ensaio

Tenho quatro amigos

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on setembro 20, 2014

O primeiro é bonito, vaidoso, encantador: é um mitômano, uma espécie de perene ficcionista da oralidade, vive tecendo suas histórias enquanto ajeita a roupa e o topete, e ergue as sobrancelhas, como se passasse marca-texto no que diz, e confirmasse com seu interlocutor alguma coisa que é da ordem do pacto de bastidores que travaram antes da conversa, no qual tudo foi acertado. Nos conhecemos assim, nos arredores de nossas mentiras, e de lá nunca saímos, o amor pela ficção um elixir que tudo cura, e um certo comunismo de minha parte que garante um atrito útil com um certo fascismo da parte dele. Ficamos embevecidos quando, depois da décima cerveja, ele se dedica a erguer alguma revelação, esboçar alguma narrativa que, sendo sempre mentira, nos dará algum encontro com o novo, o inusitado, o insólito, o belo. É muito generoso, e todas as vezes causa problemas nas contas de bar por querer pagar demais; sua motivação nunca é a culpa, sempre é a alegria. Costuma dizer que é invejoso, e que deseja ser autor, ostentador, magnata cultural. Mas essa é outra de suas ficções: o que deseja é estar ali, centro magnético da mesa de bar, ou caminhando pela Rua da Glória, marionetando suas histórias, sua audiência, confiante no abraço de despedida feliz no fim da noite. Uma vez, estando com ele em um bar repleto, chorei; no bar cheio, era notável que as outras mesas se interessavam pela anomalia de um adulto se emocionando em lugar impróprio: ele se manteve impassível e solidário, silencioso, ouvinte, amigo.

O segundo é quieto e reservado; sei que é meu amigo, e na medida em que nossa vida errática permite sempre atesto com felicidade os esforços que ele faz para me encontrar, muitas vezes para que a gente converse bem pouco, como se não precisasse mais disso. Uma versão das amizades inglesas preconizadas por Borges, excluindo de saída a vulgaridade da confidência e prescindindo do diálogo sempre que possível. Dizem que era tímido na adolescência e, embora hoje esteja longe dessa coisa própria da timidez que é o impedimento à vontade, ainda parece se comunicar com essa área da experiência de uma maneira que me é alheia; me atribulo no trabalho (carreira, projetos) e na vida (dinheiro, brigas) de um jeito que parece nunca ter sido problema pra ele, senhor tranquilo de um saber que não possuo aí. Nosso horizonte de conversas se concentra em nossa experiência com nossos pais; nossos problemas com a literatura; nossas perturbações com as mulheres. Há coisa de um ano ele estava morando em X, cidade onde morei há muito tempo e que virou uma espécie de explicação e signo místico para mim, lugar em que me reconheci como pertinente e pertencente ao mesmo tempo em que me sabia excluído e menor, em um processo tão ambivalente que até hoje imagino ser essa uma de minhas características mais fáceis de detectar. Nos falamos no skype, ele muito triste e com frio, e fiquei numas de animar ele recuperando momentos de minha vida lá, perguntando “Ainda tem isso em tal rua?”, “Ali na esquina de A com B tem tal coisa”, “Você já foi em Z?”. Recuperava aqueles lances de memória já muito manipulados e gastos pelo uso, mas dessa vez com ele como protagonista, ele nas ruas em que andei, ele com minha calça jeans e camiseta branca, ele admirando coisas, experiências, mulheres inatingíveis, inesquecíveis.

O terceiro mora em um quarteirão solitário, perto da praia, numa casa repleta de livros. Seus irmãos, muitos, foram se mudando e ele foi ficando: vive com os móveis e objetos dos anos oitenta de uma casa que precisa de pintura, a casa onde ele nasceu e cresceu e onde continua até hoje. Minha admiração por ele é quase infinita: sua delicadeza tranquila, um homem corpulento, de quarenta anos, que nunca parece ter se desgastado tentando provar nada para ninguém e que portanto é desprovido da carapaça na qual eu, por exemplo, investi tanto tempo e dinheiro. É muito erudito (lê em russo) e rodado (passou dois anos vivendo no leste europeu; antes, morou num kibbutz) e é um dos melhores autores de sua geração, maior ainda por parecer não se importar com fato de ser quase desconhecido e seriamente desprestigiado para quem tem tanta imaginação e força, abundante a ponto de permitir que ele publique naquela lata de lixo da história que é o facebook posts como esse

Quando meu pais eram vivos sempre esperávamos uma visita que nunca chegava. Tínhamos que estar de banho tomado, com roupas sempre limpas, cabelo penteado. Alguém, nunca soubemos quem, podia chegar a qualquer momento na nossa casa. Os móveis tinham que estar impecáveis. Os brinquedos trancados em um quartinho. Minha mãe forrava a cama enquanto eu ainda estava dormindo sobre ela. Naquela época eu ainda não sabia, mas no meu caso a visita eram os livros. Essa é a minha love story, como diria Haňt’a. Escrevo isso enquanto indico um livro para uma amiga. Escrevo enquanto lembro da minha leitura de Jardim, cinzas, de Danilo Kiš. Escrevo enquanto, sem pensar muito, defino assim o livro para uma amiga: É como se o Tio Pepin de Hrabal irrompesse nos salões do Palácio dos Sonhos de Sandman e lá encontrasse as crianças da Rua Paulo e todos dançassem o Čoček.

