ensaio

A mãe de Coetzee

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on outubro 18, 2014

Vi que saiu nos anais de um evento um ensaio que escrevi faz um tempo. O ensaio persegue coisas que escrevi há mais tempo ainda, numa resenha sobre Verão, de Coetzee.

Sei que o ensaio é ruim, falha: trata de um feijao com arroz que ja reiterei muito, e não tem a combinação que eu queria que tivesse de pressão hermenêutica e mão tranquila, que é o que vejo em ensaios de Alberto Giordano e, por trás dele, de Barthes, críticos que tieto e tento emular. A resenha acho boa: acho que consegui fazer funcionar a coisa na exiguidade com integridade, me reconheço na forma de ler; passaram-se anos e, embora torça o nariz pra certa grandiloquência que, hoje, leio ali, ainda a subscrevo.

Como acho que o livro tem valor, como se conecta de maneira muito frutífera com o que pesquiso, e como em pesquisa só deveria haver vergonha na má fé, mas nunca no erro, devo persistir escrevendo ensaios sobre esse livro e os outros manejos do biográfico na obra de Coetzee. O declínio evidente de sua produção, patente no último livro, me diz que seu fim de vida como autor será um de miséria da arte, arremedo de si mesmo e balbucios moles dirigidos à galera de fanáticos. Paciência: os Autores também tem o direito de declinar e morrer, inclusive em vida.

Quando apresentei esse ensaio no congresso, um comentário que um cara da audiência fez, um especialista em Proust que foi meu contemporâneo na UFMG, foi que eu devia ler o Clark sobre David. Eu nunca nem tinha ouvido falar desse ensaio, e imagino que só tinha ouvido falar (no sentido de “sei quem é”) do T. J. Clark por ter sido casado com uma artista plástica e professora de arte. Tipo, tinha texto desse cara pela casa.

Fui ler, e tem a ver mesmo: foi uma observação oportuna e enriquecedora, o tipo de coisa que ocorre às vezes nos congressos e que lhe lembra de uma das razões, talvez a fundamental, para sua existência: são espaços muito particulares de interlocução. O texto de Clark vai na chave De Man, explora o regime do biográfico via Rousseau e a prosopopeia: é, assim, também dieta comum pra quem trabalha com esse temário. Mas há algo no ensaio de Clark, um investimento em estratégias de deformação, que vale muito como paralelo para a leitura desses textos (auto)biográficos do Coetzee: uma exploração da maneira como David representa a si, como se autorretrata, sua bochecha inchada evidente e relativizada, subalternizada pelo olhar que tanto solicita de quem vê.

Uma coisa que me atraiu muito foi como Clark circunda o que parece ser o centro do problema: como ele evita a peremptoriedade analítica da declaração e opta por lhe reconduzir, de novo e de novo, ao problema da descrição do quadro, tornando com isso a conclusão uma espécie de suor do trajeto de abordagem. Achei magnífico. Clark, depois, escreveu um livro no qual descreve o que vê ao longo de um ano em que passou visitando um mesmo quadro de Poussin todos os dias, uma espécie de diário da visão. Crítica é isso, pensei, e agora penso, achando que penso melhor, Crítica pode ser isso, também.  No documentário de Dick e Kofman sobre Derridahá um momento em que o entrevistador pergunta a ele Em filosofia, quem é sua mãe?  Derrida, que não parece hesitar nunca, que parece sempre estar acessando um arquivo pronto, de pura disponibilidade, fica claramente perplexo: está diante de uma pergunta inédita, nova não apenas no sentido de “nova nessas situações de entrevista, em que o clichê predomina e sempre se pergunta variantes do mesmo, o mesmo sempre sendo uma forma do óbvio”, mas também no sentido de “putaquepariu, nunca pensei isso”. Já assisti esse documentário três vezes, e é um momento sempre maravilhoso pra mim, e agora mesmo constato que não tenho a menor lembrança de qual a resposta.

 

coetzeevintage
 
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Tenho quatro amigos

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on setembro 20, 2014

O primeiro é bonito, vaidoso, encantador: é um mitômano, uma espécie de perene ficcionista da oralidade, vive tecendo suas histórias enquanto ajeita a roupa e o topete, e ergue as sobrancelhas, como se passasse marca-texto no que diz, e confirmasse com seu interlocutor alguma coisa que é da ordem do pacto de bastidores que travaram antes da conversa, no qual tudo foi acertado. Nos conhecemos assim, nos arredores de nossas mentiras, e de lá nunca saímos, o amor pela ficção um elixir que tudo cura, e um certo comunismo de minha parte que garante um atrito útil com um certo fascismo da parte dele. Ficamos embevecidos quando, depois da décima cerveja, ele se dedica a erguer alguma revelação, esboçar alguma narrativa que, sendo sempre mentira, nos dará algum encontro com o novo, o inusitado, o insólito, o belo. É muito generoso, e todas as vezes causa problemas nas contas de bar por querer pagar demais; sua motivação nunca é a culpa, sempre é a alegria. Costuma dizer que é invejoso, e que deseja ser autor, ostentador, magnata cultural. Mas essa é outra de suas ficções: o que deseja é estar ali, centro magnético da mesa de bar, ou caminhando pela Rua da Glória, marionetando suas histórias, sua audiência, confiante no abraço de despedida feliz no fim da noite. Uma vez, estando com ele em um bar repleto, chorei; no bar cheio, era notável que as outras mesas se interessavam pela anomalia de um adulto se emocionando em lugar impróprio: ele se manteve impassível e solidário, silencioso, ouvinte, amigo.

