ensaio

Em Novembro de

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on janeiro 26, 2013

Em Novembro de 2012 constatei que estava perdendo a memória. Nada grave, mas era inegável, e estava alojado quase que exclusivamente na região da memória mais recente: não havia nenhum caso que envolvesse lembranças de infância perdidas, por exemplo.

Um incidente representativo do processo. Lembro que estava às voltas com a compra de livros de fotografia, e desejei lembrar de uma fotógrafa em particular. Lembrava da capa de um livro dela, de auto-retratos dela, de elementos da relação dela com os pais: ou seja, eu lembrava dela. Mas o nome me escapava, e sequer conseguia lembrar de um nome próximo.

Lembrava do curador de uma exposição que incluía o trabalho dela, um cara que escreveu textos sobre o trabalho dela – mas lembrava isso também de maneira trôpega: lembrava um nome parecido com o sobrenome do cara, mas que eu sabia não ser o próprio nome dele.

Lembrava outras coisas. Que os trabalhos, pelo menos os que eu conhecia, eram todos preto-e-branco. Que a relação da artista com os pais era complicada. Que sua produção se concentrava em poucos anos. Que morreu muito jovem. Que eu achava a bunda de uma das modelos em uma das fotos linda. Que a tensão nas fotos parecia se transformar em outra coisa cheia de uma agonia mordaz e destemida, um espectro sinistro e pouco controlável de entrega urgente a uma alteridade poluída, mas sedutora, convidativa. “Venha”, diziam as fotos. “Tome”, diziam, “Eu sei que você quer também”.

Lembrava, portanto, muita coisa, mas foi só horas depois que lembrei que era Woodman.

woodman

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Joseph Mitchell, Dad, 1992

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on fevereiro 25, 2011

Lembramos daquele comentário de Piglia: um crítico narra sua vida ao escrever sobre os livros que leu – suas leituras inscrevem um padrão de saliências específico nos textos, uma marca de identidade hermenêutica. Isso faz sentido: basta ler o blog do Zé Castello ou o do Kelvin por um mês pra perceber que há algo dessa ordem em operação – não é apenas estilo, é mais um modo de usar.

A publicação recente de uma tradução de trechos dos Diários de Cheever me fez dar atenção ao canto da estante no qual estão depositados meus livros de Cheever – Cheever estava na berlinda, vários conhecidos comentando, então pensei em Cheever de novo, fui me aproximar dele de novo, e fui pro canto da estante onde estão seus livros:

É só um amontoado de livros – mas a história do seu amontoamento é, certamente, uma biografia: o crítico também escreve sua vida nos livros que acumula, como os acumula, como os separa, organiza e controla, o que mantém, o que dissipa. Ora, tenho trabalhado como um cão ultimamente pra escrever uma biografia de Saer – mais: para dar sentido ao projeto de sentar todo dia para escrever uma biografia de Saer. Se esse arroubo a respeito da vida nos livros que se tem funciona, o que faria eu diante de um trecho de prateleira de livros de Saer? Esses livros seriam indício suficiente de quê? Servem para quê, a não ser para serem manuseados por febris epígonos fanáticos, eventualmente fazerem uma graninha para a família, os Nobres Livros do Autor Morto – servem para quê?

Posso favorecer a hipótese da utilidade tomando minha própria prateleira na foto como exemplo: aí estão minha vida em NY (os balcões mais baratos da Strand), uma ex (duas, melhor dizendo), um amigo perdido, a época em que queria ser tradutor, o momento em que parei de fumar (era 2008, janeiro, e estava lendo os Diários de Cheever), etc. Aí está também aquela história do Kelvin indo no Berinjela vezes sem conta e vendo o volume de cartas do Cheever e paquerando o livro sem comprar até que, anos depois, o Berna o enviaria pra mim – exatamente o mesmo livro, passando por dois amigos meus, e chegando a mim graças ao antigo dono, ignorado, sem nome  pra mim, que um dia o depositou lá no Sebo – e como abriu mão das cartas de Cheever, em benefício de quê.

