ensaio

Saída à Francesa

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on março 14, 2011

Você vem trabalhando há quase um ano em uma biografia: um texto que deve narrar, em alguma medida, episódios da vida de um autor argentino que viveu a maior parte de sua vida na França e morreu recentemente. Suas razões para o empenho são, em certa medida, ponderáveis e solidárias, mas tem também sua cota de obscuridade. Você crê, por exemplo, que parte de seu interesse em produzir uma biografia e em se dedicar com tanto afinco a esse trabalho em particular confirma um traço seu que, na falta de maior possibilidade de precisão semântica vou chamar no momento de subalternidade eletiva: você não deseja ocupar o centro do palco nem em seu próprio livro, quer viver como uma nota marginal a uma reputação já construída, que é a do Autor, e a sua própria reputação seria manobrada obliquamente, adjacente à daquele autor que você admira, e valorizada pela eventual astúcia de uma invisibilidade, em uma espécie de eterna saída à francesa.

Considerando uma insistência do Autor em uma conhecida antinomia de Flaubert – que disse, famosamente, tanto Madame Bovary sou eu quanto Há uma Madame Bovary em cada cidade francesa – você começou a ler biografias de Flaubert e, com isso, lhe ocorreu que não poderia ser de todo ruim ler enfim o Flaubert inteiro, em ordem cronológica, e acabar com isso de uma vez. Ler como se estivesse lendo tudo pela primeira vez (como se isso fosse possível): ler como se estivesse escrevendo uma biografia de Flaubert, ao invés de seu Autor de eleição, numa projeção da qual você espera também retirar alguma coisa, algum insight, alguma sugestão de procedimento ou uma faixa maior de segurança e graça. Você vai ler cada livro de Flaubert, e também os diários de viagem e as cartas; vai ler a biografia de Brown e a de Steegmuller e terminará o esquema lendo mais uma vez o livro que tanto lhe divertiu, o blasfemo e despreocupado Flaubert’s Parrot, de Barnes.

Você está assim, ligeiramente despreocupado, domingo à noite, agora há pouco, vivendo essas suas ficções: que você é um biógrafo, que ler Flaubert lhe faz bem, que você terá tempo. Repleto de boas intenções com seu programa especial, você se vê ao longo da leitura lembrando de outras frases, outras coisas lidas ficam interferindo e chamando sua atenção. É um momento de pequeno horror, você sabe que as frases não são suas, mas você não sabe de quem são, e afinal você também duvida, pode ser que sejam suas mesmo, um artifício de combinatória qualquer que você ignora e, de repente, elas saltam aos olhos porque fazem sentido, porque lhe dizem que tudo que você pensa é usado e de segunda mão, tudo que você vive é mais ou menos caótico, mais ou menos obscuro – e, no entanto, digamos, tudo bem, lá vai você escrevendo a vida de um Autor que você admira e, afinal de contas, de onde vem a admiração senão de um momento de clareza fugaz mas ainda vívido na memória no qual, ao ler, você percebe uma zona de obscuridade em si mesmo, descobre que sabia algo que efetivamente não sabe, mas não importa, pois naquele momento você não se envergonha, você não sabe e nisso, sim, você se dilui, igual a todos e capaz de se esquecer de si mesmo por esse momento que seja, pelo menos.

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Bovarismo, 2666

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on maio 24, 2010

Como é do conhecimento de vocês, a questão do Bovarismo me interessa; creio que é uma espécie de consequencia fatal da leitura de ficção, um efeito colateral incontornável e, talvez, um elemento necessário na produção do desejo de ficção – seja de sua leitura, seja de sua produção. Há anos faço anotações sobre isso, partindo de uma observação inicial de Piglia, que em um texto conhecido alude ao célebre abraço no cavalo de Nietzsche em Turim como uma instância de bovarismo. Venho compilando eventos, incidentes, observações e citações ligadas ao tema – venho ensaiando escrever um ensaio que redescreva e recupere o termo, colocando-o, na circulação conceitual sobre ficção contemporânea, como parceiro de noções como “pastiche” e “auto-ficção”. A coisa, afinal, é simples, e parece útil justamente por isso: lemos e, tendo lido, balizamos nosso contato com a suposta realidade de maneira diferente – eventualmente, nos esforçamos para produzir conexões entre o lido e o feito; eventualmente testemunhamos essas conexões sem que nossa agência tenha sido necessária para produzi-las.

Há o clichê Uma imagem vale mais do que mil palavras etc. Obviamente, considerando minha amizade com as palavras, me disponho a discordar, a César o que é de César, uma imagem diz umas coisas, um texto diz outras, um beijo não anula o outro, e a camaradagem continua. Eis, portanto, a inacreditável imagem: