ensaio

Em Julho de

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on julho 15, 2013

Em Julho de 2013 decidi voltar a escrever posts aqui: poucos, como sempre foi, e com minha pausa habitual, pois não sei de outro jeito, só tenho esse jeito, lamentavelmente. Queria continuar o que comecei no último post: escrever sobre os bastidores do trabalho de resenhista – escrever sobre o que poderia ser pedantemente descrito como a poética de um gênero menor ou, com menos pedantismo e, provavelmente, mais felicidade, sobre o caminho entre o desejo de escrever sobre um livro, a demanda do jornal, a leitura do material e o que enfim é publicado como resenha. Isso me interessa por várias razões – há meu trabalho como professor, que sempre passa por aí, por algo da ordem do processo de fatura de textos que comentam matéria literária; há a celebração de um momento menor e quase sempre privado ou de pouca audiência, que está acontecendo o tempo todo, ruído branco na comoção geralmente histriônica do campo literário; há meu interesse por coisas fudidas pras quais pouca gente presta atenção. Dessa vez, ia comentar a última resenha que publiquei, e como o resultado nada revela – e, na verdade, veta – o monte de peripécias em torno dessa publicação. Ia falar sobre como descobri a autora e como a expressão “Estudando Lydia Davis” virou uma piada doméstica; falar como fiquei satisfeito ao saber da tradução, e como aporrinhei o pessoal do jornal para que pudesse resenhar. Depois, introduzindo alguma quebra no texto, ia contar como o prazo final pra resenha me pegou na nossa grande quinzena das manifestações, e como tudo se atrapalhou, todas as vontades e planos e direcionamentos cotidianos, e terminei pedindo adiamento ao editor, e enfim produzindo a resenha de uma sentada, no último momento do último dia de prazo que eu tinha. Falaria, concluindo, como essa pressão particular provocou certo tipo de relaxamento e esquecimento, que talvez tenha se traduzido em um texto mais arejado; comentaria como o texto muito lido e conhecido se incrusta na memória, e na exigência do comentário se transforma em outra coisa, uma espécie de fruição às avessas; falaria que, ao terminar a resenha, pensei em comentar o caso com os alunos, aludindo à conexão, nesse trabalho, entre cumprimento de prazo e reputação, e falando das moedas morais que correm no campo literário (e isso, pelo menos, terminei fazendo mesmo).

Imagem

Tudo falido, pois sobre nada disso consegui escrever. Até tirei foto das fichas que usei na resenha, pensando em reiterar um comentário que vivo fazendo sobre as etapas da fatura e a fatura da anotação, mas mesmo com esse tipo de gracejo a la Barthes a coisa se provou demasiado lisa, volátil, chata, e capitulei. E depois, lendo, me interrompi voltando ao problema da razão do não escrever. De onde vem a dificuldade?, pensei. Lembrei de blogs como os do K e o do Monte: mil diferenças entre os dois, mas em ambos o exercício do muito, não apenas ler muito mas muito escrever sobre o lido, quase diariamente um post, mais um texto feito, algo dito. Mesmo o Ad Man, que tanto admiro, e que trabalha numa cadência mais esporádica: não dou conta.

Eu naufrago nessa abundância: não tenho, nunca tive tanta força, nem tanto desejo de escrever e de dizer – e aí talvez seja o caso de pensar que força e desejo são sinônimos. Escrever me dá um trabalho do cão – ou então escrevo algo que sequer tem valor para mim, que sou o juiz mais laxista de mim mesmo (que saco cheio de autores elogiando seu altíssimo crivo crítico: você é sempre, necessariamente, o pior juiz do que escreve, o mais incompetente de todos, o ridículo-mor). Preciso de muito desejo pra escrever, pensei. E o que fazer quando não encontro esse desejo? Ou o que fazer quando, malgrado o desejo, o texto se cancela, e infelicita, a cada passo – pois todo texto aparece in media res, e sua vida está a caminho, paralela e incidental, mas o texto é também seu trabalho, e nesse seu trabalho se depositam, embaraçadas, sua reputação, sua vaidade, seu juízo de valor e excelência. No meio da frase que eu queria formular e não produzi está a força da falência do que ela nunca iria conseguir dizer – está também a minha filha doente, meus problemas de dinheiro, meus pseudo-amigos vermes, o reaparecimento do autor-pateta que há anos me escreveu mensagens risíveis por uma resenha ruim que publiquei de um livro dele, os trezentos outros planos que me carregam para mais e mais textos que vou escrever, que não vou escrever, até, é claro, de um jeito ou de outro, morrer. Pensei naquela frase que atribuem a Foucault, “Como faremos para desaparecer?” Não há problema, pensei, Isso tá garantidoNão vou escrever mais nada. 

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Exercícios de Crítica Literária Contemporânea

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 5, 2011

1.

O comentário biográfico incide reiteradamente sobre dois processos em Henry James.

Um, é seu tartamudear: não é de forma alguma uma gagueira, mas uma enunciação hesitante e tateante que o persegue desde muito cedo. Não há gravações de James, mas podemos imaginar a sequência de Well… Uhm… I mean… So… etc

Outro é o uso que faz de um amanuense: por volta dos 50 anos, James começa a manifestar os sintomas do que hoje é a conhecida Síndrome do Túnel do Carpo e, como uma resolução para seu sofrimento cotidiano, contrata um copista. É possível imaginá-lo, a partir desse momento, alterando sua rotina de trabalho, e incorporando ao seu processo composicional um deambular pela sala, um ir e vir que ocorre em paralelo à enunciação enquanto o copista, silencioso, oculto, atento, copia.