Aí está também, envolvido num papel pardo para proteger um pouquinho a capa, um de meus livros favoritos, o quarto exemplar que tenho do mesmo livro, Up in the Old Hotel, de Joseph Mitchell. Mitchell, que tinha uma paciência de Jó, escreveu esses textos maravilhosos, nos quais não se conta quase nada: são só umas histórias de tipos ordinários, que se fazem envoltos em mistérios vãos acho que mais pela força magnética que a noção de idiossincrasia  exerce sobre nossa espécie que por qualquer outra razão. São histórias de quase nada, e todavia. Lembro de uma época em que lia os capítulos, ritualisticamente, toda terça e quinta à noite: eu não trabalhava nesses dias, e ficava grifando trechos e sonhando em escrever bem (eu também fumava, e nem pensava em parar). Lembro de minha melancolia ao ler Joe Gould’s Secret, e como me surpreendeu o fato de estar aparentemente mais tocado ao ler o texto pela segunda vez, tolamente surpreso por estar contrariando uma regra pseudocristã que dá sempre mais valor ao mais virginal (li esse texto em voz alta uma outra vez, lembro). E outro dia – está fresco, foi agorinha mesmo, agora no Natal – cheguei no hotel de uma visita a mil sebos, cheio de livros, feliz, e com mais um volume do mesmo livro de Mitchell. Deitei na cama, abri o livro e vi, então, a dedicatória.

Diário Argentino 2.0

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 30, 2010

Quando estava em Buenos Aires, no ano-novo de 2009, pensei em como a vida passa rápido: uma sirene de polícia, o barulho dos fogos na meia-noite, o ruído vivo de uma cidade em comoção. Corpos ardentes que não são meus, muito inebriados, celebrando o arbitrário, o vão, o viver. Va bene, penso com meus botões, e vou caminhando pela Corrientes tranquilo e esperançoso. Chega de ser adversário.

Aqui, em Buenos Aires, teria uma vida de poucos e bons pertences: os livros me enriqueceriam, e seria amigo dos livreiros da Gandhi e da Hernandez. Andaria por aí com meu Cinquecento, que estaria velhinho, mas seria útil, não me daria trabalho e seria preservado sem frescura mas com amor: já nos vejo, eu e minha mulher, entrando no carro de manhã, aquele gesto único de baixar o banco e jogar lá atrás a bolsa, aquele desleixo do hábito e da segurança. Teríamos poucas coisas, mas a vida seria mais leve, dias de afazeres e despretensiosa sabedoria, dias de poucos planos, um homem e uma mulher que estão mais ou menos cagando pras certezas. Além disso, haveria a literatura e a política como assunto perene de queixas e opróbios.

Estamos em Buenos Aires, e agorinha mesmo estava levando o lixo para fora: fechei o saco na cestinha, caiu um pouquinho de pó de café fora, fechei o saco direitinho, fui lá fora, voltei, fechei a porta, e depois fui pegar a pá e um pano pra limpar a sujeira e sacudir o pó no saco de lixo novo que coloquei na cesta, e essa é a vida. Era sábado de manhã, acordei cedo, fiz chá, estava ouvindo Another green world. Viveríamos bem em Buenos Aires, teríamos vivido como nobres no exílio, discretos e voluntariosos com nossos desejos miúdos.

Meus amigos lembram da época em que eu era o Rei da Noite com alegria: graciosos com minha memória inadequada, me elogiam, são bons. Não há porque culpar nem a época nem os outros por nossos equívocos: abracei meus equívocos com a alegria que César Aira teve quando reencontrou seu cachorro perdido, quando ele tinha dez anos, em Pringles. Um cachorro perdido, um encontro, um garoto feliz, e a música preciosa dos acidentes perfeitos que acontecem o tempo todo em Buenos Aires ou em qualquer lugar.

Dia de Beckett

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 28, 2010

Um dia como esse hoje, tarde magnífica, fui levar a cachorra pra passear e dei graças a deus de não ser hikikomori.

Fui comprar o jornal, não tinha Estadão, mas tinha O Globo. A alegria ocorreu, mas como sói ocorrer, durou pouco: o Prosa e Verso cantava loas à pseudo-majestade Ferreira Gullar, poeta laureado, esteta ressentido, fruidor de arte ortodoxo, ex-comunista, anti-petista, abusivo, monótono, chato – mas celebrado que só. Pouco antes de sair de Belo Horizonte, lembro de assistir a uma palestra dele: foi ovacionado às custas da rudeza arrogante com que tratou Duchamp e arte conceitual – isso foi perto do lamentável incidente dele contra a Laura Vinci. Foi ovacionado: devia estar empoderado, o velhinho, deve ter saído do salão de conferências do Palácio das Artes se sentindo centroavante na vida, se sentindo muito mais e melhor que o pífio reaça que estava sendo. Triste destino o de envelhecer acreditando-se um exército de um homem só – triste envelhecer numa metáfora bélica. Bom, que seja: triste para mim. Vai saber o que o outro celebra em si.

