ensaio

Em Julho de

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on julho 15, 2013

Em Julho de 2013 decidi voltar a escrever posts aqui: poucos, como sempre foi, e com minha pausa habitual, pois não sei de outro jeito, só tenho esse jeito, lamentavelmente. Queria continuar o que comecei no último post: escrever sobre os bastidores do trabalho de resenhista – escrever sobre o que poderia ser pedantemente descrito como a poética de um gênero menor ou, com menos pedantismo e, provavelmente, mais felicidade, sobre o caminho entre o desejo de escrever sobre um livro, a demanda do jornal, a leitura do material e o que enfim é publicado como resenha. Isso me interessa por várias razões – há meu trabalho como professor, que sempre passa por aí, por algo da ordem do processo de fatura de textos que comentam matéria literária; há a celebração de um momento menor e quase sempre privado ou de pouca audiência, que está acontecendo o tempo todo, ruído branco na comoção geralmente histriônica do campo literário; há meu interesse por coisas fudidas pras quais pouca gente presta atenção. Dessa vez, ia comentar a última resenha que publiquei, e como o resultado nada revela – e, na verdade, veta – o monte de peripécias em torno dessa publicação. Ia falar sobre como descobri a autora e como a expressão “Estudando Lydia Davis” virou uma piada doméstica; falar como fiquei satisfeito ao saber da tradução, e como aporrinhei o pessoal do jornal para que pudesse resenhar. Depois, introduzindo alguma quebra no texto, ia contar como o prazo final pra resenha me pegou na nossa grande quinzena das manifestações, e como tudo se atrapalhou, todas as vontades e planos e direcionamentos cotidianos, e terminei pedindo adiamento ao editor, e enfim produzindo a resenha de uma sentada, no último momento do último dia de prazo que eu tinha. Falaria, concluindo, como essa pressão particular provocou certo tipo de relaxamento e esquecimento, que talvez tenha se traduzido em um texto mais arejado; comentaria como o texto muito lido e conhecido se incrusta na memória, e na exigência do comentário se transforma em outra coisa, uma espécie de fruição às avessas; falaria que, ao terminar a resenha, pensei em comentar o caso com os alunos, aludindo à conexão, nesse trabalho, entre cumprimento de prazo e reputação, e falando das moedas morais que correm no campo literário (e isso, pelo menos, terminei fazendo mesmo).

Imagem

Tudo falido, pois sobre nada disso consegui escrever. Até tirei foto das fichas que usei na resenha, pensando em reiterar um comentário que vivo fazendo sobre as etapas da fatura e a fatura da anotação, mas mesmo com esse tipo de gracejo a la Barthes a coisa se provou demasiado lisa, volátil, chata, e capitulei. E depois, lendo, me interrompi voltando ao problema da razão do não escrever. De onde vem a dificuldade?, pensei. Lembrei de blogs como os do K e o do Monte: mil diferenças entre os dois, mas em ambos o exercício do muito, não apenas ler muito mas muito escrever sobre o lido, quase diariamente um post, mais um texto feito, algo dito. Mesmo o Ad Man, que tanto admiro, e que trabalha numa cadência mais esporádica: não dou conta.

Eu naufrago nessa abundância: não tenho, nunca tive tanta força, nem tanto desejo de escrever e de dizer – e aí talvez seja o caso de pensar que força e desejo são sinônimos. Escrever me dá um trabalho do cão – ou então escrevo algo que sequer tem valor para mim, que sou o juiz mais laxista de mim mesmo (que saco cheio de autores elogiando seu altíssimo crivo crítico: você é sempre, necessariamente, o pior juiz do que escreve, o mais incompetente de todos, o ridículo-mor). Preciso de muito desejo pra escrever, pensei. E o que fazer quando não encontro esse desejo? Ou o que fazer quando, malgrado o desejo, o texto se cancela, e infelicita, a cada passo – pois todo texto aparece in media res, e sua vida está a caminho, paralela e incidental, mas o texto é também seu trabalho, e nesse seu trabalho se depositam, embaraçadas, sua reputação, sua vaidade, seu juízo de valor e excelência. No meio da frase que eu queria formular e não produzi está a força da falência do que ela nunca iria conseguir dizer – está também a minha filha doente, meus problemas de dinheiro, meus pseudo-amigos vermes, o reaparecimento do autor-pateta que há anos me escreveu mensagens risíveis por uma resenha ruim que publiquei de um livro dele, os trezentos outros planos que me carregam para mais e mais textos que vou escrever, que não vou escrever, até, é claro, de um jeito ou de outro, morrer. Pensei naquela frase que atribuem a Foucault, “Como faremos para desaparecer?” Não há problema, pensei, Isso tá garantidoNão vou escrever mais nada. 

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História abreviada dos livros que publiquei

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 13, 2011

Lancei três livros até agora.