Ou esse:

Devo a César Aira a ideia que os acidentes de memória criam todo tipo de monstros. Às vezes lembramos algo que já não sabemos se aconteceu daquela maneira ou foi nossa imaginação que criou e preencheu as partes que estavam faltando com simulacros dos acontecimentos, como os dinossauros do Jurassic Park criados a partir de rãs. Assim também são com os livros que nos surpreendem quando procuramos um trecho que imaginávamos de outra forma. Assim é com os livros que li, assim é com Moby Dick, assim é com Extinção. Ambos são relatos obsessivos sobre a extinção. E provavelmente não foi assim que aconteceu, mas foi assim que lembrei: Queequeg é Gambetti. Bernhard e Melville escrevem antibiografias. A grande baleia branca é a Áustria nazista. O redemoinho no mar e na linguagem. O apagamento da origem, da nação, dos pais, do poder. O curto-circuito entre memória e esquecimento. A carta nunca entregue de Kafka ao seu pai.

A menção a Aira não é trivial para mim: conheci Aira por ele, que me enviou um livro, Um acontecimento na vida do pintor viajante, que foi meu primeiro Aira, e que terminou me levando a escrever uma tese sobre Aira. O livro, lamentavelmente, se perdeu em minhas separações e mudanças, mas recordo que a dedicatória dizia, aludindo a minha pobreza e quase impossibilidade de comprar livros novos Meu amigo, ganhar não é comprar.  É o único de meus amigos que tem a barba cheia, o mundo não sabe apreciá-lo, não conhece a alegria de sua proximidade em uma mesa de café, ao redor de uma pizza, a seu lado, caminhando, na calçada, na parte velha da cidade. 

Esses são os quatro amigos.

Prague, Hrabal

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Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on abril 10, 2014

Picnic Paquetá fev- 2010 (61)

 

 

Eis que se ergue, podemos vê-lo na curva do tronco da árvore: estava a olhar para o outro lado, olhar adiante da costa, altaneiro, o cenho febril e intranquilo dos que contém multidões: é o Xamã-Mor, o Neo-Babalorixá, o Pós-Buda, o nosso, o autóctone e autêntico, a rezar. Urna grega nos trópicos, cercanias da árvore, diante do mar, reverberação dos vais-e-vens todos do universo quântico vibratório da murta.

Eis que o Neófito se aproxima, sem titubeios, pois a vontade é muita e a juventude é forte e rotunda e abrupta: busca a benção, será quiçá merecedor da benesse da benta saliva que é aspergida em fractal paralela à voz do mestre, que canta a voz de um antanho futuro e místico, relativo e absoluto em si mesmo a partir sempre de decreto próprio de si e dos seus.

Ainda que eu ande pelo vale da Sombra da Árvore do Picnic de Paquetá não temerei mal algum, pois sua eufemia e seu cajado verbal estão comigo, Mestre, Xamã maior, Pós-Babalorixá, ânus austral máximo de pura sabedoria incandescente, fonte do grande peido místico celebrado na Quinta da Boa Vista como o Novo Advento, a Última Vinda. Em Paquetá, onde o Claudio Cavalcanti celebrou um alterego que celebrava a curva boa da fértil melancia, onde a semente de melancia foi lançada da barca, e além, em um mesmo plano de consistência, na esquina do desvio, alors! Ou, como já disse um dileto discípulo (há quem o chame O Herdeiro), Na mola mestra das pregas do cu do mestre se oculta O Segredo. 

O Neófito se aproxima, o Mestre completa a curvatura do círculo ao redor que circunda a árvore, há um colóquio, Mestre, ao que o Mestre, imediato, retruca Não vai falar com ela? E o Neófito, qua neófito, inquiridor e estupidificado, mas ao mesmo tempo pronto para a prenhe novidade do Outro maior sempre à espreita, nada responde, olha e espera, ao que o Mestre, sabedor de tudo que é dos Novos e da Novidade, suplementa, cândido e manso, Ela, A Árvore. E o Neófito diz Como vai, prazer.