Na praia, as barracas no chão, uma imagem que nunca tinha visto antes, o dia magnífico, lindo mesmo, a enseadinha mansa, umas crianças, um casal de gringos. Uma senhora cheia e sorridente, parecendo Aunt Jemima, se aproveitou do vazio e levou um isopor pra vender cerveja. Quando tinha treze, catorze anos vinha aqui de ônibus, passava o domingo na praia, seminu e, que me conste, sem dinheiro nenhum.

Minha cachorra, tão adorável, o fim de tarde e, no mar, a linha do horizonte mais escura, tudo azul, nenhuma nuvem. Como não lembrar de Beckett num dia assim? Pois consta que um dia Beckett estava caminhando com Paul Léon, estão nos Champs Elysées, digamos que estão indo tomar uma, e a tarde está exuberante – como essa de hoje. Léon puxa conversa, dizendo Dia lindo, hein, Sam? E Beckett olha ao redor, como se até então estivesse distraído da circunstância, e confirma o valor de verdade da afirmação de Léon dizendo É mesmo, lindo mesmo. E então Léon – em um movimento no qual me reconheço, com o qual me identifico, que poderia ter sido meu – se empolga e diz Pois é – num dia assim você se sente feliz por estar vivo! E Beckett – em um movimento admirável, no qual reconheço a pessoa que eu desejaria ser mas nunca serei, que jeito – responde Ah, Paul, aí já não sei – eu não iria tão longe. E os dois se entreolham – e riem, são amigos, em alguns minutos beberão uma cerveja.


Academic Tour 2010

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 24, 2010

O curso, o simpósio, a jornada. As questões dos alunos, as conferências, os debates. O clima eventualmente falanstérico do simpósio, o igualitarismo, os bons modos, a atenção cuidadosa, a argúcia, a minúcia, o zelo, a modéstia. A alegria adventícia dos consórcios improváveis. O turismo acadêmico. Os desejos, o burburinho, o tédio, o cansaço.

O novo semestre, os alunos novos, os alunos velhos, os colegas de sempre, o mesmo prédio, o rotineiro, as expectativas cristalizadas, os desejos de mudança, os hábitos arraigados, o encanto da rotina, o massacre da rotina. O valor de verdade da crítica, a ficção como um problema, o caso Defoe, por uma nova poética do ensaio, crianças diante do mistério dos laços familiares.

Se perder em uma manhã qualquer, em uma rua de Buenos Aires. Ser de novo jovem, cheio de riscos a correr. Reencontrar-se com seus heróis, seus homens de papel, sua vida romanesca, seus agasalhos tardios, seus trinta anos. Ser de novo um leitor, um candidato a algo, menos melancólico, um figurante em um filme da nouvelle vague, um amigo do Autor, um crítico literário, um professor e, num dia de inverno, diante da porta, hesitar um pouco, não por receio, mas pelo prazer da delonga e do tempo sem custo.

Bovarismo, 2666

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 24, 2010

Como é do conhecimento de vocês, a questão do Bovarismo me interessa; creio que é uma espécie de consequencia fatal da leitura de ficção, um efeito colateral incontornável e, talvez, um elemento necessário na produção do desejo de ficção – seja de sua leitura, seja de sua produção. Há anos faço anotações sobre isso, partindo de uma observação inicial de Piglia, que em um texto conhecido alude ao célebre abraço no cavalo de Nietzsche em Turim como uma instância de bovarismo. Venho compilando eventos, incidentes, observações e citações ligadas ao tema – venho ensaiando escrever um ensaio que redescreva e recupere o termo, colocando-o, na circulação conceitual sobre ficção contemporânea, como parceiro de noções como “pastiche” e “auto-ficção”. A coisa, afinal, é simples, e parece útil justamente por isso: lemos e, tendo lido, balizamos nosso contato com a suposta realidade de maneira diferente – eventualmente, nos esforçamos para produzir conexões entre o lido e o feito; eventualmente testemunhamos essas conexões sem que nossa agência tenha sido necessária para produzi-las.