O primeiro foi uma coletânea de textos do Rorty: três conferências, um texto autobiográfico, um texto de prognóstico e profecia: todos traduzidos com muita alegria por mim, em meu velho Mac Classic, e revisados em conversas com minha então orientadora. O livro contava ainda com uma introdução que eu e ela escrevemos juntos e com uma orelha generosa do Luiz Eduardo Soares. Nunca houve lançamento desse livro, nunca dei autógrafo, e sequer fui remunerado pelo trabalho; a edição se esgotou, e eu mesmo só tenho um exemplar. Lembro de ter ficado feliz quando apareceu, lembro de ter achado bonito e de ter sentido orgulho.

O segundo foi um livro que resultou de um prêmio que recebi de um banco interessado em promover a cultura: meu nome saiu na capa, junto com o de outros onze premiados, e o livro é esse balaio, sem outro norte a não ser o conferido pela premiação. O texto que saiu nesse livro me trouxe muita alegria: talvez pela primeira vez tenha me arriscado, tenha escrito algo sem saber direito o que escrevia. Era, é claro, apenas um ensaio: comentário, crítica, que é tudo que escrevi até agora, tudo que escrevo. Mas era também uma outra volta do negócio: acreditei  que o texto honrava minha relação com o Autor que comentava, e não me sentia perseguido pelo medo do erro.  Depois desse livro fiquei um tempo cheio de sonhos loucos de um novo começo, acreditei que estava descobrindo algo a respeito da escritura. Eu era e sou um filho de Barthes – bastardo e tardio e não-planejado, mas amado, no amor que vai de mim pra ele, sempre – e estava descobrindo aos trinta e poucos anos o que, enfim, se queria dizer com a distinção escrevência/ escritura. Mas, é claro, nada ocorreu, pois assim é a vida: as coisas só ocorrem às vezes, seria talvez o caso de compreender isso que chamamos de adventício a partir de outra matriz de valoração – pois vivemos todos mais ou menos escravos da razão prática e da lógica do resultado, do suposto matrimônio de trabalho e amor, mas o que fazer de amores de dissipação, de forças-de-vontade que se esgarçam sem muito ônus, sem muita preocupação com operações monumentais de fixação de marcos de passagem – o que fazer? Claro está que, se a pessoa pensa em coisas assim, apenas ocorreu algo da mesma ordem daquilo que nutriu a fatura do ensaio que propiciou essa forma peculiar de aprendizagem e alegria que nunca se fixou nem em conquista nem em método nem em transformação da vida nem em epifania – e, como tudo o mais, também se foi.

O terceiro foi um livro que escrevi sem saber que estava escrevendo, pois o que estava escrevendo eram uns artigos com um amigo pra uns eventos acadêmicos que foram aparecendo. Me impressiona observar o pouco que lembro hoje de como foram escritos esses textos: o que lembro é do período, e isso é como lembrar do conjunto, mas não do conteúdo, e só são coisas vagas, minha dureza eterna, o apartamento, os livros, a mesa, a cama, os cigarros, uma lâmpada que eu adorava, as estantes que eu fiz. Mas lembro, claro, da amizade: lembro da presença dessa pessoa, meu amigo, o co-Autor, em minha vida, como uma pontuação: a primeira vez que nos encontramos, conversa X, conversa Y, conversa Z, visitas, saídas, risadas, conselhos; sua insistência para que eu parasse de fumar e começasse a nadar, a diferença na ordenação e no suposto projeto de nossas vidas, o gosto musical lastimável que até hoje o caracteriza. Uma vez viajamos os dois para a Europa e não nos encontramos em Praga por dias de diferença – e, depois, rimos ao pensar no encontro fortuito, ele de terno e com toda pompa e circunstância, eu de mochila e o antípoda da pompa. Outra vez, na véspera de minha defesa de doutorado, nos encontramos sem marcar nada na hora do almoço no restaurante japonês que, seis anos antes, eu tinha apresentado a ele. E outra vez liguei pra ele de um orelhão porque me sentia totalmente solitário, e achava que ninguém mais poderia ter algum interesse em me ouvir a não ser, talvez, ele – o que nos diz que o melodrama, como Puig bem sabia (e Barthes também), tem sua zona de pertinência facilmente verificável na carne de quem o vive, onde habita como punctum.

Esses são os livros que há, mas há também os que virão.

Um próximo contará como, ao longo de sete anos, persegui um projeto de escrever uma biografia de um Autor que admiro e naufraguei seguidamente. O livro será a contrafação do insucesso que constitui sua matéria; vou gostar muito de escrevê-lo mas será, é claro, pouco lido e logo esquecido.