 

Em Setembro de …

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on setembro 24, 2012

Em Setembro de 2002 eu estava lendo quase que só coisas de e sobre Raymond Carver. Por alguma razão que hoje ignoro entrei numas de Carver naquela época, e lembro de passar um tempão sentado em um pufe que tinha na sala, com o cinzeiro do lado, fumando e lendo até altas horas.

Será que havia alguma espécie de purgação ou catarse nessas leituras? Eu estava bem fodido, mas é dureza você estar mais fodido que um personagem de Carver. Bem podia ser uma pulsão terapêutica, voltada para estabelecer minha boa fortuna relativa por contraste. Vai saber. Lembrei desse período faz uns dois anos quando, na casa de F, vi um exemplar da biografia de Carver. É boa?, perguntei. Não sei, não li ainda, ele respondeu. Mas foi o G que me recomendou, ele gostou. 

G nessa época estava prestes a defender a tese dele, que era, mais ou menos, sobre Carver. Botei fé no juízo do especialista e fui ler a biografia. Era boa, mas cheia daquelas interpolações risíveis, e o fato é que depois de vinte, trinta biografias literárias a monotonia do trilho hermenêutico cansa, os perenes licenciamentos dos biógrafos. A meio caminho da coisa a abandonei, cansei de ver Carver se fuder, e já sabia do pano final com aplausos e das baixarias post-mortem entre os herdeiros; larguei o livro à toa, em uma pilha qualquer na casa, me esqueci dele.

Pouco depois minha irmã foi passar férias comigo – era meu último inverno em Belo Horizonte, mas ninguém sabia disso ainda. Ela pegou a biografia um dia, me perguntou se era boa, eu meio que repeti o que o F tinha me dito sobre o G e mais o que acabei de escrever aí em cima; ela ficou uns dias manuseando, levando pra lá e pra cá.

Hoje abri o livro, procurando uma parte que eu tinha sublinhado, e encontrei varias anotações dela. Algumas eram sublinhados a lápis, pedaços de frase como

Sandmeyer was intrigued by an abandoned school, but Ray was restless

praying to Jesus in one breath/ to the snake in the other

He had given up attempts to look cool

Inside was an old iron bed. I found a shoe box under the bed.

He did not know it, but he was already at the midpoint of his life.

Ela também escreveu ao redor de algumas fotos, como se fossem legendas alternativas:

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Thunderous sideburns and a jewfro, brother: that’s how you need ‘em!

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To find solace in one’s art is beautiful.

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There’s something about Ray

História abreviada dos livros que publiquei

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 13, 2011

Lancei três livros até agora.

O primeiro foi uma coletânea de textos do Rorty: três conferências, um texto autobiográfico, um texto de prognóstico e profecia: todos traduzidos com muita alegria por mim, em meu velho Mac Classic, e revisados em conversas com minha então orientadora. O livro contava ainda com uma introdução que eu e ela escrevemos juntos e com uma orelha generosa do Luiz Eduardo Soares. Nunca houve lançamento desse livro, nunca dei autógrafo, e sequer fui remunerado pelo trabalho; a edição se esgotou, e eu mesmo só tenho um exemplar. Lembro de ter ficado feliz quando apareceu, lembro de ter achado bonito e de ter sentido orgulho.

O segundo foi um livro que resultou de um prêmio que recebi de um banco interessado em promover a cultura: meu nome saiu na capa, junto com o de outros onze premiados, e o livro é esse balaio, sem outro norte a não ser o conferido pela premiação. O texto que saiu nesse livro me trouxe muita alegria: talvez pela primeira vez tenha me arriscado, tenha escrito algo sem saber direito o que escrevia. Era, é claro, apenas um ensaio: comentário, crítica, que é tudo que escrevi até agora, tudo que escrevo. Mas era também uma outra volta do negócio: acreditei  que o texto honrava minha relação com o Autor que comentava, e não me sentia perseguido pelo medo do erro.  Depois desse livro fiquei um tempo cheio de sonhos loucos de um novo começo, acreditei que estava descobrindo algo a respeito da escritura. Eu era e sou um filho de Barthes – bastardo e tardio e não-planejado, mas amado, no amor que vai de mim pra ele, sempre – e estava descobrindo aos trinta e poucos anos o que, enfim, se queria dizer com a distinção escrevência/ escritura. Mas, é claro, nada ocorreu, pois assim é a vida: as coisas só ocorrem às vezes, seria talvez o caso de compreender isso que chamamos de adventício a partir de outra matriz de valoração – pois vivemos todos mais ou menos escravos da razão prática e da lógica do resultado, do suposto matrimônio de trabalho e amor, mas o que fazer de amores de dissipação, de forças-de-vontade que se esgarçam sem muito ônus, sem muita preocupação com operações monumentais de fixação de marcos de passagem – o que fazer? Claro está que, se a pessoa pensa em coisas assim, apenas ocorreu algo da mesma ordem daquilo que nutriu a fatura do ensaio que propiciou essa forma peculiar de aprendizagem e alegria que nunca se fixou nem em conquista nem em método nem em transformação da vida nem em epifania – e, como tudo o mais, também se foi.