O segundo é quieto e reservado; sei que é meu amigo, e na medida em que nossa vida errática permite sempre atesto com felicidade os esforços que ele faz para me encontrar, muitas vezes para que a gente converse bem pouco, como se não precisasse mais disso. Uma versão das amizades inglesas preconizadas por Borges, excluindo de saída a vulgaridade da confidência e prescindindo do diálogo sempre que possível. Dizem que era tímido na adolescência e, embora hoje esteja longe dessa coisa própria da timidez que é o impedimento à vontade, ainda parece se comunicar com essa área da experiência de uma maneira que me é alheia; me atribulo no trabalho (carreira, projetos) e na vida (dinheiro, brigas) de um jeito que parece nunca ter sido problema pra ele, senhor tranquilo de um saber que não possuo aí. Nosso horizonte de conversas se concentra em nossa experiência com nossos pais; nossos problemas com a literatura; nossas perturbações com as mulheres. Há coisa de um ano ele estava morando em X, cidade onde morei há muito tempo e que virou uma espécie de explicação e signo místico para mim, lugar em que me reconheci como pertinente e pertencente ao mesmo tempo em que me sabia excluído e menor, em um processo tão ambivalente que até hoje imagino ser essa uma de minhas características mais fáceis de detectar. Nos falamos no skype, ele muito triste e com frio, e fiquei numas de animar ele recuperando momentos de minha vida lá, perguntando “Ainda tem isso em tal rua?”, “Ali na esquina de A com B tem tal coisa”, “Você já foi em Z?”. Recuperava aqueles lances de memória já muito manipulados e gastos pelo uso, mas dessa vez com ele como protagonista, ele nas ruas em que andei, ele com minha calça jeans e camiseta branca, ele admirando coisas, experiências, mulheres inatingíveis, inesquecíveis.

O terceiro mora em um quarteirão solitário, perto da praia, numa casa repleta de livros. Seus irmãos, muitos, foram se mudando e ele foi ficando: vive com os móveis e objetos dos anos oitenta de uma casa que precisa de pintura, a casa onde ele nasceu e cresceu e onde continua até hoje. Minha admiração por ele é quase infinita: sua delicadeza tranquila, um homem corpulento, de quarenta anos, que nunca parece ter se desgastado tentando provar nada para ninguém e que portanto é desprovido da carapaça na qual eu, por exemplo, investi tanto tempo e dinheiro. É muito erudito (lê em russo) e rodado (passou dois anos vivendo no leste europeu; antes, morou num kibbutz) e é um dos melhores autores de sua geração, maior ainda por parecer não se importar com fato de ser quase desconhecido e seriamente desprestigiado para quem tem tanta imaginação e força, abundante a ponto de permitir que ele publique naquela lata de lixo da história que é o facebook posts como esse

Quando meu pais eram vivos sempre esperávamos uma visita que nunca chegava. Tínhamos que estar de banho tomado, com roupas sempre limpas, cabelo penteado. Alguém, nunca soubemos quem, podia chegar a qualquer momento na nossa casa. Os móveis tinham que estar impecáveis. Os brinquedos trancados em um quartinho. Minha mãe forrava a cama enquanto eu ainda estava dormindo sobre ela. Naquela época eu ainda não sabia, mas no meu caso a visita eram os livros. Essa é a minha love story, como diria Haňt’a. Escrevo isso enquanto indico um livro para uma amiga. Escrevo enquanto lembro da minha leitura de Jardim, cinzas, de Danilo Kiš. Escrevo enquanto, sem pensar muito, defino assim o livro para uma amiga: É como se o Tio Pepin de Hrabal irrompesse nos salões do Palácio dos Sonhos de Sandman e lá encontrasse as crianças da Rua Paulo e todos dançassem o Čoček.

Ou esse:

Devo a César Aira a ideia que os acidentes de memória criam todo tipo de monstros. Às vezes lembramos algo que já não sabemos se aconteceu daquela maneira ou foi nossa imaginação que criou e preencheu as partes que estavam faltando com simulacros dos acontecimentos, como os dinossauros do Jurassic Park criados a partir de rãs. Assim também são com os livros que nos surpreendem quando procuramos um trecho que imaginávamos de outra forma. Assim é com os livros que li, assim é com Moby Dick, assim é com Extinção. Ambos são relatos obsessivos sobre a extinção. E provavelmente não foi assim que aconteceu, mas foi assim que lembrei: Queequeg é Gambetti. Bernhard e Melville escrevem antibiografias. A grande baleia branca é a Áustria nazista. O redemoinho no mar e na linguagem. O apagamento da origem, da nação, dos pais, do poder. O curto-circuito entre memória e esquecimento. A carta nunca entregue de Kafka ao seu pai.

A menção a Aira não é trivial para mim: conheci Aira por ele, que me enviou um livro, Um acontecimento na vida do pintor viajante, que foi meu primeiro Aira, e que terminou me levando a escrever uma tese sobre Aira. O livro, lamentavelmente, se perdeu em minhas separações e mudanças, mas recordo que a dedicatória dizia, aludindo a minha pobreza e quase impossibilidade de comprar livros novos Meu amigo, ganhar não é comprar.  É o único de meus amigos que tem a barba cheia, o mundo não sabe apreciá-lo, não conhece a alegria de sua proximidade em uma mesa de café, ao redor de uma pizza, a seu lado, caminhando, na calçada, na parte velha da cidade. 