Um outro será uma investida de reescrita crítica de alguns textos que admiro mas que julgo problemáticos e enfadonhos, são como uma refeição boa que melhoraria com o apropriado condimento. Assim, em um dos contos veremos trechos do Diário de Moscou, de Benjamin, mas com um pouco de sexo, por favor, pois tanto tesão pela Asja não sobreviveria sem alguma puta, sem alguma masturbação, sem subir pelas paredes em ardor. Em outro, pego dois de Os Três Mosqueteiros e os coloco a caminhar por uma alameda a discutir algumas questões menos monárquicas, e mais suculentas: Athos descobre uma forma de proto-Marxismo, e começa a temperar suas análises de conjuntura com essa mirada oblíqua, sugerindo estratégia a partir de pressupostos Revolucionários. Um terceiro e último conto – pois o livro será também, evidentemente, uma homenagem a Flaubert, dispensável para ele mas necessária para mim – será a história de um arqueólogo jovem, em início de carreira, escavando em Túnis e descobrindo ruínas com inscrições, textos antigos que contam uma história alternativa à que é contada em Salammbô: o arqueólogo ignora Flaubert e, enquanto ele pensa ver a escrita da História nós, que lemos a história dele, sabemos que já não sabemos mais qual é o fim da Ficção. O livro será um exemplo de crítica como prática revisionista da literatura – e será demolido pelos neoconservadores da crítica, esses que ainda estão de fraldas agora mas estarão de dedo em riste no futuro próximo, prontos a antagonizar tudo que seja um mundo que não seja o seu – mas se pagará plenamente pelas gargalhadas que darei ao escrevê-lo, e será lembrado, de vez em quando, por meus amigos.

Há um outro, por fim, um livro meio acadêmico, que coleta todas as coisas lindas que o Kelvin me sugeriu ao longo dos anos. Tio Toni, porque você não escreve aquela história do grego em Nova York? ou E aquele texto que você disse que ia fazer comparando o minimalismo de Carver ao de Lydia Davis, hein? Cadê? Tinha até título, o título ficou bacana. ou Você lembra que me disse uma vez que tinha um ensaio sobre o Diário do ano da peste, de Defoe? Que fim levou esse texto?  Esse livro escreverei sem esforço quase nenhum, o que é uma mentira, e será um bom começo portanto para um livro que só tratará de fatos: nele, vou incluir aquele trecho do meu diário no qual conto a respeito do dia em que atravessamos a Avenida Paulista, eu e o Kelvin, de ponta a ponta, o passeio acompanhado de uma inigualável conversa fiada na qual falamos inclusive de Saer, e que escrevi como se fosse uma versão 2.0 de Glosa – pardacenta, turbulenta, edulcorada, mas minha, enfim meu manifesto de libertação do jugo da prosa de Saer. Sei muito pouco sobre esse livro além disso, mas sempre imagino que vou estar feliz no dia do lançamento.


Exercícios de Crítica Literária Contemporânea

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 5, 2011

1.

O comentário biográfico incide reiteradamente sobre dois processos em Henry James.

Um, é seu tartamudear: não é de forma alguma uma gagueira, mas uma enunciação hesitante e tateante que o persegue desde muito cedo. Não há gravações de James, mas podemos imaginar a sequência de Well… Uhm… I mean… So… etc

Outro é o uso que faz de um amanuense: por volta dos 50 anos, James começa a manifestar os sintomas do que hoje é a conhecida Síndrome do Túnel do Carpo e, como uma resolução para seu sofrimento cotidiano, contrata um copista. É possível imaginá-lo, a partir desse momento, alterando sua rotina de trabalho, e incorporando ao seu processo composicional um deambular pela sala, um ir e vir que ocorre em paralelo à enunciação enquanto o copista, silencioso, oculto, atento, copia.

Estabeleça um paralelo entre os incidentes citados e as peculiaridades do discurso indireto livre na obra tardia de James, com particular atenção a The Golden Bowl.

2.

Em 1942, Bowles se mudou para um apartamento na 14th St com a 7th Ave. O ocupante anterior tinha sido Duchamp e, assim, eles se conheceram.

Improvise.

3. 

É conhecida a afirmação de Piglia: A critica é uma das formas modernas da autobiografia. Um sujeito escreve sua vida quando crê estar escrevendo suas leituras.

Disserte sobre o tema, considerando as manifestações em A, B, e C.

Post à maneira do Kelvin

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on setembro 17, 2010

Consta que Schklovsky nomeou um de seus textos autobiográficos de As Três Fábricas como um comentário à natureza de pura reprodução da família, da escola, e do partido. Máquinas produzindo peças que irão incrementar a máquina para produzir peças que irão incrementar a máquina para produzir peças. Posso imaginar Schklovsky concebendo o título e achando bom, achando graça, achando que era um título apropriado.  Na segunda parte de seu Uma viagem sentimental, cujo sugestivo título é “Escrivaninha”, Schklovsky conta como um marinheiro grego foi capturado em ação e, na sequência, interrogado por um cara da polícia secreta soviética: a certa altura, há uma injeção de cânfora, mas mesmo assim o homem nada diz. Embora não diga de onde vem tal convicção, Schklovsky está certo de que os dois, interrogante e interrogado, se conhecem, se conheciam anteriormente. No dia seguinte, com o prisioneiro morto, os outros soldados se dedicam a explorar e cutucar seu enorme corpo, buscando evidência do perecimento necessário da carne, talvez, ou confirmação da realidade do custo da fibra moral e do silêncio.  Então, em uma sentença excepcional e enigmática, Schklovsky diz A música divina dessa cadeia infeliz caminha incólume aqui.

