ensaio

Joseph Mitchell, Dad, 1992

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on fevereiro 25, 2011

Lembramos daquele comentário de Piglia: um crítico narra sua vida ao escrever sobre os livros que leu – suas leituras inscrevem um padrão de saliências específico nos textos, uma marca de identidade hermenêutica. Isso faz sentido: basta ler o blog do Zé Castello ou o do Kelvin por um mês pra perceber que há algo dessa ordem em operação – não é apenas estilo, é mais um modo de usar.

A publicação recente de uma tradução de trechos dos Diários de Cheever me fez dar atenção ao canto da estante no qual estão depositados meus livros de Cheever – Cheever estava na berlinda, vários conhecidos comentando, então pensei em Cheever de novo, fui me aproximar dele de novo, e fui pro canto da estante onde estão seus livros:

É só um amontoado de livros – mas a história do seu amontoamento é, certamente, uma biografia: o crítico também escreve sua vida nos livros que acumula, como os acumula, como os separa, organiza e controla, o que mantém, o que dissipa. Ora, tenho trabalhado como um cão ultimamente pra escrever uma biografia de Saer – mais: para dar sentido ao projeto de sentar todo dia para escrever uma biografia de Saer. Se esse arroubo a respeito da vida nos livros que se tem funciona, o que faria eu diante de um trecho de prateleira de livros de Saer? Esses livros seriam indício suficiente de quê? Servem para quê, a não ser para serem manuseados por febris epígonos fanáticos, eventualmente fazerem uma graninha para a família, os Nobres Livros do Autor Morto – servem para quê?

Posso favorecer a hipótese da utilidade tomando minha própria prateleira na foto como exemplo: aí estão minha vida em NY (os balcões mais baratos da Strand), uma ex (duas, melhor dizendo), um amigo perdido, a época em que queria ser tradutor, o momento em que parei de fumar (era 2008, janeiro, e estava lendo os Diários de Cheever), etc. Aí está também aquela história do Kelvin indo no Berinjela vezes sem conta e vendo o volume de cartas do Cheever e paquerando o livro sem comprar até que, anos depois, o Berna o enviaria pra mim – exatamente o mesmo livro, passando por dois amigos meus, e chegando a mim graças ao antigo dono, ignorado, sem nome  pra mim, que um dia o depositou lá no Sebo – e como abriu mão das cartas de Cheever, em benefício de quê.

Aí está também, envolvido num papel pardo para proteger um pouquinho a capa, um de meus livros favoritos, o quarto exemplar que tenho do mesmo livro, Up in the Old Hotel, de Joseph Mitchell. Mitchell, que tinha uma paciência de Jó, escreveu esses textos maravilhosos, nos quais não se conta quase nada: são só umas histórias de tipos ordinários, que se fazem envoltos em mistérios vãos acho que mais pela força magnética que a noção de idiossincrasia  exerce sobre nossa espécie que por qualquer outra razão. São histórias de quase nada, e todavia. Lembro de uma época em que lia os capítulos, ritualisticamente, toda terça e quinta à noite: eu não trabalhava nesses dias, e ficava grifando trechos e sonhando em escrever bem (eu também fumava, e nem pensava em parar). Lembro de minha melancolia ao ler Joe Gould’s Secret, e como me surpreendeu o fato de estar aparentemente mais tocado ao ler o texto pela segunda vez, tolamente surpreso por estar contrariando uma regra pseudocristã que dá sempre mais valor ao mais virginal (li esse texto em voz alta uma outra vez, lembro). E outro dia – está fresco, foi agorinha mesmo, agora no Natal – cheguei no hotel de uma visita a mil sebos, cheio de livros, feliz, e com mais um volume do mesmo livro de Mitchell. Deitei na cama, abri o livro e vi, então, a dedicatória.

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Don Draper, John Cheever

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on outubro 29, 2010

A extensão em que se pode ter empatia com Don Draper é enorme: o homem é uma fantasia de sucesso completa, habita um momento histórico e um lugar invejáveis, e celebra um exercício radical do projeto do self-made man: é carismático, astuto e tranquilo, uma fortaleza que se fez com nada exceto habilidade, engenho e arte. Mas, à medida que a narrativa avança, uma tintura começa a aparecer e se espalhar – e você não se surpreende, mas o fato é que é uma tragédia. Há momentos de leveza, mas são eventuais, parênteses. O destino do herói, uma vez que é destino, não admite redescrição, e a contingência não é capaz de nada a não ser de uma folga cômica, um alívio que permite a projeção, em uma outra volta do parafuso, da narrativa para seu final.

Ou não? Observe, por exemplo, o momento em que Draper, na Califórnia, pode se redescrever mais uma vez, sumir, desaparecer: toma um banho de mar, sem camisa, com uma calça cáqui arregaçada, um quarentão em uma praia solitária na costa oeste nos anos sessenta. O que se pensa em um momento assim? O que se deseja? Ou, ainda, no episódio em que ele aparece nadando na piscina, ruas de Manhattan fervilhando no início do verão, e ele escrevendo em seu diário, de novo com uma calça cáqui, os pés descalços: o que é isso? Reforma moral, incipit vita nova?