Esses são os quatro amigos.

Prague, Hrabal

Ratos diversos

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 26, 2014

Emputecido com aquele sacana, pensei Porra, que rato filadaputa!

Momento menor, ato reflexo do pensamento e, portanto, irrefletido: faux pas semântico, pois assim insultava o rato, toda a espécie, e nada mais.

Me ocorreu que há um momento no Diário de Manhattan, de Néstor Sanchez, em que ele menciona um rato do Harlem. O diário, sabemos, consome pouco tempo na vida de Sanchez, no início do inverno de 1975, e consiste em anotações muito breves devotadas principalmente ao sucesso de seus exercícios físico-espirituais, aprendidos com Gurdjieff (sendo destro, só escrever com a mão esquerda; em hipótese alguma cruzar as pernas; carregar os pertences em uma sacola, mantendo sempre as mãos livres; nos sonhos, tentar ver a própria mão, etc). Me afeiçoei muito a esse texto, nem sei a razão, o que talvez fale de uma verdade do afeto que justifica meu retorno ao texto, minha certeza de que o texto me diz algo, e continua dizendo a cada leitura. Há um diálogo platônico no qual se diz, como um elogio à fala, que um texto escrito, ao ser interpelado, sempre lhe responde o mesmo: vê-se que Platão era um asno ou, no mínimo, péssimo leitor.

Aqui está Sanchez, em Manhattan, com muito frio, e se propõe, como um exercício, a passar uma noite no Harlem, na rua, dormindo na rua – ou, pelo menos, sobrevivendo à noite na rua. Não é sua Nova Iorque hipster e asséptica: é 1975, uma cidade suja e putona, o cenário de Taxi Driver, a Times Square comentada por Delany em Times Square Red, Times Square Blue. Então tem esse sudaca doidão: é um homem que ignorou seu único filho por mais de vinte anos; é um autor que tinha sucesso, foi resenhado positivamente por Cortázar, imaginem o que era isso em 1971? Mas Sanchez caga pra tudo e, cheio de lances espirituais levados muitíssimo a sério, vai passar a noite no Harlem:

segunda 8

O vandalismo, sobretudo em crianças e jovens, é comentado com frequência como um grave problema nacional. Não há dúvida: visitando ontem a universidade, impressionou o espétaculo da esficácia destruidora em tudo, de novo o alarde da feiúra, somado à grosseria e ao grito de tudo. Vida neurótica do homem americano, que se proibiu o sussurro. Inconstância neurótica, ninfomaníaca, da mulher americana, que se proibiu o desejo futuro.

Tentando dormir no Harlem; primeiro, me aproximei de um latão de lixo em que improvisaram uma fogueira, fisionomias hostis, não fui bem-vindo. Impossibilidade do gesto solidário, subhumanidade. Em um beco, me encosto em uma porta que parece não ter sido aberta há muito tempo, e a temperatura, aqui, está melhor. Quando me aquieto e começo a me aquecer sinto algo e, levando a mão às costas, toco um rato, querendo também se aquecer. Nenhum temor de parte a parte.

“Nenhum temor de parte a parte”: esse trecho poderia ter sido o alvo de um comentário de Levrero em seu “momento rato”, no Diario de un canalla — ao falar de seu oposto, está falando da mesma coisa. O incidente funciona como uma espécie de parêntese à inauguração do leitmotif das pombas, que vai percorrer quase tudo que Levrero escreve desse texto até o fim, e que vai protagonizar a deriva de La novela luminosa. É também um dos raros momentos em que se tematiza, de maneira algo positiva, a condição filial: em Levrero o filho é estorvo (Juan Ignacio, em El discurso vacío), ou invisível, está à margem, não faz tema (sua filha, anônima, que recebe parte da bolsa Guggenheim, que tem um filho, em La novela luminosa).

Ora, se as pombas são anúncios do Espírito, o que são os ratos? Diante da resposta fácil (seu anátema), Levrero faz o que sabe fazer: presta atenção, descreve o que vê, e é melhor nem dizer mais: vejam aqui o que aparece quando, depois de passar um tempo brincando com a ratazana que apareceu em seu quintalzinho no prédio da Rua Rodríguez Peña, percebe que a cada movimento de aproximação que faz, o animal se esconde, mas sempre deixa a cauda fora do esconderijo:

Esse detalhe de sua ingenuidade despertou, mais que qualquer outro, uma ternura infinita em mim, uma ternura quase insuportável. Vi naquela ratinho um menino, com toda sua inteligencia, mas também com toda sua falta de experiência de vida. Quase diria que vi ali um filho. E isso que escrevo agora me umedece os olhos, me faz arder os olhos.