Ouvi dizer também, de um professor que tive na graduação, um velho comunista com sua respectiva escara de batalha, um andar claudicante e uma bengala, que Victor Serge ficou que nem uma nau à deriva por um tempo, e isso não apenas simbolicamente, mas de fato: era passageiro de um navio de cruzeiro, e sua condição de deportado da França fez com que vários países recusassem sua entrada. Martinica, Cuba, República Dominicana, todos disseram não ao velho comunista (no Haiti ele nem tentou entrar, pois não era estúpido). E eis que enfim o México abre os braços para Serge, que lá sobrevive mais uns anos – poucos, mas o suficiente para escrever O Caso Tulayev. Vivia, sabemos, em grande pobreza, mas pode alguém ser demasiado pobre no México? O que é um terno puído na Calle Tenochtitlán em uma manhã de sábado ensolarada e seca, o que é sua jornada única numa cidade de tantos milhões? Poeira das ruas ele mesmo, Serge era um comunista perdido no México, que o abrigou e nutriu sua maior obra.

Não espanta, portanto, que um pária maior, este homem que elevou a condição de sem-teto à categoria de Arte Pura, Roberto Bolaño, tenha encontrado no México um lugar não só para si, mas também para sua ficção eivada de filhosdaputa, fodidos, perdidos, ópera bufa da ruína, tendo sido ele mesmo espalhado pela América Latina com as honras de um periquito nu, tendo eternamente a si e pouco mais como argumento final. Amalfitano, com seu livro de geometria lançado à intempérie, com sua tese sobre intelectuais latino-americanos, com seu delírio manso diante dos alunos e com o próprio Ocidente indo às migalhas em seus diagramas, é um poeta da impossibilidade do Ocidente, um canto de cisne que poderia ter sido previsto por Benjamin. Está dizendo Aqui, não, enquanto seca ao sol um livro de geometria, que confina os rituais de uma ficção mais antiga e mais longeva que as tramas baratas dos livros que Arturo Belano lia sob o chuveiro em seu périplo burro e triste. Mas, sabemos, a miséria e a morte estão à espreita, e a voz mansa que fala a Amalfitano bem podia lhe dizer A música divina dessa cadeia infeliz caminha incólume aqui.

Blogologia – 1

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on junho 2, 2010

Como já comentei aqui antes, este blog busca se aproximar de outros, que servem de modelos com relação aos quais meço meu sucesso relativo aqui. Claro, isso deve ser tomado cum grano salis – isso não é uma corrida de cavalos, e efetivamente estou apenas falando, de um jeito que julgo mais acertado, desse negócio que vai por aí chamado de “inspiração”. Se escrevo esse blog é porque, antes, li outros – e, tendo lido, quis escrever também, participar da conversação desse jeito particular que se configura quando você escreve. Sei que muitos de meus alunos ficarão horrorizados ao se defrontar mais uma vez com esse pronunciamento, mas é o tipo da Verdade que clama por enunciação desde o Início dos Tempos: a gente lê primeiro e depois, eventualmente, escreve. Isso, que está sendo escrito aqui, segue essa cadeia causal, assim como tudo o mais que já escrevi e provavelmente que escreverei.

Assim, vejam aqui algumas fontes deste blog:

1. Il Miglior Fabbro. DP, Mojo-man, escreveu por um tempo o melhor blog que li, o que mais curti ler: eu dava aulas de Inglês em horários ridículos, encarava todo tipo de problemas de um professor subalterno, que ao mesmo tempo era um profissional em formação – mas eu sempre encontrava algum tipo de consolação boeciana nos textos desse senhor. Hj o blog é um finado, mas pode-se ver pelos fósseis espalhados na web que o material era fino. Depois houve uma outra investida, no esquema dos Amores Expressos – e mais uma vez DP se notabilizou e distinguiu. The motherfucker just can’t help it.

2. O Amigo. Maurício Raposo foi um dos poucos amigos que fiz na época do mestrado; depois que paramos de nos ver e falar – e isso durou anos, viagens minhas, viagens dele, casamentos meus, casamentos dele – só sabia dele por seu blog. Que era sempre bom, que tinha uma pegada fenomenal, que parecia ser movido por um pathos todo particular que eu teria de renascer pra encarnar. Um dia pensei isso mesmo: que só com uma biografia como a dele se escrevem coisas como essa, ou essa, ou esse projeto de pastiche de Eça. Às vezes penso que em minha hora final lembrarei dele, com sua calça de moleton às avessas, sua barba por fazer, suas fitas de Neubaten, seus cigarros amassados, sua voz molenga de ex-carioca. Direi, com muita dificuldade, Raposão… e ele, em silêncio total, sem nenhuma hesitação, acenderá um Marlboro e o colocará entre meus dedos, trêmulos e marcados de velhice e leitura, como os dele. Acenderá um pra ele também e começará a recitar, em Alemão, aquela passagem dos Tagebuchen de Kafka que eu tanto gosto. Amigo é pra essas coisas, também.