O terceiro foi um livro que escrevi sem saber que estava escrevendo, pois o que estava escrevendo eram uns artigos com um amigo pra uns eventos acadêmicos que foram aparecendo. Me impressiona observar o pouco que lembro hoje de como foram escritos esses textos: o que lembro é do período, e isso é como lembrar do conjunto, mas não do conteúdo, e só são coisas vagas, minha dureza eterna, o apartamento, os livros, a mesa, a cama, os cigarros, uma lâmpada que eu adorava, as estantes que eu fiz. Mas lembro, claro, da amizade: lembro da presença dessa pessoa, meu amigo, o co-Autor, em minha vida, como uma pontuação: a primeira vez que nos encontramos, conversa X, conversa Y, conversa Z, visitas, saídas, risadas, conselhos; sua insistência para que eu parasse de fumar e começasse a nadar, a diferença na ordenação e no suposto projeto de nossas vidas, o gosto musical lastimável que até hoje o caracteriza. Uma vez viajamos os dois para a Europa e não nos encontramos em Praga por dias de diferença – e, depois, rimos ao pensar no encontro fortuito, ele de terno e com toda pompa e circunstância, eu de mochila e o antípoda da pompa. Outra vez, na véspera de minha defesa de doutorado, nos encontramos sem marcar nada na hora do almoço no restaurante japonês que, seis anos antes, eu tinha apresentado a ele. E outra vez liguei pra ele de um orelhão porque me sentia totalmente solitário, e achava que ninguém mais poderia ter algum interesse em me ouvir a não ser, talvez, ele – o que nos diz que o melodrama, como Puig bem sabia (e Barthes também), tem sua zona de pertinência facilmente verificável na carne de quem o vive, onde habita como punctum.

Esses são os livros que há, mas há também os que virão.

Um próximo contará como, ao longo de sete anos, persegui um projeto de escrever uma biografia de um Autor que admiro e naufraguei seguidamente. O livro será a contrafação do insucesso que constitui sua matéria; vou gostar muito de escrevê-lo mas será, é claro, pouco lido e logo esquecido.

Um outro será uma investida de reescrita crítica de alguns textos que admiro mas que julgo problemáticos e enfadonhos, são como uma refeição boa que melhoraria com o apropriado condimento. Assim, em um dos contos veremos trechos do Diário de Moscou, de Benjamin, mas com um pouco de sexo, por favor, pois tanto tesão pela Asja não sobreviveria sem alguma puta, sem alguma masturbação, sem subir pelas paredes em ardor. Em outro, pego dois de Os Três Mosqueteiros e os coloco a caminhar por uma alameda a discutir algumas questões menos monárquicas, e mais suculentas: Athos descobre uma forma de proto-Marxismo, e começa a temperar suas análises de conjuntura com essa mirada oblíqua, sugerindo estratégia a partir de pressupostos Revolucionários. Um terceiro e último conto – pois o livro será também, evidentemente, uma homenagem a Flaubert, dispensável para ele mas necessária para mim – será a história de um arqueólogo jovem, em início de carreira, escavando em Túnis e descobrindo ruínas com inscrições, textos antigos que contam uma história alternativa à que é contada em Salammbô: o arqueólogo ignora Flaubert e, enquanto ele pensa ver a escrita da História nós, que lemos a história dele, sabemos que já não sabemos mais qual é o fim da Ficção. O livro será um exemplo de crítica como prática revisionista da literatura – e será demolido pelos neoconservadores da crítica, esses que ainda estão de fraldas agora mas estarão de dedo em riste no futuro próximo, prontos a antagonizar tudo que seja um mundo que não seja o seu – mas se pagará plenamente pelas gargalhadas que darei ao escrevê-lo, e será lembrado, de vez em quando, por meus amigos.