Por fim, há meu rato favorito na História da Literatura – uma descrição magnífica da amizade, do afeto, da gentileza gratuita e recíproca – que aparece num dos trechos do diário de Jules Renard que foi depois recolhido no Histoires naturelles. Renard está só em La Gloriette, é noite, e ele escreve: escreve precisamente a página que estamos lendo. A cada momento em que começa a escrever, percebe que um som parece fazer eco ao rangido da pena na página. Para de escrever, o outro som para; volta a escrever, o sonzinho volta. É só um murmúrio de um eco, mas há intenção, supõe Renard. Imagine o lampião, imagine o silêncio, o gradual teste empírico de hipóteses, até que Renard se dá conta: é um ratinho, roendo o pé da mesa. No silêncio total, o rato, ressabiado, espera. Mas quando há o som da escrita, o rato rói, tranquilo, a mesa, e se conforta, e Renard continua escrevendo, e nos descrevendo isso, e comenta que o rato, mais confiante, se aproxima, e começa a roer o seu tamanco.

j_renard_Gloriette

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 15, 2014

Sei que pouco antes de morrer Sebald andava interessado em Clarence Schmidt, e é curioso ver como o verbete pra Schmidt na wikipedia diz que ele construiu sua grande obra, a casa que denominou de “Milagre da Montanha”, usando “objetos encontrados e materiais reciclados” – o que me parece descrição bem razoável para o que o próprio Sebald fez. Seja como for, eu ia gostar de ler esse ensaio, pensei enquanto lia hoje mais uma vez aquela coisa linda que Sebald escreveu sobre Walser, e imagino se nada sobrou, se não há notas, uma coisinha.

Sei que não, pois D, que trabalhou nos arquivos Sebald em Marbach, me disse Não tem nada, Antonio. O cara preparou o túmulo mesmo. Estava já tudo organizado: os postais, as notas, as fotos, as referências a documentos e originais em uma caixa por cada livro. Consciente como ninguém do monstro do fundo do mar que pode ser um arquivo literário, Sebald parecia estar dizendo para a posteridade Pessoal, por favor, procurem em outro lugar. Mas onde? Il n’y a pas de hors-archive.

 

Não é curioso? O sujeito faz uma obra cuja grandeza se deve em boa medida ao jeito como resiste a um modelo de ordenação de uma barafunda arquivística, que explora e retorce para inventar histórias de paralelismo errático, cujo desenrolar parece fumaça de cigarro subindo: você se habitua ao comportamento da fumaça e, especialmente se for fumante, prevê e inventa formas, forjando a variedade e o jogo no interior do hábito, como parte de seu exercício, de seu tédio. O que interessa é que estamos bem longe da linha reta, e qualquer ventinho bagunça seu coreto. Resultado: um conjunto de textos cheios de fotos borradas, documentos rasurados, ilustrações de enciclopédias datadas, alusões  voláteis, falhas; o agregado disso (e não a intenção subjacente à agregação) é sua força. Essa obra é a própria versão literária da casa de Schmidt:

cs

Quanto mais leio a recepção, e mais me aporrinho com insistências funcionalizadoras, exercendo muita pressão hermenêutica para fazer a obra falar de reparação, trauma, holocausto etc, mais penso que seus melhores momentos são aqueles em que se expõe seu cimento de betume, precário e inflamável, deixando a descoberto que sua grandeza é só outro nome pra sua fragilidade. Se há uma nota de rodapé que me parece ser feita pela obra, não é ao silenciamento do povo alemão com relação à guerra – isso é o que Nabokov chamava de “topical trash”, é o momento didático, me pergunto quem precisa disso, que melancólico o pleito perene de alguns que circundam a literatura por “relevância” e “justificação”. Se a obra é nota de rodapé, provavelmente não é à História, mas talvez ao comentário de Walser a Seelig, Não vim pra cá pra escrever, vim pra cá para ficar louco. 

 

 

Cecil Taylor

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 10, 2014

Venho lendo e pensando sobre Cecil Taylor ultimamente. Venho nos ultimos anos, na verdade – mas, nos ultimos dois, tres meses, por conta de um ensaio que planejo escrever sobre César Aira, Cecil Taylor tem aparecido mais.

Um domingo, fim de tarde, eu estava vendo o programa do Arthur da Távola, Arte de ver, arte de ouvir.  Eu devia ter onze, doze anos, então isso é uma lembrança de 84, 85, e esse programa é tão remoto que não achei nada no youtube, nenhum vestígio. Imagino que foi algo que peguei com meu pai: que meu pai estava assistindo isso algum dia, algum fim de domingo, e fiquei ali, junto, e assim fiquei com a lembrança de ver o programa. A ideia de se tratar de um hábito pode muito bem ser fictícia, pois há impressão de regularidade, mas de lembrança do programa tenho apenas uma vaga recuperação geral: exposições do Arthur da Távola, comentando alguma obra, algum autor, seguida de um momento em que o título se justificava. Lembro, assim, de incidentes, de lances do programa, e de alguma maneira da proximidade de meu pai – mas mais adiante comentarei mais sobre certa improbabilidade aqui.

Um dos incidentes passa por uma exposição longa a respeito de Itzhak Perlman, e o Arthur da Távola falava algo sobre os dedos gordinhos do Perlman, do cenho, das expressões no rosto – e a isso se segue, acho, a execução de algum movimento de um concerto de Beethoven. E em outro incidente ele fala de Cecil Taylor e – disso lembro vivamente – diz como Taylor encarna o artista, e é como se ele estivesse falando em maiúsculas, e ele diz “as mãos, a postura, o cabelo, tudo”. E então vejo Cecil Taylor, numa televisão Telefunken, num apartamento de um conjunto habitacional do BNH em Salvador. E, como talvez dissesse Barthes a respeito de algo semelhante, “Isso pega”.

