ensaio

Em maio de

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on agosto 12, 2012

Em Maio de 2009 José Miguel Wisnik veio a Salvador para cumprir uma agenda que, de alguma maneira, passava pela Universidade e pelo grupo de pesquisas com o qual eu trabalho. Eu tinha de fazer umas perguntas para uma entrevista com ele e fiz mas,  quando a entrevista aconteceu, aconteceu sem mim pois, como de costume, lá estava eu, atrasado e aflito, depois da hora até para ter alguma serventia pra mim mesmo.

Hoje, folheando os cadernos aqui querendo achar um negócio que escrevi sobre o Costa Lima, sobre aquele texto do Costa Lima sobre o sistema intelectual brasileiro ser baseado na oralidade etc, encontrei as perguntas:

1. Numa entrevista com Idelber Avelar, você descreve Antonio Candido como  sendo não Romântico, mas Iluminista. É curioso observar essa antinomia sugerida em uma configuração que tomamos como definindo antes o semelhante que o diferente, e muito menos o oposto. Quero dizer: cabe a Iluministas e Românticos sugerir que a forma atual das coisas não é matéria de necessidade e sim de ocasião e, por essa via, indicar que o futuro pode ser diferente do presente. A rota do “Esclarecimento” seria um dos propiciadores dessa transformação, e a rota do “poeta forte”, daquele que encarna em seu ethos e seu modus operandi a forma das coisas que virão, também o é. Mas você está, ao que parece, valorizando diferença, valorizando distinção entre as noções: a que vem isso? Que diferença isso faz para como se lê Antonio Candido?

2. O uso do Pasolini no Veneno Remédio, como você diz, na p. 119, “o esquema de Pasolini, tão simples quanto estimulante pelas perspectivas que abre”. Há uma travessura interessante aqui já que, inclusive pela época de sua fatura – início dos anos 70 – a estratégia de captura dos fenômenos culturais pela semiologia era a bola da vez. Há muita graça nas analogias propostas por Pasolini entre a assinatura, o estilo de certos jogadores e alguns focos interpretativos manjados que usamos na crítica literária: Fulano joga como um poeta maldito, Beltrano joga como um ensaísta, Sicrano joga em prosa poética e o esquema de jogo do técnico Mengano é obviamente decadentista. Etc Ora, seguindo nessa direção, mas torcendo o esquema um pouco e torcendo pra que você acolha jocosamente a condição de sinuca que para você pode estar se avizinhando, o que você faria em termos de um improviso associativo com o campo da produção e da crítica literária brasileira? Quem seria o Didi em nosso campo crítico, quem seria o Garrincha, quem o Pelé, o Serginho Chulapa, o Edmundo Animal, o Ronaldinho Gaucho? E o Zico?

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I am Assange

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on dezembro 9, 2010

Muitos vão duvidar, assim como eu duvido agora de mim mesmo, mas vou mencionar Saramago laudatoriamente, utilizá-lo e, com isso, enviar meus leitores à leitura dele. O que, convenhamos, não é de todo mau.

O caso está em A Jangada de Pedra, que foi o primeiro livro dele que li, em um verão bem distante, quando ainda dividia apartamento com Dick Noir, e que li por recomendação dele. O mote do livro, sabemos, é que a península ibérica se descola do resto do continente – fica aí, uma massa de terra, o que se faz com ela, aterrorizando o Atlântico, solta. Há um belo momento, quando a ficha cai, os Europeus se apercebem do que está em jogo com a península à deriva e, como sempre, nas engajadas universidades parisienses começam a dizer Eu também sou Ibérico. O que, entendi, queria dizer Eu também sou Outro, ou Sem o Outro não sou eu – algo dessa ordem. É lindo, é uma apoteose, um florescimento. Se esgarça, obviamente, o livro tem outros destinos, o Autor deseja, nesse caso creio que desgraçadamente, muito mais. Mas é uma onda, é emocionante, e também diz algo, pois o incidente está repleto daquilo que faz com que ainda hoje falemos “Maio de 68” – há aí coisas ditas, coisas feitas, e fermento imaginário e conversacional fazendo o evento crescer e se sedimentar como um fato que sempre ultrapassa o slogan que, supostamente, o define.

Para comentar e situar o caso específico do Wikileaks e da prisão de Assange, não poderia fazer nada melhor que o Avelar já fez aqui – como sempre com a bala na agulha, ele organiza o incidente em uma narrativa, faz do bruhahá um fio na trama do presente, e com isso nos ajuda a produzir sentido e encontrar um lugar na narrativa também. Um lugar que pode ser esse, de dizer Eu sou Assange, Eu  também sou Assange. Isso, em meu caso, quer dizer que não tive a vida aventuresca e heróica que ele teve e tem, e que não estou na berlinda como ele está – mas que há algo de empatia entre o que eu julgo justo e bonito fazer e o que ele passa a ser quando, a respeito dele, podemos dizer coisas assim. E Herói é pra isso mesmo.