgotou, e eu mesmo só tenho um exemplar. Lembro de ter ficado feliz quando apareceu, lembro de ter achado bonito e de ter sentido orgulho.

O segundo foi um livro que resultou de um prêmio que recebi de um banco interessado em promover a cultura: meu nome saiu na capa, junto com o de outros onze premiados, e o livro é esse balaio, sem outro norte a não ser o conferido pela premiação. O texto que saiu nesse livro me trouxe muita alegria: talvez pela primeira vez tenha me arriscado, tenha escrito algo sem saber direito o que escrevia. Era, é claro, apenas um ensaio: comentário, crítica, que é tudo que escrevi até agora, tudo que escrevo. Mas era também uma outra volta do negócio: acreditei  que o texto honrava minha relação com o Autor que comentava, e não me sentia perseguido pelo medo do erro.  Depois desse livro fiquei um tempo cheio de sonhos loucos de um novo começo, acreditei que estava descobrindo algo a respeito da escritura. Eu era e sou um filho de Barthes – bastardo e tardio e não-planejado, mas amado, no amor que vai de mim pra ele, sempre – e estava descobrindo aos trinta e poucos anos o que, enfim, se queria dizer com a distinção escrevência/ escritura. Mas, é claro, nada ocorreu, pois assim é a vida: as coisas só ocorrem às vezes, seria talvez o caso de compreender isso que chamamos de adventício a partir de outra matriz de valoração – pois vivemos todos mais ou menos escravos da razão prática e da lógica do resultado, do suposto matrimônio de trabalho e amor, mas o que fazer de amores de dissipação, de forças-de-vontade que se esgarçam sem muito ônus, sem muita preocupação com operações monumentais de fixação de marcos de passagem – o que fazer? Claro está que, se a pessoa pensa em coisas assim, apenas ocorreu algo da mesma ordem daquilo que nutriu a fatura do ensaio que propiciou essa forma peculiar de aprendizagem e alegria que nunca se fixou nem em conquista nem em método nem em transformação da vida nem em epifania – e, como tudo o mais, também se foi.

O terceiro foi um livro que escrevi sem saber que estava escrevendo, pois o que estava escrevendo eram uns artigos com um amigo pra uns eventos acadêmicos que foram aparecendo. Me impressiona observar o pouco que lembro hoje de como foram escritos esses textos: o que lembro é do período, e isso é como lembrar do conjunto, mas não do conteúdo, e só são coisas vagas, minha dureza eterna, o apartamento, os livros, a mesa, a cama, os cigarros, uma lâmpada que eu adorava, as estantes que eu fiz. Mas lembro, claro, da amizade: lembro da presença dessa pessoa, meu amigo, o co-Autor, em minha vida, como uma pontuação: a primeira vez que nos encontramos, conversa X, conversa Y, conversa Z, visitas, saídas, risadas, conselhos; sua insistência para que eu parasse de fumar e começasse a nadar, a diferença na ordenação e no suposto projeto de nossas vidas, o gosto musical lastimável que até hoje o caracteriza. Uma vez viajamos os dois para a Europa e não nos encontramos em Praga por dias de diferença – e, depois, rimos ao pensar no encontro fortuito, ele de terno e com toda pompa e circunstância, eu de mochila e o antípoda da pompa. Outra vez, na véspera de minha defesa de doutorado, nos encontramos sem marcar nada na hora do almoço no restaurante japonês que, seis anos antes, eu tinha apresentado a ele. E outra vez liguei pra ele de um orelhão porque me sentia totalmente solitário, e achava que ninguém mais poderia ter algum interesse em me ouvir a não ser, talvez, ele – o que nos diz que o melodrama, como Puig bem sabia (e Barthes também), tem sua zona de pertinência facilmente verificável na carne de quem o vive, onde habita como punctum.

Esses são os livros que há, mas há também os que virão.

Um próximo contará como, ao longo de sete anos, persegui um projeto de escrever uma biografia de um Autor que admiro e naufraguei seguidamente. O livro será a contrafação do insucesso que constitui sua matéria; vou gostar muito de escrevê-lo mas será, é claro, pouco lido e logo esquecido.