Há um outro, por fim, um livro meio acadêmico, que coleta todas as coisas lindas que o Kelvin me sugeriu ao longo dos anos. Tio Toni, porque você não escreve aquela história do grego em Nova York? ou E aquele texto que você disse que ia fazer comparando o minimalismo de Carver ao de Lydia Davis, hein? Cadê? Tinha até título, o título ficou bacana. ou Você lembra que me disse uma vez que tinha um ensaio sobre o Diário do ano da peste, de Defoe? Que fim levou esse texto?  Esse livro escreverei sem esforço quase nenhum, o que é uma mentira, e será um bom começo portanto para um livro que só tratará de fatos: nele, vou incluir aquele trecho do meu diário no qual conto a respeito do dia em que atravessamos a Avenida Paulista, eu e o Kelvin, de ponta a ponta, o passeio acompanhado de uma inigualável conversa fiada na qual falamos inclusive de Saer, e que escrevi como se fosse uma versão 2.0 de Glosa – pardacenta, turbulenta, edulcorada, mas minha, enfim meu manifesto de libertação do jugo da prosa de Saer. Sei muito pouco sobre esse livro além disso, mas sempre imagino que vou estar feliz no dia do lançamento.


Exercícios de Crítica Literária Contemporânea

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 5, 2011

1.

O comentário biográfico incide reiteradamente sobre dois processos em Henry James.

Um, é seu tartamudear: não é de forma alguma uma gagueira, mas uma enunciação hesitante e tateante que o persegue desde muito cedo. Não há gravações de James, mas podemos imaginar a sequência de Well… Uhm… I mean… So… etc

Outro é o uso que faz de um amanuense: por volta dos 50 anos, James começa a manifestar os sintomas do que hoje é a conhecida Síndrome do Túnel do Carpo e, como uma resolução para seu sofrimento cotidiano, contrata um copista. É possível imaginá-lo, a partir desse momento, alterando sua rotina de trabalho, e incorporando ao seu processo composicional um deambular pela sala, um ir e vir que ocorre em paralelo à enunciação enquanto o copista, silencioso, oculto, atento, copia.

Estabeleça um paralelo entre os incidentes citados e as peculiaridades do discurso indireto livre na obra tardia de James, com particular atenção a The Golden Bowl.

2.

Em 1942, Bowles se mudou para um apartamento na 14th St com a 7th Ave. O ocupante anterior tinha sido Duchamp e, assim, eles se conheceram.

Improvise.

3. 

É conhecida a afirmação de Piglia: A critica é uma das formas modernas da autobiografia. Um sujeito escreve sua vida quando crê estar escrevendo suas leituras.

Disserte sobre o tema, considerando as manifestações em A, B, e C.

No hay banda

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 4, 2011

Ler A Preparação do Romance me fez lembrar do magnífico e anômalo The Unstrung Harp, or: Mr Earbrass writes a novel. 

O primeiro trabalho de Edward Gorey, publicado em 1953, é um ensaio sobre a monotonia, o tédio, o sucesso e, claro, a escrita, a escrita de ficção, o empenho do ficcionista. Gorey tinha então 28 anos: vamos estimar que aquilo é resultado de um labor concentrado de um ano e de leituras que, chutando, vem desde a adolescência, o que se agrega a imagens e compromissos passionais perdidos na aurora da identidade para, pouco antes dos 28 anos, tudo se coagular no lamentável Mr Earbrass, sua fronte-nariz, seu bigode, seu olhar perplexo, suas manias vitorianas, e sua harpa sem nenhuma corda.

Trata-se, evidentemente, de um elogio a um exercício laboral que, já nos anos 50, demonstrava fadiga e sinais de decrepitude. Observamos que nos recônditos da mansão vazia de Mr Earbrass há muito pouco: supostamente, é um espaço convidativo à lassidão e ao conforto, mas o que vemos são livros, papéis, candelabros, solidão, insistência, labor. Como ajustar o título à trama? O que é esse personagem? O que fazer com o incidente crucial do capítulo 3 no capítulo 19? Quem fala agora? Quem ouve? Quem entende?

E, no entanto, como uma manobra de pura contrariedade: um personagem, subitamente, o assombra; uma passagem próxima da virada de um corredor sussurra uma música vagamente familiar; o cansaço é enorme, algo se insinua por trás de uma cortina. Sabemos que esse Autor não sabe o que está fazendo, isso é óbvio: há muito mais pergunta que resposta, muito mais titubeio que conhecimento de causa. Mas vemos um savoir faire em operação aqui: o Autor insiste, sabe que tem de fazer, recorta, cola, joga fora, desiste, refaz, padece de insônia, lamenta, lamenta e pois, voilà, o livro está pronto, seu título é The Unstrung Harp.

Saída à Francesa

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on março 14, 2011

Você vem trabalhando há quase um ano em uma biografia: um texto que deve narrar, em alguma medida, episódios da vida de um autor argentino que viveu a maior parte de sua vida na França e morreu recentemente. Suas razões para o empenho são, em certa medida, ponderáveis e solidárias, mas tem também sua cota de obscuridade. Você crê, por exemplo, que parte de seu interesse em produzir uma biografia e em se dedicar com tanto afinco a esse trabalho em particular confirma um traço seu que, na falta de maior possibilidade de precisão semântica vou chamar no momento de subalternidade eletiva: você não deseja ocupar o centro do palco nem em seu próprio livro, quer viver como uma nota marginal a uma reputação já construída, que é a do Autor, e a sua própria reputação seria manobrada obliquamente, adjacente à daquele autor que você admira, e valorizada pela eventual astúcia de uma invisibilidade, em uma espécie de eterna saída à francesa.