3. Gringos acadêmicos. Modelos de excelência impressionantes – como esses caras conseguem? como produzem tempo, e disponibilidade, para encarar essas caixas de comentários voluptuosas? enigmas. Destaco três, com considerável variedade: o superprofissa Michael Berubé (veja esse post aqui, observe a sagacidade no uso dos links, a condução esperta de um argumento complexo, mas exposto com tranquilidade, passo a passo), o brasileiro-cum-cajun Idelber Avelar (que deu um tempo no blog, e isso já faz um bom tempo – mas como ele escrevia: veja aqui uma página qualquer, que não escolhi por ser especial para mim por alguma razão, mas justo por revelar o que era a ordem do dia quando o blog funcionava: vai do conflito entre Israel e Palestina até Cássia Eller, do importante ao trivial, do legal ao brega), e esse anônimo blogueiro que descobri graças ao DP (veja que manifestações magníficas essa e essa aqui – observe como o segundo é uma cápsula de etnografia da literatura contemporânea, ou das práticas que fazem isso que chamamos de “campo literário”). Diante desses, só me resta dizer Porra.

E vejam que nem mencionei o Kelvin, ou o Douglas, ou o Xerxenesky, ou esse negócio muito impressionante que o Berna vem fazendo quietinho, há anos, ou ainda esse projeto de comunidade imaginada dos Mesquita Bros & Co. E há mais, muito mais: ruim, bom, razoável, sofrível, risível, constrangedor. O negócio é abundante, e o problema não é – provavelmente nunca é – a escassez de recursos.  E qual é, então, o problema?, você se pergunta. E eu, que sou de poucas perguntas, tomo emprestado essa sua e pergunto a Adorno, na praia.

Opoyaz, ganha-pão

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on junho 2, 2010

Eis que Kelvin aparece com mais dois posts muito bons, aqui e aqui. Ele está falando de coisas em meu terreno – que é também, em certa medida, o dele. Em que pesem todas as diferenças geracionais e estilísticas, ler, falar e escrever sobre Saer, Piglia, e mesmo Aira é parte do que põe o pão na mesa pra nós dois – nós dois participamos dessa fortuna.

Falei pra um amigo outro dia, Esses blogs são minha Opoyaz. Claro: uma Opoyaz ralé, pós-pós-tudo, cheia de Pro-Ams, sem tanta solidificação quanto sua matriz e inspiradora involuntária, sem manifesto, provavelmente mais apta a acolher diferença e vacilação que a versão anterior, privada de gênios. Mas é um coletivo que mantém uma rotina de conversações e barganhas que nutre as produções de cada um; com sua particularidade faz uma coisa que, independente de qualquer telos desejado ou projetado, é vida literária no século XXI.

Por exemplo: há alguns dias, o assim-chamado Andreis Passarinho publicou em seu blog uma análise sinóptica do trabalho de Bernardo Carvalho. É um post de umas mil palavras, mais de seis mil caracteres: é bem mais do que tenho quando escrevo pro jornal. Salvo engano, aí está ele a usar seu blog para fazer um negócio que, na falta de melhor palavra, é crítica literária. Observem que o crítico anota a obra, se posiciona, exibe o comentário na esfera pública – se isso ainda não é crítica, não sei o que é, e vou me poupar de brandir Terry Eagleton por hora.

Postei em uma comunidade do Orkut que modero um comentário sobre o texto do Andreis; disse:

Eu concordo e discordo ao mesmo tempo com quase tudo! O básico é que os aspectos que o crítico usa para malhar são para mim sinal de excelência: acho que BC se esforçou bastante para produzir dois grandes livros – o Nove Noites e o Sol se põe em São Paulo – e agora está iniciando um outro negócio, que vamos ver no que vai dar.

Eu teria, terei muito mais a falar sobre BC – como vcs ja sabem. Já escrevi sobre o cara, e não tenho problema em dizer que o “estudo”, que o que ele faz é incorporado por mim a parte de meu trabalho tb. Mas, antes de meter minha colher, queria ver o que vcs acham do post aí. O que vcs acham?

E, em questão de horas, li que o Diego Giesel pensava que

AM, quando o Andreis falou sobre o Vida modo de usar eu pensei a mesma coisa. Concordo e discordo.

E que o Refrator de Curvelo, por sua vez, achava que

Não. Eu tendo a concordar. Estou mesmo incomodado com as coisas que o Andreis escreveu. E não se enganem. Defendi, com relativo sucesso, nosso Bernardo Carvalho em algumas situações e tenho o sujeito como um baita artesão de letras que, inclusive, me causa inveja. É bom ter por aí alguém que sabe o que está fazendo. Mas falta algo.