Mas o que mesmo? É, como disse outro dia aos alunos, o estranhamento. É ostranenie, é isso: a ruptura fica, marca, e perdura. Da música, não faço ideia e, mesmo hoje, 25 anos depois, tendo já ouvido o diabo, ranjo os dentes ouvindo essa musica: como se para ela não houvesse aprendizado na mesma medida em que não há esquecimento. Começo a ouvir, ranjo os dentes, interrompo a musica e, se for o caso, que venha outra coisa, outro jazz, mas algo que nao faça isso comigo. Gera algo curioso, pois parece que, na mesma medida em que não consigo fazer nada com a musica, ela sempre parece ser capaz de fazer a mesma coisa comigo, e em parte o que ela faz é me retornar àquela condição de contato infantil e atônito.  E há uns dez anos, quando conheci esse texto de Aira, Cecil Taylor – uma espécie de biografia dos primeiros anos de Taylor, ou um breve ensaio sobre a construção de um nome de artista, ou uma narrativa sobre o novo na arte: vai saber, com Aira nunca se sabe -, isso também pegou, e continuou como algo lido, relido, aproveitado em margem de desperdício, quer dizer: não sei bem o que fazer com isso, mas me sinto impelido a fazer algo com isso e, na falta do saber o que fazer, me gasto em torno disso. Com o texto, quero o que sei que a musica me negou. Mas nem assim, por força de desejo, sou menos órfão, menos vão: continuo à toa e, como se vê, derivativo, e não sei o que está acontecendo, nem na música, nem no texto. O fato é que percebo que parece que vou envelhecendo só pra achar cada vez mais frágil saber. Vejo alunos, colegas, amigos, todos cheios de suas peremptoriedades. Mas, na hora de botar o meu saber na mesa, vou ter bem pouco a meu favor a não ser coisas como essa foto, linda, do Cecil Taylor, que imprimi e coloquei diante de mim como um talismã. Para que (a superstição, o pensamento mágico) me desse sorte nesse ensaio, talvez. Me servisse de escudo contra a desonra que seria sacanear uma coisa íntegra – como essa foto, aquele ensaio, ou a lembrança do dia em que vi Cecil Taylor na televisão – com nada mais que minha ansiedade de aparição na cultura, ou com a empáfia tola, impregnada de voz ardida e certeza, dessa urgência por relevância tão própria de nossa época.

CecilTaylor

 

“Eu também tô lendo Karl Ove”

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on abril 8, 2014

Estou lendo os livros do Karl Ove. Milhares de noruegueses e suecos já leram, e aqui estou correndo atrás, esperando as traduções saírem, ávido. Não sei exatamente o que os livros tem, e como eles fazem o que fazem: isso me interessa, pois é parte de meu trabalho examinar essas questões. Mas, por enquanto, estou lendo os livros do Karl Ove como se fosse possível apenas ler os livros do Karl Ove. Coisa vã: acho estúpida a alusão a Proust, que virou um vício do cachimbo da recepção, e outro dia vi um sujeito comparando o Karl Ove a, valha-nos deus, FranzenNada a ver, cara, pensei. Nada a ver.

Estava eu portanto com meu Karl Ove na mão, já o volume 3, e lembrando de coisas que a C falou sobre a vida na Noruega, sobre os anos que ela passou na Noruega e sobre como tem sido bom pra ela ler o Karl Ove e lembrar dessas coisas. Sim, eu tenho sido evangélico com o Karl Ove, eu tenho presenteado as pessoas com o livro, tenho insistido para que leiam, tenho dito Leia, cara, é bom, ou Rapaz, esse livro é do caralho, ou O melhor livro que eu li ano passado foi esse, e coisas da mesma estirpe.

Sendo as coisas como são estava eu assim sentado no sofá ao lado de minha sogra que, diante da novela na TV, dizia, não exatamente pra mim, mas pra qualquer audiência que tivesse, inclusive a dela mesma, que Nessa novela não acontece nada mas eu não consigo deixar de ver essa porcaria! Fala enfática, declaração de perplexidade: constata-se uma falência, mas apesar disso afirma-se um sucesso; constata-se uma falência e talvez exatamente por isso verifica-se um sucesso. A audiência diz que o gênero está sendo violado: viola-se o gênero, rompe-se o pacto, frustram-se expectativas. E todavia: ouvindo minha sogra comentar a novela respondi É, eu também tô lendo Karl Ove. Mas respondi isso comigo mesmo, sem falar.

 

“Estudando Lydia Davis”

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on abril 4, 2014

A acabou de assistir a uma conferência de uma escritora muito apreciada por B, seu amigo.

“Conferência” é uma má palavra, pois tratou-se de um desses incidentes do campo literário, cada vez mais comuns, em que um autor é convidado para ler trechos de sua produção e responder às questões ou de um animador, ou da audiência, ou das duas fontes, ou nenhuma questão. A autora compôs a noite na companhia de um autor que, embora seja infinitamente mais popular, é considerado por B um energúmeno, um “idiota glorificado” – como lembra A, que estava presente, ao lembrar do amigo, e daquilo em que o amigo pensa, e do modo como o amigo fala o que pensa. Então temos aqui A, assistindo a uma, digamos, conferência, ou palestra, ou fala, ou leitura de trechos de textos com direito ou não a questões. Enquanto assiste, A pensa em B, ou talvez fosse melhor dizer que o pensamento de A ligeiramente toca B, as coisas que já conversaram ou partilharam, a presença difusa de B em seu gosto literário, e em particular o fato de B gostar muito do trabalho da autora que está agora falando enquanto A, digamos, pensa em B. Estamos tratando aqui de uma conexão que é ao mesmo tempo mais espessa (é possível que A sequer estivesse aqui não fosse pela ação evangélica de B com relação ao trabalho da autora) e muito mais diáfana (pensa-se em Odo Marquard, em Aristóteles, nas contas a pagar, numa mulher: algo se espicaça e concentra em um fino foco, e longe, longe disso a vaga presença do amigo na memória A, que sequer se articula plenamente em pensamentos do tipo “B ia adorar isso”, que só vão acontecer depois, quando A contar a B o ocorrido).