Considerando uma insistência do Autor em uma conhecida antinomia de Flaubert – que disse, famosamente, tanto Madame Bovary sou eu quanto Há uma Madame Bovary em cada cidade francesa – você começou a ler biografias de Flaubert e, com isso, lhe ocorreu que não poderia ser de todo ruim ler enfim o Flaubert inteiro, em ordem cronológica, e acabar com isso de uma vez. Ler como se estivesse lendo tudo pela primeira vez (como se isso fosse possível): ler como se estivesse escrevendo uma biografia de Flaubert, ao invés de seu Autor de eleição, numa projeção da qual você espera também retirar alguma coisa, algum insight, alguma sugestão de procedimento ou uma faixa maior de segurança e graça. Você vai ler cada livro de Flaubert, e também os diários de viagem e as cartas; vai ler a biografia de Brown e a de Steegmuller e terminará o esquema lendo mais uma vez o livro que tanto lhe divertiu, o blasfemo e despreocupado Flaubert’s Parrot, de Barnes.

Você está assim, ligeiramente despreocupado, domingo à noite, agora há pouco, vivendo essas suas ficções: que você é um biógrafo, que ler Flaubert lhe faz bem, que você terá tempo. Repleto de boas intenções com seu programa especial, você se vê ao longo da leitura lembrando de outras frases, outras coisas lidas ficam interferindo e chamando sua atenção. É um momento de pequeno horror, você sabe que as frases não são suas, mas você não sabe de quem são, e afinal você também duvida, pode ser que sejam suas mesmo, um artifício de combinatória qualquer que você ignora e, de repente, elas saltam aos olhos porque fazem sentido, porque lhe dizem que tudo que você pensa é usado e de segunda mão, tudo que você vive é mais ou menos caótico, mais ou menos obscuro – e, no entanto, digamos, tudo bem, lá vai você escrevendo a vida de um Autor que você admira e, afinal de contas, de onde vem a admiração senão de um momento de clareza fugaz mas ainda vívido na memória no qual, ao ler, você percebe uma zona de obscuridade em si mesmo, descobre que sabia algo que efetivamente não sabe, mas não importa, pois naquele momento você não se envergonha, você não sabe e nisso, sim, você se dilui, igual a todos e capaz de se esquecer de si mesmo por esse momento que seja, pelo menos.

Joseph Mitchell, Dad, 1992

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on fevereiro 25, 2011

Lembramos daquele comentário de Piglia: um crítico narra sua vida ao escrever sobre os livros que leu – suas leituras inscrevem um padrão de saliências específico nos textos, uma marca de identidade hermenêutica. Isso faz sentido: basta ler o blog do Zé Castello ou o do Kelvin por um mês pra perceber que há algo dessa ordem em operação – não é apenas estilo, é mais um modo de usar.

A publicação recente de uma tradução de trechos dos Diários de Cheever me fez dar atenção ao canto da estante no qual estão depositados meus livros de Cheever – Cheever estava na berlinda, vários conhecidos comentando, então pensei em Cheever de novo, fui me aproximar dele de novo, e fui pro canto da estante onde estão seus livros:

É só um amontoado de livros – mas a história do seu amontoamento é, certamente, uma biografia: o crítico também escreve sua vida nos livros que acumula, como os acumula, como os separa, organiza e controla, o que mantém, o que dissipa. Ora, tenho trabalhado como um cão ultimamente pra escrever uma biografia de Saer – mais: para dar sentido ao projeto de sentar todo dia para escrever uma biografia de Saer. Se esse arroubo a respeito da vida nos livros que se tem funciona, o que faria eu diante de um trecho de prateleira de livros de Saer? Esses livros seriam indício suficiente de quê? Servem para quê, a não ser para serem manuseados por febris epígonos fanáticos, eventualmente fazerem uma graninha para a família, os Nobres Livros do Autor Morto – servem para quê?

Posso favorecer a hipótese da utilidade tomando minha própria prateleira na foto como exemplo: aí estão minha vida em NY (os balcões mais baratos da Strand), uma ex (duas, melhor dizendo), um amigo perdido, a época em que queria ser tradutor, o momento em que parei de fumar (era 2008, janeiro, e estava lendo os Diários de Cheever), etc. Aí está também aquela história do Kelvin indo no Berinjela vezes sem conta e vendo o volume de cartas do Cheever e paquerando o livro sem comprar até que, anos depois, o Berna o enviaria pra mim – exatamente o mesmo livro, passando por dois amigos meus, e chegando a mim graças ao antigo dono, ignorado, sem nome  pra mim, que um dia o depositou lá no Sebo – e como abriu mão das cartas de Cheever, em benefício de quê.

