ensaio

Blogologia – 1

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on junho 2, 2010

Como já comentei aqui antes, este blog busca se aproximar de outros, que servem de modelos com relação aos quais meço meu sucesso relativo aqui. Claro, isso deve ser tomado cum grano salis – isso não é uma corrida de cavalos, e efetivamente estou apenas falando, de um jeito que julgo mais acertado, desse negócio que vai por aí chamado de “inspiração”. Se escrevo esse blog é porque, antes, li outros – e, tendo lido, quis escrever também, participar da conversação desse jeito particular que se configura quando você escreve. Sei que muitos de meus alunos ficarão horrorizados ao se defrontar mais uma vez com esse pronunciamento, mas é o tipo da Verdade que clama por enunciação desde o Início dos Tempos: a gente lê primeiro e depois, eventualmente, escreve. Isso, que está sendo escrito aqui, segue essa cadeia causal, assim como tudo o mais que já escrevi e provavelmente que escreverei.

Assim, vejam aqui algumas fontes deste blog:

1. Il Miglior Fabbro. DP, Mojo-man, escreveu por um tempo o melhor blog que li, o que mais curti ler: eu dava aulas de Inglês em horários ridículos, encarava todo tipo de problemas de um professor subalterno, que ao mesmo tempo era um profissional em formação – mas eu sempre encontrava algum tipo de consolação boeciana nos textos desse senhor. Hj o blog é um finado, mas pode-se ver pelos fósseis espalhados na web que o material era fino. Depois houve uma outra investida, no esquema dos Amores Expressos – e mais uma vez DP se notabilizou e distinguiu. The motherfucker just can’t help it.

2. O Amigo. Maurício Raposo foi um dos poucos amigos que fiz na época do mestrado; depois que paramos de nos ver e falar – e isso durou anos, viagens minhas, viagens dele, casamentos meus, casamentos dele – só sabia dele por seu blog. Que era sempre bom, que tinha uma pegada fenomenal, que parecia ser movido por um pathos todo particular que eu teria de renascer pra encarnar. Um dia pensei isso mesmo: que só com uma biografia como a dele se escrevem coisas como essa, ou essa, ou esse projeto de pastiche de Eça. Às vezes penso que em minha hora final lembrarei dele, com sua calça de moleton às avessas, sua barba por fazer, suas fitas de Neubaten, seus cigarros amassados, sua voz molenga de ex-carioca. Direi, com muita dificuldade, Raposão… e ele, em silêncio total, sem nenhuma hesitação, acenderá um Marlboro e o colocará entre meus dedos, trêmulos e marcados de velhice e leitura, como os dele. Acenderá um pra ele também e começará a recitar, em Alemão, aquela passagem dos Tagebuchen de Kafka que eu tanto gosto. Amigo é pra essas coisas, também.

3. Gringos acadêmicos. Modelos de excelência impressionantes – como esses caras conseguem? como produzem tempo, e disponibilidade, para encarar essas caixas de comentários voluptuosas? enigmas. Destaco três, com considerável variedade: o superprofissa Michael Berubé (veja esse post aqui, observe a sagacidade no uso dos links, a condução esperta de um argumento complexo, mas exposto com tranquilidade, passo a passo), o brasileiro-cum-cajun Idelber Avelar (que deu um tempo no blog, e isso já faz um bom tempo – mas como ele escrevia: veja aqui uma página qualquer, que não escolhi por ser especial para mim por alguma razão, mas justo por revelar o que era a ordem do dia quando o blog funcionava: vai do conflito entre Israel e Palestina até Cássia Eller, do importante ao trivial, do legal ao brega), e esse anônimo blogueiro que descobri graças ao DP (veja que manifestações magníficas essa e essa aqui – observe como o segundo é uma cápsula de etnografia da literatura contemporânea, ou das práticas que fazem isso que chamamos de “campo literário”). Diante desses, só me resta dizer Porra.