Não gosto, contudo, de pensar que a responsabilidade do que falta é do Bernardo Carvalho. Esta é uma perspectiva crítica desmobilizadora, e muito cínica. Falta que os sujeitos que tenha coragem para errar consigam fazer isso com competência, e não com a cara cheia de pó ou coisa parecida. Que BC é um engenheiro, isso é. Que faz transplantes narrativos (coisa que o Andrei não fala, mas me salta aos olhos; é fácil encontrar Perec em “Teatro”; Bernhard em “As iniciais”; Chatwin em “Nove noites” – e encontrar eu digo encontrar, mesmo, como se fosse para tomar um chazinho ou encher a cara), também está lá. E faz bem, com maestria. O que está faltando é o resto que Bernardo Carvalho não é. Inclusive, ele não é outras pessoas. E isso, hoje, não temos. Outras pessoas.

C´est ça.

E já o Leandro disse

Eu também concordo e discordo ao mesmo tempo com quase tudo. Nove Noites e O Filho da Mãe são dois grandes livros. AM, acho que o O Sol se põe… tem um grande defeito, de inserir uma personagem que não tem nenhuma utilidade (a irmã do protagonista no Japão). O defeito que ele vê, de alguém que trabalha sempre com as mesmas peças, pra mim é uma grande qualidade. Algo failbettter.

Há outras contribuições, mas vou abdicar de arrolar todas aqui. Agora me diga você a que vem interditar essa conversa do status de crítica. Vá lá que não é Teoria, não se trata disso  mas há, aqui, especulação e empenho da atenção no tratamento da “matéria literária”. Claro: o estado é de embrião, e precisa de mais tempo e condições para acontecer, e só eventualmente se transforma, e sai dessa coisa mais dispersa e ligeira para virar outra coisa, coagulada em um comentário mais recheado de argumentos e com a devida arrecadação de evidências e desfile de justificativas. Observe que nesses comentarinhos, que seus autores escreveram provavelmente entre uma obrigação e outra, no meio de um dia ordinário, ou se refastelando numa procastinação comezinha e culpadinha, como é por exemplo do meu feitio, há, principalmente, leitura, e conversação sobre a leitura – e sem esses dois ingredientes, nosso ganha-pão cai por terra fácil.

Esse ganha-pão é difícil, mas também bom. Pode ser executado com retidão, e pode ser feito de maneira escrotinha. Pode se beneficiar muito de uma certa obnubilação – que, se vampirizada com destreza, garantirá ao picareta um modus vivendi relativamente folgado e privilegiado, com pouca chance de desmascaramento público – e é sempre bom lembrar que a casa também faz às vezes de asilo de dementes, de inviáveis alhures que aqui encontram abrigo. Esse ganha-pão pode, enfim, trazer uma alegria no processo, um esquecimento eventual do produto que se liga a recuperações infantis, a curiosidades atiçadas ad eternum, e distribui epifanias no ordinário; mas pode ser uma faina frustrante e amarga também, uma litania do ganho pouco, do me falta, etc.  É ainda possível que, como diz Bloom, esse negócio esteja agora em sua condição crepuscular. Mas, claro, ainda não: não viveremos pra ver isso.

Opoyaz on the beach

Na praia com Sylvia Plath

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 21, 2010

1. Sloterdjik/ Zizek. Um dia fui numa conferência do Zizek. Uma anomalia: um domingo ensolarado, um centro de cultura alemã, Zizek com duas rodelas imensas de suor debaixo do sovaco de uma camisa com um desenho do Mickey. Todavia, como às vezes acontece, é na morada do bizarro que encontramos a companhia amiga que mais nos é cara. Pois a meio caminho de sua exuberante e careta superinterpretação de They Live, de John Carpenter, Zizek vai e menciona mais ou menos o seguinte:

O Ocidente projeta uma imagem de si mesmo como sendo fundado na necessidade de compreender o Outro. Ora, talvez a proposta de Sloterdjik seja bem mais próxima do que é o caso. Sloterdjik diz que progresso social é criar mais e melhores condições para ignorar o Outro. Compreender dá muito trabalho, e mesmo a performance da compreensão, que ocupa tantas vezes o lugar da própria coisa, dá muito trabalho. Não quero compreender meu vizinho: quero poder ignorá-lo, e ser ignorado por ele.

Há algo duro e cínico aí, e a extensão indiscriminada desse ethos me envergonharia – claro, sou um velho nerd pós-humanista, mal e porcamente informado sobre o contemporâneo. Mas volta e meia penso nisso, nos usos disso. E em particular, penso nisso quando estou nadando. Hoje de manhã mesmo: um dia sombrio, gelado, daqui da janela nuvens carregadas. Chuva, talvez; mais certo era um dia frio, um vento cortante aqui na descida da ladeira, aquelas lufadas vindas do mar que enchem o agasalho. Nem hesitei, nem me passou pela cabeça não ir. E fui. Lá na piscina estava só, junto com dez pessoas, que salvo a mais elementar polidez (“Bom dia”, “Tá usando a prancha?”) ignorei.