A autora, após seu desempenho no palco, ainda vai autografar exemplares do livro que está lançando, e A pensa que irá agradar seu amigo com um livro com um autógrafo da autora que ambos admiram mas que, como já sabemos, B admirou antes, B divulgou, B insistiu para que o amigo lesse, fazendo assim dela uma espécie de propriedade de B, um seu direito de precedência e pioneirismo e, por tudo isso, A decide presentear o amigo com um livro autografado pela autora. Para isso, A entra na fila, imensa, de membros da audiência interessados em prolongar seu encontro com a autora ou em conferir uma fixação mnemônica particular à sessão que acabou de ocorrer ou em incrementar o valor do livro recém-adquirido ou em uma série de outras razões – são muitos, a fila é imensa. A entra na fila e, em poucos minutos, é acometido de uma puta vontade de mijar.

“Acometido” é uma má palavra, uma vez que o que está em jogo não tem nada a ver com cacofonia fisiológica de nenhuma ordem. A tomou uma bebida antes de vir, tomou um café ainda antes, e pela ordem natural do funcionamento do corpo humano o que cabe é que o líquido solicite também, uma vez metabolizado, sua excreção.  A já tinha consciência de sua vontade de urinar desde quando estava lá, na audiência, sentado, ouvido os proferimentos do idiota glorificado que fez companhia à autora que aprecia: sua distração e seu tédio provavelmente propiciaram vantagem ao corpo, a uma certa inquietude e desconforto na cadeira, ao gesto de ajeitar o suéter, afastando ele da barriga com um beliscão discreto que já foi, em outra situação, observado por B, que é o tipo de pessoa que observa essas coisas nos amigos e que, ainda, aprecia a autora porque ela parece ser o tipo de pessoa que observa essas coisas em tudo, e B acredita que aí há alguma espécie de moralidade ou exemplaridade, e essa é uma das fontes de sua admiração por ela assim como uma das fontes de sua admiração por A é a maneira como ele afasta o suéter da barriga, o jeito como ele faz perguntas e usa o termo “Camarada”, as mãos que ele tem e muito frequentemente, em febre de eloquência etílica, se movimentam com a graça dos pães que Chaplin uma vez fez dançar no conhecido filme. É aí, nesse momento em que afasta o suéter da barriga, que A se dá de que está com vontade de mijar, e trata-se então de uma situação que é como um chamado do seu nome quando você passeia numa vizinhança estranha de um país que não é o seu, uma improbabilidade mas ainda assim você olha, você busca quem exercita o verbo com seu nome, quem lhe reconheceu, e assim A acolhe a vontade de mijar ligeiramente, com um meneio de cabeça, digamos, ou um “Porra” espiritual, bem diáfano, leve, reconhecendo em si a companhia do mijo, sabedor da fonte originária desse processo típico de nosso funcionamento , o conhaque, a água, o café e lá está a vontade mijar e ao reconhecer isso A a deixa lá, e lá ela fica até que, por força da passagem do tempo e de uma série de outros fatores que são próprios das contingências misteriosas do corpo lá está A na fila, a dez, quinze pessoas da autora, muito perto de conseguir o autógrafo para B, e percebe que não vai conseguir esperar mais, que precisa urgentemente ir ao banheiro e, enquanto hesita pela última vez, ponderando ainda coisas de força de vontade e do tipo “Já esperei até agora”, a autora, em um hiato no que está fazendo que é, provavelmente, hiato pra ela também, uma pausa, um silêncio entre um solicitante e outro a depositar um livro diante dela, proferindo palavras de praxe, trocando sorrisos, nessa pausa que num outro sentido não é absolutamente pausa, pois o processo continua, a autora ergue os olhos, olha para a fila, e seu olhar encontra o de A. E é aí, e só aí, que ele enfim se autoriza a sair da fila, correr para o banheiro, experimentar a conhecida mescla de aflição extrema e alívio justo, e contar depois para B o que passou e o porquê.

lydia

 

 

 

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on novembro 28, 2013

Aqui está Barthes, olhem a cara dele:

Imagem

 

Barthes, desamparado, perplexo, coitado. A foto está no Barthes por Barthes, e sua legenda graciosa é “Tédio: a mesa-redonda”.

Ontem, tentando arrumar as gavetas de quatro anos de trabalho em um setor da universidade que há pouco deixou de ser o meu, encontrei anotações de eventos, de mesas-redondas, de bancas. Há muita coisa no espectro emocional ali consignado, mas não “tédio”. Aparece, antes, “desperdício”, e a ideia reiterada de tempo jogado fora, de dispêndio vão de si. Aparece o patético: dos outros, em sua vaidade e auto-elogio: não sei como vou aguentar ainda mais vinte, trinta anos de carreira em torno de pessoas tão grosseiras a ponto de não perder uma chance de repousar um louro a mais na própria coroa, gente que tem a si mesmo e suas glórias como assunto predileto, usurários usurpadores inclementes do lance fraterno e solidário do ouvir. Quanto charlatanismo, quanta ânsia de protagonismo, quando desejo de ser amado, adorado e louvado. Para isso, não seria tédio a resposta, mas a pouca utilizada referência à gastura é que me pareceria própria: está gastando essa chateação, não se quer mais ouvir. O que se elogia estou condenando agora a um inferno de prolongamento da própria voz, e ao consumo da hóstia consagrada da bajulação de sua beleza, excelência, invulgaridade. Ao raio que o parta. 

Aparece nessas notas também o patético de si, em ponto menor, pois assim como os falastrões supracitados me julgo mal, sei menos de mim do que talvez devesse, e me dou a direitos, como me impacientar, me irritar, demandar, exigir, aplicando régua ao mundo, ah, mundo melhor o feito por mim. Então, como ontem, leio a mim mesmo e penso Ridículo!, e me acho coberto de razão, errando de novo, evidentemente, talvez pelo peso de abusos e excessos praticados ou sofridos alhures.

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on novembro 26, 2013

Estava escrevendo um ensaio sobre Levrero, o primeiro que escrevo sobre sua obra, e na verdade algo menos, menor que um ensaio: era uma participação em uma mesa-redonda, um discurso breve, de meia hora, para uma audiência heterogênea.

Me custou escrever: havia muito o que dizer, ou assim imaginava, e havia um ruído de fundo que tem me esgarçado um pouco, sedando certas habilidades, me deixando em geral um pouco distraído mas, o que é um pouco lamentável, não inconsequente. Assim, o quadro é tal que a preocupação vem, com sua gana de consumo, mas gera pouco resultado, como se eu testemunhasse a aflição sem medo, mas sabendo de seus custos. Lembro de fingir que era um fantasma me cobrindo com um lençol e acreditar que as pessoas não sabiam quem eu era: é algo dessa ordem. Ao longo do último mês fui lendo e amealhando notas e notas sobre La Novela Luminosa, e fui conduzindo essas notas ao estado de ensaio, construindo um argumento nas fichas, cotejando a marginalia com o que já tinha lido de recepção a Levrero. Muita coisa, muita confusão: não é assim que se faz, não é assim que se fala. Uma coisa de cada vez.

A primeira ideia que tive para o texto foi explorar uma espécie de epistemologia de esquerda que aparece em Levrero e que passa pela valorização de incidentes sincrônicos, de eventos de ocorrência relativamente frequente para mim também, mas que tendem a ser deslidos pela gente como nada. Para isso me ajudavam alguns ensaios formidáveis da Luciana Martinez, que exploravam justamente essas conexões, digamos, parapsicólogicas em Levrero, e que avançavam no entendimento de uma proposta particular de saber literário, de saber da literatura, saber da ficção, que emana de alguns de seus escritos, em especial de La Novela Luminosa.  Isso foi reforçado por um post e uma conversa com o Rafael, quando nos encontramos lá na Tijuca, da última vez que estive no Rio. O que é que magnetiza o evento coincidente, os fatos do mundo que convergem com os fatos da leitura, quando se lê esse livro que tematiza justamente isso? É efeito do deslocamento de atenção que o próprio livro provoca, atraindo nosso olhar para matéria em geral presente, mas que tende a se fazer mais saliente ao observarmos que lá, na narrativa, o personagem com o qual estamos convivendo está prestando atenção nessas coisas?

A primeira vez que ouvi falar em Levrero estava em Buenos Aires, em 2008, indo lá pela primeira vez, gastando o que não podia comprando livros na Hernandez da Corrientes, e ao meu lado ouvi um homem falar em Portunhol fluente com o vendedor, indagando Que teneis de Mario Levrero? E então eles entabulam uma conversa, discreta e fugidia, e parece que me lembro de falarem sobre a “trilogia”, e que a certa altura o homem – grande, gordo, careca, branco, seus quarenta e tantos anos, terno e gravata, digamos um advogado gaúcho – diz ao vendedor Soy brasileño, e então me distraio da conversa alheia, registro o nome do autor, a coisa sobre a trilogia, e sigo meu caminho. Hoje duvido que essa tivesse sido uma primeira vez, pois o que teria trazido à minha porta aquelas palavras, aquele intercurso entre cliente e vendedor? Muito se ouve, tanto se esquece, mas de onde a durabilidade daquilo. Assim é que anos depois, quando estava lá em Buenos Aires de novo, já muito íntimo da cidade ou assim me achando, quando saí da casa de Cesar Aira e fui caminhando Rivadavia afora em direção à UBA – para desanuviar, para espairecer, para deixar que algo em mim perdurasse, ou permanecesse – me embrenhei na universidade, lá fiz minhas coisas, ou fingi que fiz, e na saída entrei naquela livraria logo ali, no quarteirão seguinte, Gambito de Alfil: excelente acervo, excelente livreiro, adorador, como tantos argentinos, do Presidente Lula. Estou então cruzando a rua, de olho no kiosko, pois sinto sede, está um pouco frio, e olho pro relógio, tenho tempo, entro na livraria, me lembro do leitor de Levrero de anos antes, em outra vida minha, em outra livraria, em outra rua de Buenos Aires, e vejo imediatamente um exemplar de La Novela Luminosa diante de mim, no primeiro balcão que paro para examinar. A precognição talvez seja muito subestimada, não sei se tinha tido uma impressão fugacíssima do livro antes da lembrança, me parece que a lembrança fez o livro aparecer diante de mim, que a memória me moveu e ajudou, Teneis algo de Levrero? A lembrança foi o amigo a me conduzir naquela hora cheia de misturas, de agonia, de aflição, mas também das felicidades todas que a Argentina sempre foi pra mim, Soy brasileño, e me pergunto por que não assim, se assim foi pra mim.