Estabeleça um paralelo entre os incidentes citados e as peculiaridades do discurso indireto livre na obra tardia de James, com particular atenção a The Golden Bowl.

2.

Em 1942, Bowles se mudou para um apartamento na 14th St com a 7th Ave. O ocupante anterior tinha sido Duchamp e, assim, eles se conheceram.

Improvise.

3. 

É conhecida a afirmação de Piglia: A critica é uma das formas modernas da autobiografia. Um sujeito escreve sua vida quando crê estar escrevendo suas leituras.

Disserte sobre o tema, considerando as manifestações em A, B, e C.

I am Assange

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on dezembro 9, 2010

Muitos vão duvidar, assim como eu duvido agora de mim mesmo, mas vou mencionar Saramago laudatoriamente, utilizá-lo e, com isso, enviar meus leitores à leitura dele. O que, convenhamos, não é de todo mau.

O caso está em A Jangada de Pedra, que foi o primeiro livro dele que li, em um verão bem distante, quando ainda dividia apartamento com Dick Noir, e que li por recomendação dele. O mote do livro, sabemos, é que a península ibérica se descola do resto do continente – fica aí, uma massa de terra, o que se faz com ela, aterrorizando o Atlântico, solta. Há um belo momento, quando a ficha cai, os Europeus se apercebem do que está em jogo com a península à deriva e, como sempre, nas engajadas universidades parisienses começam a dizer Eu também sou Ibérico. O que, entendi, queria dizer Eu também sou Outro, ou Sem o Outro não sou eu – algo dessa ordem. É lindo, é uma apoteose, um florescimento. Se esgarça, obviamente, o livro tem outros destinos, o Autor deseja, nesse caso creio que desgraçadamente, muito mais. Mas é uma onda, é emocionante, e também diz algo, pois o incidente está repleto daquilo que faz com que ainda hoje falemos “Maio de 68” – há aí coisas ditas, coisas feitas, e fermento imaginário e conversacional fazendo o evento crescer e se sedimentar como um fato que sempre ultrapassa o slogan que, supostamente, o define.

Para comentar e situar o caso específico do Wikileaks e da prisão de Assange, não poderia fazer nada melhor que o Avelar já fez aqui – como sempre com a bala na agulha, ele organiza o incidente em uma narrativa, faz do bruhahá um fio na trama do presente, e com isso nos ajuda a produzir sentido e encontrar um lugar na narrativa também. Um lugar que pode ser esse, de dizer Eu sou Assange, Eu  também sou Assange. Isso, em meu caso, quer dizer que não tive a vida aventuresca e heróica que ele teve e tem, e que não estou na berlinda como ele está – mas que há algo de empatia entre o que eu julgo justo e bonito fazer e o que ele passa a ser quando, a respeito dele, podemos dizer coisas assim. E Herói é pra isso mesmo.

Crítica literária 2.0

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on setembro 3, 2010

Costuma se sentir afortunado, e isso por inúmeras razões, uma delas sendo inclusive porque a disposição da sorte como um fator operativo no processo bloqueia uma sequencia causal mais estrita, reducionista e rudimentar, que colocaria no centro do palco noções de competência e excelência, e isso não seria bom para ninguém.

Em particular no que diz respeito à literatura, a fortuna efetivamente lhe sorriu, pois não sabe como seria viver disso. Poderia, claro, ser jornalista e trabalhar com literatura, tem amigos que fazem isso e não vivem debaixo da ponte. Mas sobrevive com risco reduzido, em seu trabalho de professor e pesquisador em uma universidade pública, o que nesse país significa que seu emprego é mais ou menos estável e, embora atravessado por complicações sem conta, umas estruturais e sérias e mil e uma espúrias e risíveis, lhe dá conforto, alguma satisfação, e a oportunidade de se sentir, algo romanescamente – e quem vive sem ficção que atire a primeira pedra – menos vítima da máquina do mundo.

Ou seja: não vive “de literatura”, e de fato não faz a menor idéia do que poderia ser isso. Teme perguntar isso aos autores que conhece, embora já faça anotações sobre o tema há meses, embora deseje escrever a respeito. Profissão: Autor – o que pode ser isso? Inquirido na escola sobre a profissão da mãe, um garotinho responde Minha mãe é autora, ficcionista. O que pode ser isso? Sabe, por relações de maior proximidade, que um determinado Autor vive bem, pelas benesses da família e por um trabalho colateral na mídia; outro tem uma competência muito específica que o torna buscado para trabalhar em campanhas políticas, e dessa operação sazonal tira seu sustento; outra trabalha como tradutora, outro vive perigosamente – todos ganham alguma coisa de direitos autorais. Apesar do desejo de saber, tem vergonha de sair perguntando, e isso porque há um embaraço no negócio de extrair o sustento do literário: é, obviamente, um trabalho, um negócio, mas sua especificidade tem algo de esquivo. Esse componente fugidio não tem a ver, necessariamente, com sua condição de “arte”. Mesmo se visto de maneira mais operacional, como artesania, fruto de empenho sistemático e resultado de prática deliberada, ainda assim a coisa se complica na circulação de papéis, expectativas, performances, valores, o diabo.

O que publica de resenhas no jornal depende de um relacionamento com um grupo pequeno de jornalistas, desde sempre marcado por gentileza e urbanidade: eles o solicitam, ele os solicita, negociam prazos e possibilidades, e assim a coisa vai tipo meio a meio, com ele criando demandas para resenhar livros de autores que já lê e admira e sobre os quais já pesquisou e escreveu e também recebendo demandas para comentar autores que talvez não lesse não fosse o imperativo da resenha. Não tendo de se sustentar com o que recebe por esses trabalhos, o que ganha vira uma espécie de bônus de bom comportamento,  um prêmio para o Funcionário do Mês que, via de regra, é vertido na aquisição de outros livros que, por fim, verá que não tem mais tempo para ler. Pois há os textos dos alunos, que tem de ser prioritários, e há os mil textos próprios do restante do ofício – atas, relatórios, projetos, prestações de contas, planos de curso, avaliações, pareceres. Há sua pesquisa, sobre a produção ensaística contemporânea, que lhe consome, tem lhe consumido muito tempo, vai lhe consumir mais tempo ainda; há o projeto de uma biografia de Juan José Saer, ainda em seu embrião, que não deseja que morra no nascedouro. Há mil e um planos, e todos custam leitura, leitura, leitura, e esse é só o começo da conversa.

Lembra de quando estava no mestrado, chegando cedo na biblioteca vazia, cumprimentando as bibliotecárias e se deixando enlevar por uma ou outra leitora compenetrada, gastando horas na leitura de números velhos do NYRB, em um uso quase injustificável do tempo que deveria estar investindo em leituras para a dissertação. Obrigação e diversão, concentração e digressão, maldita economia. Nunca seria um comentador de literatura hoje sem aquelas manhãs, sem aquela lentidão, sem aquele desajuste temporal e procedimental com sua circunstância e com seus colegas que, mais ciosos da própria carreira e talvez melhor orientados, avançavam em linha reta, como demônios.

Lembra, no caos de papéis em cima da mesa, debaixo das mil obrigações de papel, na hora de decidir o que levar para a praia, de um momento de A Mulher do Tenente Francês no qual o narrador diz algo como É isso que costuma acontecer, não estranhe: as pessoas somem de vista, tragadas pelas sombras das coisas mais próximas. Lembra do vaticínio de ML no decálogo que ele vem elaborando com óbvio gosto há tempos, publicando e republicando, como se fosse um manifesto: não gosta do tom délfico, da empáfia (“Dez mandamentos? Caralho…”), da unilateralidade do negócio produzido em torno da anomalia (o caso Parker). Mas, independente de tudo que é da ordem do gosto, lê verdades ali, e lê com particular melancolia o momento em que Laub diz que

Você lerá só por obrigação. Nunca mais irá atrás de um livro indicado por um amigo. Nunca mais fechará um livro com a sensação de que, para o bem ou para o mal, e isso é quase regra para leitores mais experientes, não há o que dizer sobre ele.

Há algo aí, há um aprendizado aí – como também há no entusiasmo do AdMan quando começou a receber livros “espontaneamente“, que começaram a brotar em sua caixa de correio sem demanda, indicativo de um reposicionamento no campo, sem dúvida marcador de prestígio e de progresso. Há vaidade, há a sensação de reconhecimento e recompensa – há ganho sim. Mas o que fazer com o rapaz que lia por horas a fio aqueles exemplares velhos do NYRB e o Folhetim da Folha e pensava que queria aquilo pra si?  O que fazer com o rapaz que, fumando muito, se preocupava com dinheiro para mais cigarros assim que acabasse o maço e, com ele, o livro de Perec que seu amigo lhe emprestou? Uns jornais velhos e amarelados, o cinzeiro cheio, uma poltrona herdada e perdida, e uma pessoa que não existe mais e, claro, não tem mais nada a dizer.

Blogologia – 1

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on junho 2, 2010

Como já comentei aqui antes, este blog busca se aproximar de outros, que servem de modelos com relação aos quais meço meu sucesso relativo aqui. Claro, isso deve ser tomado cum grano salis – isso não é uma corrida de cavalos, e efetivamente estou apenas falando, de um jeito que julgo mais acertado, desse negócio que vai por aí chamado de “inspiração”. Se escrevo esse blog é porque, antes, li outros – e, tendo lido, quis escrever também, participar da conversação desse jeito particular que se configura quando você escreve. Sei que muitos de meus alunos ficarão horrorizados ao se defrontar mais uma vez com esse pronunciamento, mas é o tipo da Verdade que clama por enunciação desde o Início dos Tempos: a gente lê primeiro e depois, eventualmente, escreve. Isso, que está sendo escrito aqui, segue essa cadeia causal, assim como tudo o mais que já escrevi e provavelmente que escreverei.