2. Utilidade Pública. Projeto inovador e arrojado do camarada DP, que aparece aqui para enlevo de todos.

3. Leituras de fim de semana. Como sempre, a ganância me domina. Mas deve ser algo que inclua a) Shklovsky, A sentimental journey: Memoirs, 1917-1922 ou b) The Letters of John Cheever ou c) Carola Saavedra, Paisagem com dromedário ou d) Margulies, Rites of realism. Além disso, posso garantir que, em algum momento do fim de semana pensarei em a) Henry James (O Mestre, Pessoal, O Mestre!) b) Bolaño (2666 tá na boca do povo, e tem até concurso de resenhas no site da editora!) c) Kelvin (amigo é pra essas coisas) e d) Sylvia Plath.

Como é do conhecimento de vocês, a grande anomalia nessa lista é a presença da famosa poeta suicida. Mas observem essa foto:  imaginem uma poesia de pouca morte, de nenhum desejo de morrer, como a que nós temos quando estamos felizes o suficiente para ir à praia, e uma pessoa querida quer uma foto nossa, e nem pensamos antes de sorrir para a câmera, para o sol, para o resto do dia, para o resto dos dias.

Taprobana, Bowles

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 21, 2010

1. A primeira vez que li Paul Bowles foi na biblioteca: eu passava muito tempo lá, às vezes tentando estudar, mas na maioria das vezes só explorando, e foi assim que encontrei o livro na estante. Achei curioso, não sabia nada sobre o autor, mas vi que tinha uma introdução do Gore Vidal – desse eu já tinha ouvido falar. Li a introdução, que me deixou ainda mais interessado – mencionava, claro, o Marrocos, e o caráter escandaloso de algumas narrativas. E por isso, por causa de minha necessidade de negligenciar minhas obrigações, matar o tempo e me esquecer de mim mesmo, de uma introdução de Gore Vidal, e de meu interesse por histórias escandalosas, comecei a ler Bowles – lá se vão vinte anos.

2. Quando eu estava fazendo o doutorado, volta e meia acalentava a idéia de usar a história de “Um episódio distante” como uma espécie de pano de fundo alegórico para o que eu pretendia discutir na tese: lembro de ficar sentado em uma poltrona velha que eu tinha herdado do espólio da mãe de um professor – lembro que li Vida: Modo de Usar nessa poltrona – até tarde, com uma prancheta na mão e um caderno, rabiscando idéias em torno disso, um cinzeiro que eu tinha apoiado no braço da poltrona, um suéter gasto que eu sempre usava dentro de casa.

O conto, como sabemos, é apenas um momento em uma matriz que Bowles perseguiu e reiterou muitas vezes, e fala de um linguista que perde a língua e a razão em uma aventura oriental. Eu achava que isso dizia muito, que teria muito a dizer com isso. Não tinha, não tive, nem tenho: tudo que essa história tem a me dizer já foi dito, e foi dito pelo Autor e por seus personagens, dito para mim com todas as letras desde a primeira vez que a história foi lida, numa biblioteca, em Salvador, em 1990. Nenhuma alegoria, nenhuma lição, nada a dizer: já devo ter lido essa história umas dez vezes, e a reli há dois ou três dias, no dia em que escrevi outro post sobre Bowles.

3. Durante muito tempo não soube qual era a cara de Bowles, até que um dia encontrei uma foto: ele está com a mulher, Jane, em um barco, ou coisa do gênero: a cena é muito bonita e, ao mesmo tempo, discreta, doméstica. Vemos o assanho que a embarcação provoca na água, no lado esquerdo da foto, o lado pro qual eles estão olhando; o sol está na frente do rosto de ambos; o espaço à direita é só a quietude opressora do mar aberto, só água até o horizonte. Nenhum deles olha para a câmera, Paul está sem camisa; ninguém está exatamente sorrindo, mas é fácil ficar com a impressão de que o sorriso está por perto, e que isso é bom.

A essa altura eu já tinha lido que Bowles chegou efetivamente a adquirir – comprar, possuir, ter – a ilha de Taprobana com a grana que ganhou por causa do sucesso editorial de O céu que nos protege. Invejei muito isso. Que maravilha deve ser, pensava, poder realizar tanto, ser tão premiado por ter escrito um livro. Imaginava um lugar magnífico, senhorial e um pouco descascado – mas lindo, sempre lindo, com uma beleza abrupta e enigmática só amaciada pela umidade insistente dos trópicos, e ainda com uma população nativa imprecisa, interessante, ritualística. Com tudo isso, imaginei que essa foto retratava um momento da vida do casal nessa ilha – que os dois estavam ali celebrando sossegados e satisfeitos a Sorte Grande, a Grande Oportunidade que deve ser amar e ser amado e ter uma ilha inteira só para viver e conversar de literatura vida afora. Depois, lendo biografias de Bowles, descobri que estava enganado – mas que fazer? Essa foto é linda.