Aí está também, envolvido num papel pardo para proteger um pouquinho a capa, um de meus livros favoritos, o quarto exemplar que tenho do mesmo livro, Up in the Old Hotel, de Joseph Mitchell. Mitchell, que tinha uma paciência de Jó, escreveu esses textos maravilhosos, nos quais não se conta quase nada: são só umas histórias de tipos ordinários, que se fazem envoltos em mistérios vãos acho que mais pela força magnética que a noção de idiossincrasia  exerce sobre nossa espécie que por qualquer outra razão. São histórias de quase nada, e todavia. Lembro de uma época em que lia os capítulos, ritualisticamente, toda terça e quinta à noite: eu não trabalhava nesses dias, e ficava grifando trechos e sonhando em escrever bem (eu também fumava, e nem pensava em parar). Lembro de minha melancolia ao ler Joe Gould’s Secret, e como me surpreendeu o fato de estar aparentemente mais tocado ao ler o texto pela segunda vez, tolamente surpreso por estar contrariando uma regra pseudocristã que dá sempre mais valor ao mais virginal (li esse texto em voz alta uma outra vez, lembro). E outro dia – está fresco, foi agorinha mesmo, agora no Natal – cheguei no hotel de uma visita a mil sebos, cheio de livros, feliz, e com mais um volume do mesmo livro de Mitchell. Deitei na cama, abri o livro e vi, então, a dedicatória.

Morton Feldman morreu semana passada aos oitenta e seis anos

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on novembro 23, 2010

Imagine um menino gordinho, todo agasalhado, com cachecol, casaco grosso e roupas de flanela, caminhando pelo Brooklyn, uma pasta com um caderno de música e um lápis dentro, mas também uma bola de gude, um pacotinho de doce, um pedaço de barbante. Lá vai o garoto pra aula de piano: sua professora é uma senhorinha seca e fofa, com sotaque forte, riso fácil e um apartamentinho cheio de tapetes e cortinas pesadas. Ela gosta de Scriabin, então ele aprende a tocar Scriabin. Ela estudou com Busoni, e tem partituras de Busoni, adaptações facilitadas de Bach por Busoni, cheias de marginalia e anotações – então ele aprende a tocar Bach por Busoni, e se perde naquelas anotações. Ela diz Morty, atenção e ele presta atenção na mãozinha fina, nas teclas gastas, nos bibelôs da sala. E ela diz de novo Morty, preste atenção, Morty – então ele presta atenção, ele continua prestando atenção. E ela toca cada acorde, lentamente, um de cada vez, molto lento: Lentissimo, Morty, lentissimo. Isso, isso. E assim passa a aula, que é como todas as aulas e que é apenas mais uma coisa na vida de todos, uma coisinha insignificante, e o garotinho vai agradecer à professora e voltar pra casa, como sempre, pelo mesmo caminho, e vai pensar em muitas coisas, coisas que garotos pensam, coisas que garotos judeus nos anos 30 em New York pensam, essas coisas.

Imagine um rapaz na casa dos vinte, uma camiseta branca e uma calça jeans, em New York pela primeira vez. Vive perigosamente, à beira da pobreza absoluta: quer e não quer ter sucesso, deseja e não deseja tudo que vê e que está à disposição de quem não apenas deseja mas consegue articular desejo e astúcia em um só foco. A pouca astúcia que tem usou para vir pra cá, e assim viver sua épica particular de escolha, dizer sim à cidade dos seus artistas, da sua família escolhida, dizer sim. Ele entra em um salão de concerto apertadinho na New School: estão celebrando os dez anos da morte de Morton Feldman, é de graça, ele quer ver e ouvir aquilo. Não sabe nada de Feldman, a não ser que era amigo de Cage, que era daquela praia – ele se engana, o que não é de se estranhar, uma vez que ele não sabe. O que ele vai saber em breve é o que acontece depois que ele senta no auditório, ignorado por todos, esquecido de si nesse lugar onde ele sabe que ninguém o encontrará, ninguém se surpreenderá ao vê-lo, ninguém está esperando por ele: ali, naquelas cadeiras velhinhas e meio dançadas do auditório da New School, ele vai ouvir Morton Feldman pela primeira vez, sem nenhuma preparação exata para a experiência – o que é correto pois, via de regra, a gente não está mesmo preparado para nenhuma experiência. Saindo do auditório, caminhando para o metrô, ele enfia a camiseta pra dentro da calça mais um pouco, e esse gesto não parece nem mais nem menos gratuito que qualquer outro.