Assim, vejam aqui algumas fontes deste blog:

1. Il Miglior Fabbro. DP, Mojo-man, escreveu por um tempo o melhor blog que li, o que mais curti ler: eu dava aulas de Inglês em horários ridículos, encarava todo tipo de problemas de um professor subalterno, que ao mesmo tempo era um profissional em formação – mas eu sempre encontrava algum tipo de consolação boeciana nos textos desse senhor. Hj o blog é um finado, mas pode-se ver pelos fósseis espalhados na web que o material era fino. Depois houve uma outra investida, no esquema dos Amores Expressos – e mais uma vez DP se notabilizou e distinguiu. The motherfucker just can’t help it.

2. O Amigo. Maurício Raposo foi um dos poucos amigos que fiz na época do mestrado; depois que paramos de nos ver e falar – e isso durou anos, viagens minhas, viagens dele, casamentos meus, casamentos dele – só sabia dele por seu blog. Que era sempre bom, que tinha uma pegada fenomenal, que parecia ser movido por um pathos todo particular que eu teria de renascer pra encarnar. Um dia pensei isso mesmo: que só com uma biografia como a dele se escrevem coisas como essa, ou essa, ou esse projeto de pastiche de Eça. Às vezes penso que em minha hora final lembrarei dele, com sua calça de moleton às avessas, sua barba por fazer, suas fitas de Neubaten, seus cigarros amassados, sua voz molenga de ex-carioca. Direi, com muita dificuldade, Raposão… e ele, em silêncio total, sem nenhuma hesitação, acenderá um Marlboro e o colocará entre meus dedos, trêmulos e marcados de velhice e leitura, como os dele. Acenderá um pra ele também e começará a recitar, em Alemão, aquela passagem dos Tagebuchen de Kafka que eu tanto gosto. Amigo é pra essas coisas, também.

3. Gringos acadêmicos. Modelos de excelência impressionantes – como esses caras conseguem? como produzem tempo, e disponibilidade, para encarar essas caixas de comentários voluptuosas? enigmas. Destaco três, com considerável variedade: o superprofissa Michael Berubé (veja esse post aqui, observe a sagacidade no uso dos links, a condução esperta de um argumento complexo, mas exposto com tranquilidade, passo a passo), o brasileiro-cum-cajun Idelber Avelar (que deu um tempo no blog, e isso já faz um bom tempo – mas como ele escrevia: veja aqui uma página qualquer, que não escolhi por ser especial para mim por alguma razão, mas justo por revelar o que era a ordem do dia quando o blog funcionava: vai do conflito entre Israel e Palestina até Cássia Eller, do importante ao trivial, do legal ao brega), e esse anônimo blogueiro que descobri graças ao DP (veja que manifestações magníficas essa e essa aqui – observe como o segundo é uma cápsula de etnografia da literatura contemporânea, ou das práticas que fazem isso que chamamos de “campo literário”). Diante desses, só me resta dizer Porra.

E vejam que nem mencionei o Kelvin, ou o Douglas, ou o Xerxenesky, ou esse negócio muito impressionante que o Berna vem fazendo quietinho, há anos, ou ainda esse projeto de comunidade imaginada dos Mesquita Bros & Co. E há mais, muito mais: ruim, bom, razoável, sofrível, risível, constrangedor. O negócio é abundante, e o problema não é – provavelmente nunca é – a escassez de recursos.  E qual é, então, o problema?, você se pergunta. E eu, que sou de poucas perguntas, tomo emprestado essa sua e pergunto a Adorno, na praia.

Opoyaz, ganha-pão

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on junho 2, 2010

Eis que Kelvin aparece com mais dois posts muito bons, aqui e aqui. Ele está falando de coisas em meu terreno – que é também, em certa medida, o dele. Em que pesem todas as diferenças geracionais e estilísticas, ler, falar e escrever sobre Saer, Piglia, e mesmo Aira é parte do que põe o pão na mesa pra nós dois – nós dois participamos dessa fortuna.

Falei pra um amigo outro dia, Esses blogs são minha Opoyaz. Claro: uma Opoyaz ralé, pós-pós-tudo, cheia de Pro-Ams, sem tanta solidificação quanto sua matriz e inspiradora involuntária, sem manifesto, provavelmente mais apta a acolher diferença e vacilação que a versão anterior, privada de gênios. Mas é um coletivo que mantém uma rotina de conversações e barganhas que nutre as produções de cada um; com sua particularidade faz uma coisa que, independente de qualquer telos desejado ou projetado, é vida literária no século XXI.

Por exemplo: há alguns dias, o assim-chamado Andreis Passarinho publicou em seu blog uma análise sinóptica do trabalho de Bernardo Carvalho. É um post de umas mil palavras, mais de seis mil caracteres: é bem mais do que tenho quando escrevo pro jornal. Salvo engano, aí está ele a usar seu blog para fazer um negócio que, na falta de melhor palavra, é crítica literária. Observem que o crítico anota a obra, se posiciona, exibe o comentário na esfera pública – se isso ainda não é crítica, não sei o que é, e vou me poupar de brandir Terry Eagleton por hora.

Postei em uma comunidade do Orkut que modero um comentário sobre o texto do Andreis; disse:

Eu concordo e discordo ao mesmo tempo com quase tudo! O básico é que os aspectos que o crítico usa para malhar são para mim sinal de excelência: acho que BC se esforçou bastante para produzir dois grandes livros – o Nove Noites e o Sol se põe em São Paulo – e agora está iniciando um outro negócio, que vamos ver no que vai dar.