Um outro será uma investida de reescrita crítica de alguns textos que admiro mas que julgo problemáticos e enfadonhos, são como uma refeição boa que melhoraria com o apropriado condimento. Assim, em um dos contos veremos trechos do Diário de Moscou, de Benjamin, mas com um pouco de sexo, por favor, pois tanto tesão pela Asja não sobreviveria sem alguma puta, sem alguma masturbação, sem subir pelas paredes em ardor. Em outro, pego dois de Os Três Mosqueteiros e os coloco a caminhar por uma alameda a discutir algumas questões menos monárquicas, e mais suculentas: Athos descobre uma forma de proto-Marxismo, e começa a temperar suas análises de conjuntura com essa mirada oblíqua, sugerindo estratégia a partir de pressupostos Revolucionários. Um terceiro e último conto – pois o livro será também, evidentemente, uma homenagem a Flaubert, dispensável para ele mas necessária para mim – será a história de um arqueólogo jovem, em início de carreira, escavando em Túnis e descobrindo ruínas com inscrições, textos antigos que contam uma história alternativa à que é contada em Salammbô: o arqueólogo ignora Flaubert e, enquanto ele pensa ver a escrita da História nós, que lemos a história dele, sabemos que já não sabemos mais qual é o fim da Ficção. O livro será um exemplo de crítica como prática revisionista da literatura – e será demolido pelos neoconservadores da crítica, esses que ainda estão de fraldas agora mas estarão de dedo em riste no futuro próximo, prontos a antagonizar tudo que seja um mundo que não seja o seu – mas se pagará plenamente pelas gargalhadas que darei ao escrevê-lo, e será lembrado, de vez em quando, por meus amigos.

Há um outro, por fim, um livro meio acadêmico, que coleta todas as coisas lindas que o Kelvin me sugeriu ao longo dos anos. Tio Toni, porque você não escreve aquela história do grego em Nova York? ou E aquele texto que você disse que ia fazer comparando o minimalismo de Carver ao de Lydia Davis, hein? Cadê? Tinha até título, o título ficou bacana. ou Você lembra que me disse uma vez que tinha um ensaio sobre o Diário do ano da peste, de Defoe? Que fim levou esse texto?  Esse livro escreverei sem esforço quase nenhum, o que é uma mentira, e será um bom começo portanto para um livro que só tratará de fatos: nele, vou incluir aquele trecho do meu diário no qual conto a respeito do dia em que atravessamos a Avenida Paulista, eu e o Kelvin, de ponta a ponta, o passeio acompanhado de uma inigualável conversa fiada na qual falamos inclusive de Saer, e que escrevi como se fosse uma versão 2.0 de Glosa – pardacenta, turbulenta, edulcorada, mas minha, enfim meu manifesto de libertação do jugo da prosa de Saer. Sei muito pouco sobre esse livro além disso, mas sempre imagino que vou estar feliz no dia do lançamento.


Derridabase 2.0

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 4, 2011

O meio de uma manhã de Maio de 2011: ele está preparando aulas.

Essa denominação vulgar obscurece um procedimento muito idiossincrático que é, algo paradoxalmente, um dos esteios de sua profissão – que é, por sua vez, uma profissão que é tomada como dado, como envolvendo um saber que todos tem, sendo algo que todos podem. Em um certo sentido isso está correto – mas é também parte do resumo grotesco de incompreensão geral que envolve esse que é o seu trabalho, no qual ele está envolvido nessa manhã.

A certa altura, ele hesita. Devo discutir Derrida aqui? O debate que pretende travar com os alunos hoje circunda as relações entre etnografia e estruturalismo, então talvez valha a pena recuperar algo de “A estrutura, o signo e o jogo”, de Derrida. Ele vai à estante, procura o livro, não acha, perturba sua mulher, encontra o livro, o abre, e começa. Mas, ao invés de continuar procedendo como procedia – lendo pela enésima vez esse texto, destacando trechos em uma ficha que depois vai organizar em um esquema em outra ficha, que depois vai reproduzir no quadro e que vai utilizar como recurso mnemônico e norteador da discussão – desliza e divaga para o seu primeiro encontro com esse texto, na época do mestrado, há mais de quinze anos.

O que era esse texto para ele, então? Um enigma, uma foice a recolher de um golpe só suas entranhas, sua suposta inteligência, sua capacidade de se defrontar com o desconhecido reduzida a uma cabeça de fósforo, tudo reduzido à sua devida insignificância hermenêutica.  A primeira vez que ouviu uma menção a esse texto ocorreu no meio de um discurso inflamado de uma professora, uma cientista política de quem não ouve falar há muito, muito tempo, mas que sabe que se aposentou cedo, nunca terminou o doutorado e mora, se ainda vive, no interior. Essa mulher tinha uma têmpera única, ele nunca viu de novo aquele tipo específico de condução da energia em uma discussão: qualquer conversa podia se transformar em um debate, e um debate era sempre um engalfinhar-se, mas era como se houvesse uma alegria de fundo, um automatismo como o do riso quando vem, inevitável, irresistível, no fim de uma piada. Uma vez ela disse Vendi todos os meus livros e deixei só uns de Foucault; outra vez, perguntou Ora, você não está levando isso a sério, não é, rapaz? E se você não está levando a sério então porque é que tá levando, hein? E ele, obviamente, nada soube responder.

Essa foi a mulher que uma vez lhe disse Ficam aí discutindo como se Derrida nunca tivesse escrito A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências sociais, ficam aí tergiversando como se isso fosse nada. Essa declaração, em sua força enigmática, oracular, o inquietou enormemente – e lá foi ele, contrito e cdf, procurar ler o que deveria já ter lido, sempre atrasado e aflito, sempre atrás de si mesmo, demasiado lento pra ser eficaz ou achar que está em sintonia certa com seu tempo, suas necessidades, tudo que é imperativo saber para ser. Essa primeira leitura, realizada na biblioteca da universidade, incompreensível, não foi menos oracular que o proferimento que o havia levado à leitura – e foi ela que retornou hoje, enquanto ele preparava sua aula, pensando no que debater com seus alunos, quinze anos depois de todos esses incidentes, sua memória cheia de lembranças e nomes desses personagens perdidos com os quais conviveu e que foram remexendo nele como se fosse de barro, como se ser jovem fosse o mesmo que não ter nenhum formato, nenhum livro de Foucault a preservar, a menor consciência do que disse Derrida, e na verdade nada a dizer.

O que era isso, considerando o ensino?, ele pensa, O que ela estava, de fato, ensinando? Pensa isso e, rapidamente, descarta, isso não é interessante, não é sempre que se ensina, muito menos que se aprende – essas coisas na verdade são difíceis, remotas, e adventícias, provável efeito colateral de uma outra coisa, um enigma mais vasto, talvez mais interessante, mas a hora avança, a manhã se consome, o tempo passa e a aula chegou – e nela, evidentemente, nada disso foi dito.

No hay banda

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 4, 2011

Ler A Preparação do Romance me fez lembrar do magnífico e anômalo The Unstrung Harp, or: Mr Earbrass writes a novel. 

O primeiro trabalho de Edward Gorey, publicado em 1953, é um ensaio sobre a monotonia, o tédio, o sucesso e, claro, a escrita, a escrita de ficção, o empenho do ficcionista. Gorey tinha então 28 anos: vamos estimar que aquilo é resultado de um labor concentrado de um ano e de leituras que, chutando, vem desde a adolescência, o que se agrega a imagens e compromissos passionais perdidos na aurora da identidade para, pouco antes dos 28 anos, tudo se coagular no lamentável Mr Earbrass, sua fronte-nariz, seu bigode, seu olhar perplexo, suas manias vitorianas, e sua harpa sem nenhuma corda.