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on outubro 22, 2013

Me dei conta de que desde que meu pai morreu só li coisas em torno do tema. Reli Patrimônio, de Roth, nos dias depois do funeral: tinha me esquecido de muita coisa, e muito do que li pareceu novo, tocado pelo incidente recente. Lembrei de andar com meu pai pelo Comércio, pela região onde ele trabalhava e onde eu costumava encontrar ele para almoçar nos últimos anos: a gente andava por ali e eu às vezes mencionava uma ou outra coisa de um passeio semelhante na infância, quando ele me levava lá nos sábados de manhã. Eu lembrava de umas escadarias sinistras de madeira, e do ambiente das oficinas de alfaiataria, daqueles coroas todos com a fita métrica ao redor do pescoço, uma estola laica e operária que, junto com um certo bem-vestir, era diacrítico do ofício, eu estava aprendendo. Qual será o diacrítico do meu?, penso, agora, já extenuado e sem saber se é mesmo Paul Auster quem diz de como se consumiu ao saber da morte do pai, e de como a morte do pai se confundia com seu desaparecimento. Com meu pai não: ele está presente, e semana passada mesmo estive naquela região e subindo o elevador me vi de novo no retorno de tantos almoços com ele, e me pensei passeando com ele mais uma vez por ali, conversando sobre política, trabalho, mulheres, livros, os dois infensos ao passar do tempo o que quer dizer, claro, imunes aos respectivos funerais, como é de praxe, aliás, e que bom. Pois há uma oscilação entre sempre lembrar que vai acabar e passar e sempre esquecer do mesmo, e a faca corta dos dois lados, então foi assim que me vi ali, outro dia mesmo, saindo do Elevador e pensando que eu só estava lendo esses livros sobre pai, morte, perda, o Roth, o Karl Ove, o Diário do Luto do Barthes, eu tentando escrever sem conseguir, consumido e infeliz, no meio do caminho e meio sem vontade de ir pra alhures. Na frente do elevador, passei um tempo enorme, como se fosse nada, tentando e sem conseguir, incapaz de escrever, em outro lugar.

Um dia, em Belo Horizonte, encontrei no Mercado Central o cara que me atendia no restaurante japonês: ele estava de bermuda, comprando os ingredientes, conversando com todo mundo. O cumprimentei, ele me cumprimentou, e ao longo dos próximos onze, doze anos isso se repetiu, a gente se cumprimentava no mercado, e se encontrava no restaurante de novo, e assim ia. O restaurante era um desses em que aparentemente a família toda trabalha e mora: uma casa grande, uma comida que nunca mudou, um negocio que nunca se expandiu. Umas vezes eu via uma senhora já bem idosa com um carrinho de bebê, cuidando de uma criança.

Quando voltei para Salvador, descobri aqui perto de casa um pizzaiolo que me lembrava aquele cara de Belo Horizonte. Ele morava em uma casa também: abriu a garagem e a transformou em uma pizzaria pequena, fez um forno de tijolo, varias vezes eu passava e via ele limpando o forno, a pia, no iniciozinho da noite. Varias vezes fui la, não lembro qual foi a primeira vez: ele me atende, é uma pizza boa, honesta, só nos fins de semana ele trabalha com um ajudante que atende o telefone e um cara de moto que faz a entrega. Logo mais se for lá aposto que ele vai estar limpando o forno, começando o negócio dele pra hoje. E se eu estivesse hoje à tarde no Mercado Central de Belo Horizonte, naquele horário em que tantas vezes estive lá fazendo hora, esperando a van pra Divinópolis, perigava eu encontrar o mesmo cara do restaurante lá também, fazendo suas coisas, e a gente ia se cumprimentar etc

Então um homem está aí, começando seus negócios do dia, seu trabalho, arrumando sua oficina, criando condições. Aqui estão os seus afazeres, suas responsabilidades, eis aqui como você vai ganhar seu dinheiro. Meu pai uma vez me contou que costumava ficar encostado num poste perto de casa sábado à tarde, quando voltava do trabalho: só ali, passando o tempo, olhando as mulheres provavelmente, se aclimatando ao fim de semana miúdo do pobre, e saindo de casa. Um dia, disse, ouviu uma voz lhe dizendo Saia daí, rapaz. Vá pra casa! e ele, que não tinha mesmo nada melhor pra fazer, saiu, e foi: isso foi em 60, 61 talvez, muito antes de mim, e assim não é sempre? Para o coração, a vida é simples.  Um homem está aí, cuidando de suas contas, amealhando suas coisas, fazendo palavras-cruzadas, gastando fantasia, começando seus negócios na vida, sem trabalho, arrumando sua criação, tendo um filho, sendo sarcástico, perdendo também, evidentemente, apesar de tudo, por tudo. Compra os ingredientes, limpa seu forno, arruma a oficina, atende o telefone, comenta, opina, come, pensa. Aqui estavam seus gostos, suas coisas, aquilo em que se investiu e errou ou acertou pouco se me dá pois agora, agora não se faz mais nada, foi.

 

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