Eu teria, terei muito mais a falar sobre BC – como vcs ja sabem. Já escrevi sobre o cara, e não tenho problema em dizer que o “estudo”, que o que ele faz é incorporado por mim a parte de meu trabalho tb. Mas, antes de meter minha colher, queria ver o que vcs acham do post aí. O que vcs acham?

E, em questão de horas, li que o Diego Giesel pensava que

AM, quando o Andreis falou sobre o Vida modo de usar eu pensei a mesma coisa. Concordo e discordo.

E que o Refrator de Curvelo, por sua vez, achava que

Não. Eu tendo a concordar. Estou mesmo incomodado com as coisas que o Andreis escreveu. E não se enganem. Defendi, com relativo sucesso, nosso Bernardo Carvalho em algumas situações e tenho o sujeito como um baita artesão de letras que, inclusive, me causa inveja. É bom ter por aí alguém que sabe o que está fazendo. Mas falta algo.

Não gosto, contudo, de pensar que a responsabilidade do que falta é do Bernardo Carvalho. Esta é uma perspectiva crítica desmobilizadora, e muito cínica. Falta que os sujeitos que tenha coragem para errar consigam fazer isso com competência, e não com a cara cheia de pó ou coisa parecida. Que BC é um engenheiro, isso é. Que faz transplantes narrativos (coisa que o Andrei não fala, mas me salta aos olhos; é fácil encontrar Perec em “Teatro”; Bernhard em “As iniciais”; Chatwin em “Nove noites” – e encontrar eu digo encontrar, mesmo, como se fosse para tomar um chazinho ou encher a cara), também está lá. E faz bem, com maestria. O que está faltando é o resto que Bernardo Carvalho não é. Inclusive, ele não é outras pessoas. E isso, hoje, não temos. Outras pessoas.

C´est ça.

E já o Leandro disse

Eu também concordo e discordo ao mesmo tempo com quase tudo. Nove Noites e O Filho da Mãe são dois grandes livros. AM, acho que o O Sol se põe… tem um grande defeito, de inserir uma personagem que não tem nenhuma utilidade (a irmã do protagonista no Japão). O defeito que ele vê, de alguém que trabalha sempre com as mesmas peças, pra mim é uma grande qualidade. Algo failbettter.

Há outras contribuições, mas vou abdicar de arrolar todas aqui. Agora me diga você a que vem interditar essa conversa do status de crítica. Vá lá que não é Teoria, não se trata disso  mas há, aqui, especulação e empenho da atenção no tratamento da “matéria literária”. Claro: o estado é de embrião, e precisa de mais tempo e condições para acontecer, e só eventualmente se transforma, e sai dessa coisa mais dispersa e ligeira para virar outra coisa, coagulada em um comentário mais recheado de argumentos e com a devida arrecadação de evidências e desfile de justificativas. Observe que nesses comentarinhos, que seus autores escreveram provavelmente entre uma obrigação e outra, no meio de um dia ordinário, ou se refastelando numa procastinação comezinha e culpadinha, como é por exemplo do meu feitio, há, principalmente, leitura, e conversação sobre a leitura – e sem esses dois ingredientes, nosso ganha-pão cai por terra fácil.

Esse ganha-pão é difícil, mas também bom. Pode ser executado com retidão, e pode ser feito de maneira escrotinha. Pode se beneficiar muito de uma certa obnubilação – que, se vampirizada com destreza, garantirá ao picareta um modus vivendi relativamente folgado e privilegiado, com pouca chance de desmascaramento público – e é sempre bom lembrar que a casa também faz às vezes de asilo de dementes, de inviáveis alhures que aqui encontram abrigo. Esse ganha-pão pode, enfim, trazer uma alegria no processo, um esquecimento eventual do produto que se liga a recuperações infantis, a curiosidades atiçadas ad eternum, e distribui epifanias no ordinário; mas pode ser uma faina frustrante e amarga também, uma litania do ganho pouco, do me falta, etc.  É ainda possível que, como diz Bloom, esse negócio esteja agora em sua condição crepuscular. Mas, claro, ainda não: não viveremos pra ver isso.

Opoyaz on the beach

Na praia com Sylvia Plath

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 21, 2010

1. Sloterdjik/ Zizek. Um dia fui numa conferência do Zizek. Uma anomalia: um domingo ensolarado, um centro de cultura alemã, Zizek com duas rodelas imensas de suor debaixo do sovaco de uma camisa com um desenho do Mickey. Todavia, como às vezes acontece, é na morada do bizarro que encontramos a companhia amiga que mais nos é cara. Pois a meio caminho de sua exuberante e careta superinterpretação de They Live, de John Carpenter, Zizek vai e menciona mais ou menos o seguinte:

O Ocidente projeta uma imagem de si mesmo como sendo fundado na necessidade de compreender o Outro. Ora, talvez a proposta de Sloterdjik seja bem mais próxima do que é o caso. Sloterdjik diz que progresso social é criar mais e melhores condições para ignorar o Outro. Compreender dá muito trabalho, e mesmo a performance da compreensão, que ocupa tantas vezes o lugar da própria coisa, dá muito trabalho. Não quero compreender meu vizinho: quero poder ignorá-lo, e ser ignorado por ele.