Há o clichê Uma imagem vale mais do que mil palavras etc. Obviamente, considerando minha amizade com as palavras, me disponho a discordar, a César o que é de César, uma imagem diz umas coisas, um texto diz outras, um beijo não anula o outro, e a camaradagem continua. Eis, portanto, a inacreditável imagem:

Taprobana, Bowles

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 21, 2010

1. A primeira vez que li Paul Bowles foi na biblioteca: eu passava muito tempo lá, às vezes tentando estudar, mas na maioria das vezes só explorando, e foi assim que encontrei o livro na estante. Achei curioso, não sabia nada sobre o autor, mas vi que tinha uma introdução do Gore Vidal – desse eu já tinha ouvido falar. Li a introdução, que me deixou ainda mais interessado – mencionava, claro, o Marrocos, e o caráter escandaloso de algumas narrativas. E por isso, por causa de minha necessidade de negligenciar minhas obrigações, matar o tempo e me esquecer de mim mesmo, de uma introdução de Gore Vidal, e de meu interesse por histórias escandalosas, comecei a ler Bowles – lá se vão vinte anos.

2. Quando eu estava fazendo o doutorado, volta e meia acalentava a idéia de usar a história de “Um episódio distante” como uma espécie de pano de fundo alegórico para o que eu pretendia discutir na tese: lembro de ficar sentado em uma poltrona velha que eu tinha herdado do espólio da mãe de um professor – lembro que li Vida: Modo de Usar nessa poltrona – até tarde, com uma prancheta na mão e um caderno, rabiscando idéias em torno disso, um cinzeiro que eu tinha apoiado no braço da poltrona, um suéter gasto que eu sempre usava dentro de casa.

O conto, como sabemos, é apenas um momento em uma matriz que Bowles perseguiu e reiterou muitas vezes, e fala de um linguista que perde a língua e a razão em uma aventura oriental. Eu achava que isso dizia muito, que teria muito a dizer com isso. Não tinha, não tive, nem tenho: tudo que essa história tem a me dizer já foi dito, e foi dito pelo Autor e por seus personagens, dito para mim com todas as letras desde a primeira vez que a história foi lida, numa biblioteca, em Salvador, em 1990. Nenhuma alegoria, nenhuma lição, nada a dizer: já devo ter lido essa história umas dez vezes, e a reli há dois ou três dias, no dia em que escrevi outro post sobre Bowles.

3. Durante muito tempo não soube qual era a cara de Bowles, até que um dia encontrei uma foto: ele está com a mulher, Jane, em um barco, ou coisa do gênero: a cena é muito bonita e, ao mesmo tempo, discreta, doméstica. Vemos o assanho que a embarcação provoca na água, no lado esquerdo da foto, o lado pro qual eles estão olhando; o sol está na frente do rosto de ambos; o espaço à direita é só a quietude opressora do mar aberto, só água até o horizonte. Nenhum deles olha para a câmera, Paul está sem camisa; ninguém está exatamente sorrindo, mas é fácil ficar com a impressão de que o sorriso está por perto, e que isso é bom.

A essa altura eu já tinha lido que Bowles chegou efetivamente a adquirir – comprar, possuir, ter – a ilha de Taprobana com a grana que ganhou por causa do sucesso editorial de O céu que nos protege. Invejei muito isso. Que maravilha deve ser, pensava, poder realizar tanto, ser tão premiado por ter escrito um livro. Imaginava um lugar magnífico, senhorial e um pouco descascado – mas lindo, sempre lindo, com uma beleza abrupta e enigmática só amaciada pela umidade insistente dos trópicos, e ainda com uma população nativa imprecisa, interessante, ritualística. Com tudo isso, imaginei que essa foto retratava um momento da vida do casal nessa ilha – que os dois estavam ali celebrando sossegados e satisfeitos a Sorte Grande, a Grande Oportunidade que deve ser amar e ser amado e ter uma ilha inteira só para viver e conversar de literatura vida afora. Depois, lendo biografias de Bowles, descobri que estava enganado – mas que fazer? Essa foto é linda.

Enxaqueca, livros, William James, algebra

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 5, 2010

1. Enxaqueca. O repertório de imagens em torno do problema é vasto, já foi bem recenseado pelo Oliver Sacks em seu Enxaqueca, e certamente pode prescindir de minha tosca contribuição – mas a de hoje me fez pensar que a caixa craniana estava gradualmente se enchendo de pedras, depois areia, depois água – na sequencia daquela história infame que circulou abundantemente por aí, e que recebemos em spam, em mensagens de natal, ano novo, o diabo. Eis o horror: além do sofrimento característico de um processo agressivo que é na melhor das hipóteses amansado pelo medicamento,  ainda fui brindado com a lembrança dessa fábula.

2. Silver lining. Para continuar no terreno das analogias férteis, a dupla obscuridade referida acima foi aliviada por algumas páginas, na verdade dois capítulos, do excelente The Master, que já comentei brevemente aqui: cheio de sentenças lapidares, e atravessado por um processo de emulação de um ritmo jamesiano que, embora não seja, obviamente, a mesma coisa, é também excelente, justamente porque não deseja ser a mesma coisa que James. Embora eu não consiga explicitar totalmente minhas razões, acho que há um aprendizado interessante aí – talvez justamente porque não consigo explicitar totalmente minhas razões.