Imagine esse mesmo homem, agora já perto dos quarenta. Anda um pouco asfixiado, e obviamente não aguenta – embora não saiba exatamente o que é que não aguenta, sua vida não é tão ruim assim, é o calor, claro, mas não é só isso. Quando era mais jovem, a vida parecia ser possibilidade pura, possibilidade ilimitada – mas justo naquela época ele mesmo estava fechado e, agora, anos depois, com muito mais abertura, não tem o menor interesse por possibilidades. Agora ele parece se contentar em rearrumar os mesmos velhos móveis num mesmo ambiente, preocupado com bem pouco mais que estabelecer condições práticas muito rudimentares que lhe permitam trabalhar – uma cadeira confortável, a medida adequada de silêncio, um certo esquecimento da melancolia e a despreocupação com o gesto gratuito e suas consequencias. Como, por exemplo, no meio de uma tarde de novembro, ouvir Madame Press died last week at ninety, e sentar em sua cadeira no trabalho e lembrar daquele garotinho judeu no Brooklyn nos anos 30, daquele rapaz no Greenwich nos anos 90, e esquecer de tudo por um momento, esquecer de si mesmo e de todas as suas histórias e promessas e saber que essa é uma das muitas alternativas para ter uma conversa consigo mesmo, aquela que vai lhe permitir abraçar seus amigos, e beber com eles, e conversar, e esquecer de si mesmo mais uma vez, de novo, como se tudo estivesse limpo, como se tudo estivesse claro, de novo.

Don Draper, John Cheever

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on outubro 29, 2010

A extensão em que se pode ter empatia com Don Draper é enorme: o homem é uma fantasia de sucesso completa, habita um momento histórico e um lugar invejáveis, e celebra um exercício radical do projeto do self-made man: é carismático, astuto e tranquilo, uma fortaleza que se fez com nada exceto habilidade, engenho e arte. Mas, à medida que a narrativa avança, uma tintura começa a aparecer e se espalhar – e você não se surpreende, mas o fato é que é uma tragédia. Há momentos de leveza, mas são eventuais, parênteses. O destino do herói, uma vez que é destino, não admite redescrição, e a contingência não é capaz de nada a não ser de uma folga cômica, um alívio que permite a projeção, em uma outra volta do parafuso, da narrativa para seu final.

Ou não? Observe, por exemplo, o momento em que Draper, na Califórnia, pode se redescrever mais uma vez, sumir, desaparecer: toma um banho de mar, sem camisa, com uma calça cáqui arregaçada, um quarentão em uma praia solitária na costa oeste nos anos sessenta. O que se pensa em um momento assim? O que se deseja? Ou, ainda, no episódio em que ele aparece nadando na piscina, ruas de Manhattan fervilhando no início do verão, e ele escrevendo em seu diário, de novo com uma calça cáqui, os pés descalços: o que é isso? Reforma moral, incipit vita nova?

Você lê os diários de Cheever, mais ou menos dessa época, início dos anos sessenta, ele já com quase cinquenta anos dizendo coisas como A estranheza do tempo, a estranheza da personalidade. Às voltas consigo mesmo, perplexo com seu próprio espectro de ambiguidades e envolvido em um trabalho que, em certa medida, depende do auto-exame para ter sucesso, Cheever parece o tempo todo buscar para si o estado em que, sem nome e nu mais uma vez, ninguém sabe quem ou o que ele é, e ele pode ser qualquer coisa, e acreditar por um momento que a satisfação desse novo desejo de ser será, dessa vez, enfim, algo sem custo, sem dor, sem falência. Você escreve em seu diário sobre isso, acorda cedo para nadar, e se esgota pensando em coisas dessa família: razões, projetos, impotências, importâncias. E isso, embora pareça a posteriori apenas mais uma encarnação da ingenuidade, ou um exercício peculiar de ócio e lassidão, é também a manifestação de uma urgência que talvez seja inevitável, uma consciência da falência final que não se deixa asfixiar pelas mil e umas forças do Não, do Você não é isso, do Você sempre vai ser assim. E então você nada um pouco mais e lembra de Cheever se perguntando, em uma página de 1962,

O que é afinal que eu quero: um quarto mobiliado, um umbral de porta, ou uma rua, o vento soprando?  Depender de coisas e pessoas, estar sujeito às circunstâncias, desejar avidamente evitar a miséria particular da independência. Conhecer as diferenças do que se sente nesse momento da vida, nadar na praia e subitamente perceber que tudo passou de dor para prazer, acreditar que ainda há trabalho a fazer, algo a fazer.