Há algo duro e cínico aí, e a extensão indiscriminada desse ethos me envergonharia – claro, sou um velho nerd pós-humanista, mal e porcamente informado sobre o contemporâneo. Mas volta e meia penso nisso, nos usos disso. E em particular, penso nisso quando estou nadando. Hoje de manhã mesmo: um dia sombrio, gelado, daqui da janela nuvens carregadas. Chuva, talvez; mais certo era um dia frio, um vento cortante aqui na descida da ladeira, aquelas lufadas vindas do mar que enchem o agasalho. Nem hesitei, nem me passou pela cabeça não ir. E fui. Lá na piscina estava só, junto com dez pessoas, que salvo a mais elementar polidez (“Bom dia”, “Tá usando a prancha?”) ignorei.

2. Utilidade Pública. Projeto inovador e arrojado do camarada DP, que aparece aqui para enlevo de todos.

3. Leituras de fim de semana. Como sempre, a ganância me domina. Mas deve ser algo que inclua a) Shklovsky, A sentimental journey: Memoirs, 1917-1922 ou b) The Letters of John Cheever ou c) Carola Saavedra, Paisagem com dromedário ou d) Margulies, Rites of realism. Além disso, posso garantir que, em algum momento do fim de semana pensarei em a) Henry James (O Mestre, Pessoal, O Mestre!) b) Bolaño (2666 tá na boca do povo, e tem até concurso de resenhas no site da editora!) c) Kelvin (amigo é pra essas coisas) e d) Sylvia Plath.

Como é do conhecimento de vocês, a grande anomalia nessa lista é a presença da famosa poeta suicida. Mas observem essa foto:  imaginem uma poesia de pouca morte, de nenhum desejo de morrer, como a que nós temos quando estamos felizes o suficiente para ir à praia, e uma pessoa querida quer uma foto nossa, e nem pensamos antes de sorrir para a câmera, para o sol, para o resto do dia, para o resto dos dias.

Olavo de Carvalho, Caralho

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 19, 2010

A conexão aventura e leitura nada tem de necessariamente generalizável: pode ser ausente e inócua para muitos. Mas, para mim, está sempre em alguma medida na pauta. O regime hermenêutico que aplico em geral tende a passar por uma memória anguladora da leitura tout court, e isso, que foi construído quando era criança, significava ler Julio Verne, Emilio Salgari, Malba Tahan. Embora funcione a posteriori de um jeito que é próprio de um certo profissionalismo e do que chamamos de aprendizado, há uma força na cena primária, e a avaliação do que aconteceu entre o leitor e o livro, ao passar por essa peneira da “aventura”, termina sempre virando uma resposta que dou à pergunta Saí do lugar? Há um momento em que Perec fala da atitude do garoto que, com o livro à sua frente, parece em prontidão para o mergulho no livro: essa atitude, essa prontidão para o acontecimento, e a compatível disponibilidade para se deslocar – é disso que essa pergunta fala.

Por isso hoje, conversando com o Tiago sobre o Kelvin – que anda interessado em umas coisas demoníacas – disse Pois é, outro dia a gente tava até conversando sobre The Secret Sharer, T. Acho que ele tá numas de explorar esses temas, Outro, Alteridade, e foi até que chegou naquele lance ali do post. Ele mesmo me falou mais cedo Ah, esse post hoje eu escrevi sem entender, Tio.

“Escrevi sem entender”: achei bom isso, e fiquei um tempo pensando no que isso quer dizer – e vejam vocês que achei bom primeiro, e só depois fiquei ruminando pra fazer a derivação interpretativa que me permitiria, entre outras coisas, mencionar o post do Kelvin aqui e quem sabe até comentar sobre esse problema – a saber, como um escritor pode escrever sem entender, em certa medida, o que escreve – com meus alunos amanhã. Poderia falar também sobre a questão, que tanto tem me interessado, da construção das identidades de Autor e Crítico como negociações com o Duplo, com esse Outro representado na literatura tantas vezes como anátema, ou como nêmesis. E Tiago aproveitou a deixa e disse Ah, falando em nêmesis, olha aqui esse negócio e na hora me enviou (estávamos no gtalk) isso:  

Contar a história é o primeiro nível de elaboração da experiência. O romancista não escreve para explicar nada, mas para registrar um conjunto de experiências reais ou imaginárias cujo nexo último lhe escapa, cujo sentido ele só apreende como forma estética, não como conceito explicativo. Daí o sentimento de descoberta, e ao mesmo tempo de perplexidade, que nos assalta ao lermos um bom romance. Ele nos mostra algo de muito importante, mas que não sabemos precisamente o que seja. Por isso é que ninguém pode dizer qual “o” sentido de um romance. Ele tem necessariamente muitos, e até contraditórios. Um romance é um conjunto articulado de símbolos, e um símbolo, como ensinava Susanne K. Langer, é “uma matriz de intelecções” – não a expressão alegórica de intelecções prévias. Um romance deve dar o que pensar, não um pensamento pronto. Por isso é que homens de idéias, pensadores, ideólogos, formadores de opinião, fracassam com tanta freqüência ao escrever romances: eles falam daquilo que já entenderam, não nos dão uma experiência viva carregada de mistério, de perguntas sem resposta.