Olavo de Carvalho, Caralho

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 19, 2010

A conexão aventura e leitura nada tem de necessariamente generalizável: pode ser ausente e inócua para muitos. Mas, para mim, está sempre em alguma medida na pauta. O regime hermenêutico que aplico em geral tende a passar por uma memória anguladora da leitura tout court, e isso, que foi construído quando era criança, significava ler Julio Verne, Emilio Salgari, Malba Tahan. Embora funcione a posteriori de um jeito que é próprio de um certo profissionalismo e do que chamamos de aprendizado, há uma força na cena primária, e a avaliação do que aconteceu entre o leitor e o livro, ao passar por essa peneira da “aventura”, termina sempre virando uma resposta que dou à pergunta Saí do lugar? Há um momento em que Perec fala da atitude do garoto que, com o livro à sua frente, parece em prontidão para o mergulho no livro: essa atitude, essa prontidão para o acontecimento, e a compatível disponibilidade para se deslocar – é disso que essa pergunta fala.

Por isso hoje, conversando com o Tiago sobre o Kelvin – que anda interessado em umas coisas demoníacas – disse Pois é, outro dia a gente tava até conversando sobre The Secret Sharer, T. Acho que ele tá numas de explorar esses temas, Outro, Alteridade, e foi até que chegou naquele lance ali do post. Ele mesmo me falou mais cedo Ah, esse post hoje eu escrevi sem entender, Tio.

“Escrevi sem entender”: achei bom isso, e fiquei um tempo pensando no que isso quer dizer – e vejam vocês que achei bom primeiro, e só depois fiquei ruminando pra fazer a derivação interpretativa que me permitiria, entre outras coisas, mencionar o post do Kelvin aqui e quem sabe até comentar sobre esse problema – a saber, como um escritor pode escrever sem entender, em certa medida, o que escreve – com meus alunos amanhã. Poderia falar também sobre a questão, que tanto tem me interessado, da construção das identidades de Autor e Crítico como negociações com o Duplo, com esse Outro representado na literatura tantas vezes como anátema, ou como nêmesis. E Tiago aproveitou a deixa e disse Ah, falando em nêmesis, olha aqui esse negócio e na hora me enviou (estávamos no gtalk) isso:  

Contar a história é o primeiro nível de elaboração da experiência. O romancista não escreve para explicar nada, mas para registrar um conjunto de experiências reais ou imaginárias cujo nexo último lhe escapa, cujo sentido ele só apreende como forma estética, não como conceito explicativo. Daí o sentimento de descoberta, e ao mesmo tempo de perplexidade, que nos assalta ao lermos um bom romance. Ele nos mostra algo de muito importante, mas que não sabemos precisamente o que seja. Por isso é que ninguém pode dizer qual “o” sentido de um romance. Ele tem necessariamente muitos, e até contraditórios. Um romance é um conjunto articulado de símbolos, e um símbolo, como ensinava Susanne K. Langer, é “uma matriz de intelecções” – não a expressão alegórica de intelecções prévias. Um romance deve dar o que pensar, não um pensamento pronto. Por isso é que homens de idéias, pensadores, ideólogos, formadores de opinião, fracassam com tanta freqüência ao escrever romances: eles falam daquilo que já entenderam, não nos dão uma experiência viva carregada de mistério, de perguntas sem resposta.

Li, e prontamente disse E o que é que tem de nêmesis aí? Eu concordo com isso. Posso caçar confusão, claro – Langer? Uma distribuição infeliz de cópulas e modais – a literatura é, a literatura deve… fala sério, né? Um tom metafísico de fundo, essas coisas – mas tem uma evocação do caralho da descoberta, da aventura, do risco, isso é bacana, em linhas gerais acho que é isso mesmo. Tem um problema epistemológico que raramente é colocado aí que acho legal também: se você retira a parte desse texto que é celebração da Metafísica da Presença, ainda tem uma coisa, e isso me parece mais significativo, que tem a ver com descoberta sem método, com saber produzido a partir de não-saber em literatura, e você sabe que eu gosto dessas coisas. Não vi nada de nêmesis. Mané.

E ele respondeu É Olavo de Carvalho, Toni.

E é isso: você nunca pode saber de onde vai aparecer o cúmplice secreto, aquele que parece com você, aquele por quem você vai se arriscar, sem saber ao certo a razão do risco, duvidando toda hora do valor do risco – mas prosseguindo mesmo assim.

Encontrei o Kelvin no Café Nice

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 7, 2010

Senhoras e senhores, ofereço para o seu desfrute mais um post formidável do Kelvin: eu não ia conseguir fazer melhor nem se tentasse muito.

Fiquei com saudade da época em que a gente se encontrava pra tomar café, eu a fumar um cigarro (muita saudade de fumar um cigarro), ali no Café Nice: nossas conversas eram ótimas, ele sempre estava de bom humor e, apesar do tom às vezes muito amargo que eu queria imprimir ao que falava, eu também, embora a gente soubesse que ia sair dali e encarar a faina inacreditável de lecionar cinco aulas de língua seguidas, eu de Inglês, ele de Alemão.  Vida dura, mas que tinha suas alegrias, como essa aqui, hoje, também tem seus ossos e sua saúde. Pois é.