E vejam que nem mencionei o Kelvin, ou o Douglas, ou o Xerxenesky, ou esse negócio muito impressionante que o Berna vem fazendo quietinho, há anos, ou ainda esse projeto de comunidade imaginada dos Mesquita Bros & Co. E há mais, muito mais: ruim, bom, razoável, sofrível, risível, constrangedor. O negócio é abundante, e o problema não é – provavelmente nunca é – a escassez de recursos.  E qual é, então, o problema?, você se pergunta. E eu, que sou de poucas perguntas, tomo emprestado essa sua e pergunto a Adorno, na praia.

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Na praia com Sylvia Plath

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 21, 2010

1. Sloterdjik/ Zizek. Um dia fui numa conferência do Zizek. Uma anomalia: um domingo ensolarado, um centro de cultura alemã, Zizek com duas rodelas imensas de suor debaixo do sovaco de uma camisa com um desenho do Mickey. Todavia, como às vezes acontece, é na morada do bizarro que encontramos a companhia amiga que mais nos é cara. Pois a meio caminho de sua exuberante e careta superinterpretação de They Live, de John Carpenter, Zizek vai e menciona mais ou menos o seguinte:

O Ocidente projeta uma imagem de si mesmo como sendo fundado na necessidade de compreender o Outro. Ora, talvez a proposta de Sloterdjik seja bem mais próxima do que é o caso. Sloterdjik diz que progresso social é criar mais e melhores condições para ignorar o Outro. Compreender dá muito trabalho, e mesmo a performance da compreensão, que ocupa tantas vezes o lugar da própria coisa, dá muito trabalho. Não quero compreender meu vizinho: quero poder ignorá-lo, e ser ignorado por ele.

Há algo duro e cínico aí, e a extensão indiscriminada desse ethos me envergonharia – claro, sou um velho nerd pós-humanista, mal e porcamente informado sobre o contemporâneo. Mas volta e meia penso nisso, nos usos disso. E em particular, penso nisso quando estou nadando. Hoje de manhã mesmo: um dia sombrio, gelado, daqui da janela nuvens carregadas. Chuva, talvez; mais certo era um dia frio, um vento cortante aqui na descida da ladeira, aquelas lufadas vindas do mar que enchem o agasalho. Nem hesitei, nem me passou pela cabeça não ir. E fui. Lá na piscina estava só, junto com dez pessoas, que salvo a mais elementar polidez (“Bom dia”, “Tá usando a prancha?”) ignorei.

2. Utilidade Pública. Projeto inovador e arrojado do camarada DP, que aparece aqui para enlevo de todos.

3. Leituras de fim de semana. Como sempre, a ganância me domina. Mas deve ser algo que inclua a) Shklovsky, A sentimental journey: Memoirs, 1917-1922 ou b) The Letters of John Cheever ou c) Carola Saavedra, Paisagem com dromedário ou d) Margulies, Rites of realism. Além disso, posso garantir que, em algum momento do fim de semana pensarei em a) Henry James (O Mestre, Pessoal, O Mestre!) b) Bolaño (2666 tá na boca do povo, e tem até concurso de resenhas no site da editora!) c) Kelvin (amigo é pra essas coisas) e d) Sylvia Plath.

Como é do conhecimento de vocês, a grande anomalia nessa lista é a presença da famosa poeta suicida. Mas observem essa foto:  imaginem uma poesia de pouca morte, de nenhum desejo de morrer, como a que nós temos quando estamos felizes o suficiente para ir à praia, e uma pessoa querida quer uma foto nossa, e nem pensamos antes de sorrir para a câmera, para o sol, para o resto do dia, para o resto dos dias.

Três notas

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on abril 3, 2010

1. Señor Daniel Pellizzari retorna à vida online, sabe-se lá por quanto tempo – é boa notícia.

1.1. Referido senhor, no twitter, indica um blog do qual nunca tinha ouvido falar.

1.1.1. Referido blog, de um acadêmico, parece com o que gostaria que este blog aqui fosse caso desse certo – significando portanto que há uma certa idéia de correção que aplico aqui, significando que este blog tem não apenas um ethos, mas também um telos.