Li, e prontamente disse E o que é que tem de nêmesis aí? Eu concordo com isso. Posso caçar confusão, claro – Langer? Uma distribuição infeliz de cópulas e modais – a literatura é, a literatura deve… fala sério, né? Um tom metafísico de fundo, essas coisas – mas tem uma evocação do caralho da descoberta, da aventura, do risco, isso é bacana, em linhas gerais acho que é isso mesmo. Tem um problema epistemológico que raramente é colocado aí que acho legal também: se você retira a parte desse texto que é celebração da Metafísica da Presença, ainda tem uma coisa, e isso me parece mais significativo, que tem a ver com descoberta sem método, com saber produzido a partir de não-saber em literatura, e você sabe que eu gosto dessas coisas. Não vi nada de nêmesis. Mané.

E ele respondeu É Olavo de Carvalho, Toni.

E é isso: você nunca pode saber de onde vai aparecer o cúmplice secreto, aquele que parece com você, aquele por quem você vai se arriscar, sem saber ao certo a razão do risco, duvidando toda hora do valor do risco – mas prosseguindo mesmo assim.

Amigos, Literatura

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 14, 2010

1. Uma amiga – pessoa criteriosa, boa leitora, em cuja opinião sempre confio – me diz Antonio, o livro novo do Roth é pavoroso. Que coisa horrível. É triste ver a decadência de um autor tão bom. Ladeira abaixo total. Ouço constrangimento: é como se ela tivesse vergonha da performance manca do autor que, com razão, admira. Eu, que admiro Roth, embora o admire menos que ela, sinto empatia, me sinto próximo do sofrimento dela. Enigma indecifrável, enigma perene: como o Grande Autor faz merda? Como, no Grande Autor, a performance do amador? Onde está o circuito de comentaristas imediatos do Grande Autor para dizer que ele está fazendo merda? Sabemos que as coisas são mais complicadas, me sinto um pouco melancólico com a frustração da minha amiga, assim é a vida literária: nos esforçamos, aqui está nosso tempo e dinheiro, ambos em geral escassos, lemos, e eis que nos fudemos – mesmo com o Grande Autor.

Depois, comentando sobre esse assunto com o Kelvin no gtalk, ele me disse Isso dá um bom título para um livro de um, digamos, filho espiritual de Garcia Marquez: História da Queda de meus Autores Queridos. Muita maiúscula, capa em tons pastéis, talvez um Iberê na capa. Que tal?

2.Leandro, que também é criterioso, um bom leitor, em cuja opinião sempre confio, tem razão: o Voo da Madrugada, do formidável Sérgio Sant’Anna, é irregular. Ele me disse Olha, Antonio, todo mundo elogia o Serjão, você vive evangelizando, falando pra ler o Voo e tal. Mas é o seguinte: aquilo ali parece um livro em que ele passou a mão na gaveta, reuniu uns trocados e mandou publicar. Tem ótimos contos, o do título é um deles, mas tem uma novela meio remendada – O Gorila, que é engraçadinha, mas parece que chegou uma hora que ele deu uma esticadinha e faltou cortar, e ainda tem um ensaio publicado na Bravo!, que li de novo agora dentro do livro e que me pareceu deslocado no volume. E que é bom, é bom – mas fiquei pensando O que é que isso tá fazendo aqui? Olhando as partes, parece bom, mas a soma, pra mim, resultou num livro ruim.

Ouvi isso e pensei, claro, o que qualquer pessoa em minha situação pensaria: Porra, Leandro. Não tenho argumentos – acho o livro excelente, e talvez varra pra debaixo do tapete o que ele salienta porque, vai saber – porque amor é isso, porque leio Sérgio Sant’Anna desde a época em que ele publicava na Status, vai saber. Quando fui lidando de maneira mais exploratória e sistemática com as possibilidades da narrativa curta contemporânea, muitas vezes tinha a impressão de já ter visto aquilo antes – em contos do Sérgio Sant’Anna. Coover? Barthelme? Carver? Parece que, à sua maneira, Serjão já estava lá quando encontrei todos esses autores – e talvez fosse o caso mesmo de avaliar a exposição a certos autores, tradições e possibilidades quando de sua estadia lá na Iowa Workshop: já vejo o título da dissertação: Inflexões, Influências, Procedimentos: Sérgio Sant’Anna na Iowa writers’ workshop, 1969-1970. Mas, só pra gente retornar aqui ao assunto à mão, disse, claro, como dizia antes, Porra, Leandro e disse também, Tá, você tem razão, mas você também tá pedindo demais, demais mesmo. Olha, pensa aí: troco o Conto Obscuro pelas Obras Completas do Paulo Scott, que tal? Tá vendo como eu tô caridoso? Tô saindo perdendo nessa barganha, broder! E ele, claro, riu.