Trata-se, evidentemente, de um elogio a um exercício laboral que, já nos anos 50, demonstrava fadiga e sinais de decrepitude. Observamos que nos recônditos da mansão vazia de Mr Earbrass há muito pouco: supostamente, é um espaço convidativo à lassidão e ao conforto, mas o que vemos são livros, papéis, candelabros, solidão, insistência, labor. Como ajustar o título à trama? O que é esse personagem? O que fazer com o incidente crucial do capítulo 3 no capítulo 19? Quem fala agora? Quem ouve? Quem entende?

E, no entanto, como uma manobra de pura contrariedade: um personagem, subitamente, o assombra; uma passagem próxima da virada de um corredor sussurra uma música vagamente familiar; o cansaço é enorme, algo se insinua por trás de uma cortina. Sabemos que esse Autor não sabe o que está fazendo, isso é óbvio: há muito mais pergunta que resposta, muito mais titubeio que conhecimento de causa. Mas vemos um savoir faire em operação aqui: o Autor insiste, sabe que tem de fazer, recorta, cola, joga fora, desiste, refaz, padece de insônia, lamenta, lamenta e pois, voilà, o livro está pronto, seu título é The Unstrung Harp.

Barthes ria

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 2, 2011

Em um momento formidável (um de muitos momentos formidáveis) de seu A Preparação do Romance, Barthes diz, a respeito de Sidônio Apolinário:

Bispo de Clermont-Ferrand (século V) que defendeu Clermont contra os visigodos (importante obra poética).

Era uma gracinha? Será que Barthes estava cortejando o riso da audiência, sugerindo aí uma alça de leveza a ser inscrita na matéria trágica de sua exposição (o luto, a dificuldade de mudar, o absurdo da Vita Nuova)? Eu ri e achei bom: era isso? Rindo, leio bem essa formulação, de chofre e anacrônica, de uma performance poética? O que ele queria com esse colateral?

Há alguns anos, em um evento peri-acadêmico, vi um luminar da crítica local, em exercício, louvar, via Stockhausen, a Obra de Arte Total que era/ seria o 11 de Setembro: as torres fabulosamente em chamas, a irrupção do absoluto inesperado cancelando a rotina, o concerto das nações com a respiração suspensa, o nunca-ouvido e o jamais-visto juntos e simultâneos. Grande bosta, pensei, grande cretinice. Mas, claro, funciona como um doce de má-qualidade que vem, todavia, no melhor dos invólucros, o próprio doce de chucrute que uma vez me foi oferecido na casa de uma namorada, que recebi como se fosse grande coisa e que se provou uma ofensa ao paladar, uma afronta, um surto que tomou de assalto minha língua, colonizando-a com um ressaibo diabólico. Vem embalado em Stockhausen, agonizante intelectualmente e vivendo sua miséria particular e seu envelhecimento, vem com Schklovsky também, e o kit multiuso do Estranhamento, vem A Possibilidade da Arte no Século XXI – mas nada disfarça seu sabor hostil, a Crítica como a falência da Graça, o contrário da Graça, pura assertividade dura, pura peremptoriedade, precisamente o contrário do que encontro, quase sempre, em Barthes.

Muito bem: comentei isso hoje com um amigo, pessoa sensível e, na medida do possível, sensata: está escrevendo uma tese sobre Sebald e, como é próprio de momento de escrita de tese, anda mergulhado nessas coisas. Nos falamos ao telefone, obviamente sobre a tese, Sebald e, nessa vizinhança aí (Austerlitz, ruína, etc) o papo derivou para a imolação do Bin-Laden e, por essa via, para nossas memórias do 11 de Setembro. A certa altura, ele me disse algo como Camarada, o nosso é um mundo desgraçado, no qual até as Teses sobre a História de Benjamin são ridicularizáveis, são ridículas, pois não há mais nem resíduo da possibilidade de barrar o maldito progresso da ruína – e essas afirmações de Stockhausen não ficam atrás do sistema de esforços para dizer que o que acabou ainda não acabou. Não sei se entendi, mas ele ria ao falar – e eu, que sou seu amigo, ri também, como se entendesse, e assim nos despedimos.