3. Livros. Como na finada – e em geral chata, mas esse aspecto era legal  – coluna do Nick Hornby pro The Believeralguns livros recém-chegados:

3.1. Hamilton, How to do biography: nunca subestime o poder de um manual de instruções americano – são produzidos por pessoas que acreditam nisso para pessoas que acreditam também, e esse pessoal vem fazendo esse negócio há mais de cinquenta anos! Minha esperança, que me torna irmão em  intenção de todos os que buscam livros de instrução para resolver questões da vida, é ver se o livro do Hamilton me ajuda a proceder com menos sofrimento – e, como sempre é meu desejo, mais organização e método – na redação da biografia do Saer.

3.2 Fitzpatrick, The anxiety of obsolescence – The american novel in the age of television: o título me fez pensar em uma história social da minha geração, aquela que foi formada pela TV e que descobriu internet já adulta, mas não é exatamente isso. Fitzpatrick é bem representativa de um tipo de acadêmico norte-americano antenado e multivalente, proficiente no uso de mídias sociais e disponível para investir na ampliação do circuito de conversações ordinário do professorado: o livro que ela está escrevendo agora vai bem em cima dos meus interesses de pesquisa, e foi por aí, quando estava buscando coisas sobre publicação acadêmica online, que me deparei com o trabalho dela. Calhou que ela tinha escrito esse livro que chegou hoje, que também me interessa. Ela foi colega do DFW em Pomona, e escreveu um dos textos do In memoriam DFW. Por fim, já que estamos no assunto,

3.3 Lipsky, Although of course you end up becoming yourself, parte de minha tentativa de me aproximar de DFW usando uma via que facilita minha vida. Foi culpa, inicialmente, de um comentário de Matt Bucher e, depois, de uma conversa comprida com T

Com sorte e vida longa e próspera, tudo isso terá seu dia de comentário aqui. E, para terminar com uma nota positiva um dia lastimável e sombrio, The Master himself: Henry James aos 16 anos, antes de se tornar “Henry James”, como um lembrete de que mesmo os Mestres começaram pequenos.

Summertime

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on setembro 26, 2009

Há aquela história famosa envolvendo Gershwin: ele visita Webern, declara-se um admirador, Webern providencia uma execução de algo exclusivamente em deferência ao visitante. Tudo é, obviamente, austríaco, austero. Depois, como bom anfitrião, Webern convida Gershwin a tocar algo; a proposta é recebida com acanhamento e alguma hesitação, e a esse titubeio Webern responde Ora, Senhor Gershwin, música é música.

Hoje recebi a notícia de que um amigo querido vai embora.  Eu, que já fui esse amigo que vai embora tantas vezes, lembrei não sei porque dessa história de Gershwin, e pensei em como desejei aprender a tocar piano melhor para, como num filme de Woody Allen, começar a tocar standards discretos e conhecidos de todos nas reuniões com a família e os amigos: os novos e os velhos, os idos, os que foram e os que vieram, os godos, os visigodos e os ostrogodos, todos todos todos, porque música é música.

Gershwins & Fred

O papel de minha família na Revolução

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on setembro 4, 2009

O papel de minha família na Revolução foi certamente insignificante. Meu avô paterno, um biscateiro e fabricante artesanal de palitos, era demasiado lumpenizado para se dar conta de suas obrigações com o Destino do Proletariado: havia seis filhos, e até hoje me pergunto em que condições ele adquiriu aquela casa escura, que só tinha uma janela na frente, ao lado da porta.

Nascido em 1903, no momento mesmo da Revolução meu avô tinha apenas 14 anos, mas isso não era efetivamente um impedimento: sabemos de heróis bolcheviques com a mesma idade, ou até menos, veja-se o caso do Jovem Lizok, por exemplo. Meu avô poderia ter contribuído para a Revolução e, mesmo que ele não houvesse contribuído para a Grande Revolução, poderia ter contribuído mais adiante, nas fileiras espanholas – ele não tinha vindo de Portugal, afinal, pobre e friorento em um navio que quase afunda? Havia um mundo a corrigir.

Mas, ao invés disso, meu avô preferiu fazer nascer meu pai e dar lugar a toda a sequência arbitrária e óbvia que nos traz até aqui.

Avô Pereira

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