1.1.1.1. Há mais que isso, claro: neste post, por exemplo, me sinto muito próximo do autor: apesar de todas as distâncias (pra começo de conversa, o cara ensina em Londres), seus problemas são os meus também – embora não sejam exatamente iguais, guardam uma inegável semelhança de família com coisas que me afligem e, ao tomar conhecimento dessa semelhança, me vejo devolvido a C. S. Lewis dizendo We read to know we are not alone.  É certo que lemos por mil e uma razões que não essa, mas também é certo que há uma dinâmica de identificação, uma produção de empatia que, embora às vezes de foco errático, faz da leitura isso que me traz até aqui para comentar o blog que o Pellizzari recomendou e daí derivar para mencionar C. S. Lewis. É essa mesma dinâmica que me levava, já faz um tempão, a custear os intervalos de minhas aulas de inglês com a leitura do finado blog do Pellizzari no wunderblogs. Os demais autores desse coletivo me pareciam abominações, e me impressionava ver como se jactavam com facilidade, como se compraziam de si. O que pode levar um cara a achar que é bom ser um reaça colocando pó-de-arroz nas próprias tetas em um arremedo de vir a público?, aquela versão mais naïf se perguntava. No meio dessas coisas, e no meio das hostilidades com as quais eu me deparava quase que cotidianamente, ler o blog do Pellizzari era um bálsamo e um refrigério, meu encontro com um artifício aparentemente feliz de autocriação, o lugar onde aprendi a dar o devido valor ao Fail better.

2. Li no Estadão, numas notinhas que a Raquel Cozer faz no rodapé, que o AX está deixando sua condição de mais ou menos autopublicado e mais ou menos independente para assinar contrato com a Rocco. O parabenizei, claro: é um indicador mais ou menos óbvio de reconhecimento e progresso, imagino que ele esteja feliz e celebrando. E me pergunto: o que será essa experiência? A Punk goes Pro? O que isso representa na construção da autonomia financeira, e essa autonomia o que representa na fertilização de outros trabalhos do autor, e ambas as coisas o que representam no incremento da possibilidade de divulgação do trabalho literário, em auxílio para que esse Autor tenha acesso a mais e melhores leitores?

2.1. Essas questões que me ocorreram com relação ao caso do Xerxenesky – a quem poderia perguntar essas coisas, a quem provavelmente vou perguntar essas coisas – tem a ver com um tema que me interessa e com um texto que estou fazendo (molto lento, lentissimo) sobre Como vivem os Autores.

2.1.1. Como vivem os Autores? De onde tiram os recursos para viver sua vida de Autores, com estilo de Autores, amizades de Autores, consumo de Autores? Não estou interessado nos murmúrios privados da Guilda – aos quais provavelmente não teria acesso – mas sim nos elementos que talvez pudessem ajudar a consolidar uma compreensão dessa profissão no Brasil hoje. Ou então ver se falar em “profissão” é insultar a matéria para seus praticantes – ver se é o caso de recuperar o vocabulário da “vocação”, do “chamamento”, com suas conhecidas implicações de destino, inevitabilidade, abnegação.

2.1.1.1. Tenho pensado nessas coisas e me interessado em fazer esse texto porque com uma frequência cada vez maior ouço colegas falando sobre um curso de “escrita criativa”, a ser inaugurado na universidade em que trabalho. E me pergunto.

3. A resenha mais infeliz que leio em muito tempo é essa. Não seria o caso de examinar aqui com minúcia a natureza das muitas infelicidades desse texto.  Mas talvez seja o caso de pensar sobre o bombástico parágrafo final, e sobre o que esse parágrafo, enquanto instância exemplar, pode nos dizer sobre como um Autor brasileiro contemporâneo comenta o trabalho de outro Autor brasileiro contemporâneo. Pode nos dizer algo? Há algo mais para se dizer sobre isso?