Você lê os diários de Cheever, mais ou menos dessa época, início dos anos sessenta, ele já com quase cinquenta anos dizendo coisas como A estranheza do tempo, a estranheza da personalidade. Às voltas consigo mesmo, perplexo com seu próprio espectro de ambiguidades e envolvido em um trabalho que, em certa medida, depende do auto-exame para ter sucesso, Cheever parece o tempo todo buscar para si o estado em que, sem nome e nu mais uma vez, ninguém sabe quem ou o que ele é, e ele pode ser qualquer coisa, e acreditar por um momento que a satisfação desse novo desejo de ser será, dessa vez, enfim, algo sem custo, sem dor, sem falência. Você escreve em seu diário sobre isso, acorda cedo para nadar, e se esgota pensando em coisas dessa família: razões, projetos, impotências, importâncias. E isso, embora pareça a posteriori apenas mais uma encarnação da ingenuidade, ou um exercício peculiar de ócio e lassidão, é também a manifestação de uma urgência que talvez seja inevitável, uma consciência da falência final que não se deixa asfixiar pelas mil e umas forças do Não, do Você não é isso, do Você sempre vai ser assim. E então você nada um pouco mais e lembra de Cheever se perguntando, em uma página de 1962,

O que é afinal que eu quero: um quarto mobiliado, um umbral de porta, ou uma rua, o vento soprando?  Depender de coisas e pessoas, estar sujeito às circunstâncias, desejar avidamente evitar a miséria particular da independência. Conhecer as diferenças do que se sente nesse momento da vida, nadar na praia e subitamente perceber que tudo passou de dor para prazer, acreditar que ainda há trabalho a fazer, algo a fazer.

Na praia com Sylvia Plath

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 21, 2010

1. Sloterdjik/ Zizek. Um dia fui numa conferência do Zizek. Uma anomalia: um domingo ensolarado, um centro de cultura alemã, Zizek com duas rodelas imensas de suor debaixo do sovaco de uma camisa com um desenho do Mickey. Todavia, como às vezes acontece, é na morada do bizarro que encontramos a companhia amiga que mais nos é cara. Pois a meio caminho de sua exuberante e careta superinterpretação de They Live, de John Carpenter, Zizek vai e menciona mais ou menos o seguinte:

O Ocidente projeta uma imagem de si mesmo como sendo fundado na necessidade de compreender o Outro. Ora, talvez a proposta de Sloterdjik seja bem mais próxima do que é o caso. Sloterdjik diz que progresso social é criar mais e melhores condições para ignorar o Outro. Compreender dá muito trabalho, e mesmo a performance da compreensão, que ocupa tantas vezes o lugar da própria coisa, dá muito trabalho. Não quero compreender meu vizinho: quero poder ignorá-lo, e ser ignorado por ele.

Há algo duro e cínico aí, e a extensão indiscriminada desse ethos me envergonharia – claro, sou um velho nerd pós-humanista, mal e porcamente informado sobre o contemporâneo. Mas volta e meia penso nisso, nos usos disso. E em particular, penso nisso quando estou nadando. Hoje de manhã mesmo: um dia sombrio, gelado, daqui da janela nuvens carregadas. Chuva, talvez; mais certo era um dia frio, um vento cortante aqui na descida da ladeira, aquelas lufadas vindas do mar que enchem o agasalho. Nem hesitei, nem me passou pela cabeça não ir. E fui. Lá na piscina estava só, junto com dez pessoas, que salvo a mais elementar polidez (“Bom dia”, “Tá usando a prancha?”) ignorei.

2. Utilidade Pública. Projeto inovador e arrojado do camarada DP, que aparece aqui para enlevo de todos.

3. Leituras de fim de semana. Como sempre, a ganância me domina. Mas deve ser algo que inclua a) Shklovsky, A sentimental journey: Memoirs, 1917-1922 ou b) The Letters of John Cheever ou c) Carola Saavedra, Paisagem com dromedário ou d) Margulies, Rites of realism. Além disso, posso garantir que, em algum momento do fim de semana pensarei em a) Henry James (O Mestre, Pessoal, O Mestre!) b) Bolaño (2666 tá na boca do povo, e tem até concurso de resenhas no site da editora!) c) Kelvin (amigo é pra essas coisas) e d) Sylvia Plath.

Como é do conhecimento de vocês, a grande anomalia nessa lista é a presença da famosa poeta suicida. Mas observem essa foto:  imaginem uma poesia de pouca morte, de nenhum desejo de morrer, como a que nós temos quando estamos felizes o suficiente para ir à praia, e uma pessoa querida quer uma foto nossa, e nem pensamos antes de sorrir para a câmera, para o sol, para o resto do dia, para o resto dos dias.

Cheever and Son, Incorporated

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on março 19, 2010

Apreço

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on março 17, 2010

1. Pelo Conhaque Fundador (Hemingway! San Fermin!), magnífico e atemporal: há mais de cinco anos não tenho a honra.

2. Pelos contos de John Cheever – e, a César o que é de César, por  toda a parafernália do Cheever: a casa, as cartas, os cachorros, a bebedeira, as mulheres, os amigos, a semiviadagem.

2.1 Terron aplaude o Cheever aqui, e eu aplaudo o Terron aplaudindo o Cheever.

3. Estou no trabalho, continuarei aqui por mais de uma hora, esperando. Abro a estante: tenho algumas opções de leitura para passar o tempo: a) A portrait of the artist as young man b) Ingo Schulze, Nine Lives c) Coetzee, Summertime d) 2666.

O que ler? Não sei – mas sei que gosto de ter esse tipo de dúvida.