3. O Diego me escreveu um email dizendo, entre outras coisas, que está lendo o Submundo, de Sua Santidade Don DeLillo – eu nem respondi, estou respondendo agora. Não consigo compreender porque meus alunos não aparecem na aula portanto volumes de Don DeLillo – porque dentre tantos alunos que tenho que são obviamente alunos de Letras frustrados e miserabilizados com sua própria incompetência para passar no vestibular para Comunicação, nenhum se dá conta de que há tesouros à sua disposição entre as páginas de um livro de DeLillo, e talvez uma vida menos amarga e menos desencantada adiante. Não vejo a hora de ocupar o púlpito de uma sala de aula ou de um salão de conferência para fazer uma homilia daquele momento em que um personagem em Os Nomes diz “Se eu fosse um escritor, que maravilha seria se me dissessem que o romance está morto. Imaginem que alegria, quanta liberdade, poder trabalhar nas margens, sem a opressão de uma presença central: eu ia ser uma assombração da literatura, que bom”.

Meu volume de Submundo é essa tradução brasileira, do PHB – eu já estava com o livro na mão há um tempão e um dia, em outro lugar (mas onde? não faço a menor idéia) li “Pafko at the Wall” e pensei Porra. Outro dia mesmo comentei aqui, aludindo ao filme da Martel, os diálogos a la DeLillo. Isso deve ser lido assim: “diálogos do caralho”, diálogos que são o bicho”, “diálogos fenomenais”, “diálogos que redescrevem a concepção de diálogo”, “diálogos que são o diabo para quem quer escrever e os lê”. Não sei mais se foi o Rúpia que me deu o livro de presente, ou se simplesmente pedi o livro emprestado e me apossei (de qualquer sorte, obrigado, amigo). Sei que passei uns quinze dias com ele na mão, era na época em que a Lu morava longe e eu andava pra lá e pra cá como um caixeiro-viajante; o livro é um tijolo, é ofensivo um livro daquele tamanho pra quem viaja. Mas isso dá ainda mais razão para meu orgulho ao ver a lombada torta na estante, o livro virado do avesso na leitura, as páginas cheias de sublinhados e grifos e anotações: eu achava que ia escrever algo sobre o livro mas, ao invés, e talvez com mais proveito para todos os envolvidos, só usei o livro para aprender a ler.

Shields, Coetzee

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 13, 2010

Pela primeira vez em muito tempo, pude terminar uma resenha, deixar descansando dois dias, e reler, e revisar, e alterar umas coisinhas antes de enviar: que coisa mais refrescante e feliz. Semana que vem estará lá, no caderno, e será outra alegria.

Ano passado, em Setembro mais ou menos, liguei para minha mãe e ela disse Chegou um livro aqui pra você. Dias depois, quando fui lá, qual não foi minha surpresa ao encontrar Summertime, de Coetzee: junto, nenhuma explicação, só uma nota de envio com informações de almoxarife, na qual estava escrito à mão “Review copy”. Não eram as provas do livro, era o livro mesmo, capa dura e tudo – não faço a menor idéia de quem foi o responsável por isso, e sei que há uma cadeia de relações e indicações por trás de algo assim; o fato de terem enviado para a casa de minha mãe indica que tinham um endereço antigo meu, mas e daí? Por mais que pensasse continuava ao léu – mas, é claro, muito feliz, com o livro na mão.

Comentei isso com o Kelvin, e ele me disse Não vejo a hora de isso acontecer comigo também, Tio. Ele estava, mais uma vez, coberto de razão (isso é um puta non sequitur, mas é também verdade): eu também durante muitos anos desejei que isso acontecesse comigo, desejei ser surpreendido por livros chegando em minha casa inadvertidamente. Claro: como todos os desejos, este, quando se realizou, acompanhou a forma que lhe é própria, agregando mil sedimentos à sua casca em uma deriva peculiar entre a formulação imaginária e a coisa batendo à sua porta, obviamente uma forma incompatível com aquela, sempre pálida, mansa e unilateral, com a qual aparece pela primeira vez. Assim, os livros chegam, e são muitos, e muitos sem ter necessitado de minha agência de maneira alguma. Mas uma surpresa como essa, receber o livro de Coetzee recém saído do forno – isso é raro sim, e é bom sim, e eu desejei muito ocorrências como essa em minha vida. É um pouco como as “impossible good news” que Chesterton mencionava, e que minha irmã tanto preza.

O livro é formidável, e senti muita alegria ao terminar essa resenha – não só por ter conseguido revisá-la e fazer um texto que, creio, não insulta o texto que o motiva, mas porque tem um trabalho do cão por trás da coisa toda, desde as conexões misteriosas entre meu nome e o de alguém, alhures, que houve por bem me enviar o livro, até a leitura do livro, cheia de momentos muito pungentes, que comentei com o Tiago e com o Leandro e, também, claro, com o Kelvin, passando pelo post que escrevi na época em que li o livro, até chegar ao texto, esse, que acabei de terminar.

Assim que terminei, coloquei Loveless pra ouvir. Talvez, penso agora, tenha escolhido esse disco porque ele parece aquela obra que silencia seu autor: o que fazer depois disso, o que produzir mais, o que produzir ainda? O que será que Coetzee ainda escreverá, o que vem dali, o que virá, como eu lerei, quem lerá? Responder essas coisas é como querer desvendar o paradeiro de velhos amigos, aqueles com com os quais eu tomava cerveja e falava de Kevin Shields no fim da noite em verões passados, todos longe agora, remotos como o tempo em que eu era um cara que desejava receber em casa inadvertidamente livros para ler e comentar e não fazia a menor idéia dos livros que leria assim, do que viria junto com os livros, do que virá.