ensaio

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 13, 2013

Hoje, adoentado e melancólico, decidiu ler um trecho do Entrevistas com Brodsky.

Como descobriu esse livro? Não se lembra, mas lembra que chegou no Brodsky pelo entusiasmo de uma resenha do Diogo Mainardi. E nunca mais deixou Brodsky, ou vice-versa: todos os semestres submete os alunos a uma sessão de leitura da Canção de Boas-vindas; uma vez viu Il Miglior Fabbro lendo esse poema em uma oficina de poesia que frequentou; outra vez comentou algo com F, ambos já meio bêbados, e foram os dois trocando estrofes favoritas até que o poema se dissolvesse em riso metafísico e na poeira cósmica anunciada, que nos tragará e continuará. E hoje, sabe-se lá por qual rota, chegou no livro que, lembra, retirou de uma prateleira infeliz no Elizarte, um sebo do Rio que frequenta fielmente há mais de vinte anos, desde a primeira vez que foi ao Rio, moleque ainda. Lá estava esse livro de entrevistas, meio caído, meio mofado, muito barato.

O entrevistador, Volkov, era também um exilado, e tava numas de fazer entrevistas com exilados: Balanchine, Shostakovich, etc. Ia lá no apartamento do Brodsky, no Brooklyn, ligava um gravador, e os dois engatavam a conversa. Brodsky obviamente estava a fim de falar, e falou: conta tudo, é uma espécie de autobiografia oral, com muito toma lá dá cá e alguma correção recíproca; não parecem ser amigos, há farpas paca, mas a coisa continua. Impressiona como Brodsky tava a fim: você tem hoje a mesma idade que ele tinha quando deu essas entrevistas, pouco tempo depois ele faria uma cirurgia do coração, o seu também anda combalido. Impressiona como ele tava a fim, e você se pergunta se é a insinuação de mortalidade que o motiva, se ele já tinha escrito Canção de Boas-Vindas, se ele já tinha escrito Menos que um. 

O livro estava muito mofado, se sentia o mofo imortal e vencedor brilhando cada vez mais a cada virada de página, rumando em ondas místicas como um Minuano do Saara em direção ao nariz, uma fala cuja única tradução é a alergia.

Você coloca o livro na janela para tomar um pouco de sol: abre o livro, espalha as paginas e a sobrecapa. Volta, depois, e vira o livro, muda tudo de posição: o sol se vai e você ainda deixa o livro no vento, na janela, apoiado na tela.  A certa altura ficou virada pra você uma foto do Brodsky, careca e pançudinho, quarenta anos, muito bonito e formidável, uma vida e tanto, puta poeta, morava no Brooklyn, de vez em quando se acostava com a Sontag. Quantas calças será que ele tem? Como é seu guarda-roupa nessa época? Como ele fazia para arejar o próprio mofo?

brodsky

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Uma resposta

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  1. Nina Rizzi said, on outubro 7, 2013 at 7:51 pm

    ah, mas que delícia de blogue eu acabo de descobrir…


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