ensaio

Em Março de

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on março 4, 2013

Em Março de 2013 saiu uma resenha minha, um comentário sobre um livro do Bolaño, As Agruras do Verdadeiro Tira.

Quando comecei a fazer resenhas com seriedade, em 2003, 2004, tinha como certo que, com o tempo, a coisa ficaria mais fácil. É uma habilidade como qualquer outra, escrever, você aprende com a prática: habitua e treina a mão, reduz o sistema de decisões raciocinadas, automatiza procedimentos. “Vai ficando mais fácil com o tempo”, eu pensava, e via o quanto ainda tinha de editar as minhas anotações para chegar às mil e duzentas palavras, ou equivalente: qualquer que fosse o limite, era um problema.

E, de fato, como dizer que não ficou mais fácil? Anos fazendo a coisa, claro que ficou. Mas essa coisa – como, imagino, qualquer outra associada à literatura – gera suas próprias dificuldades à medida que se encaminha, exsuda uns obstáculos filhosdaputa.

Essa resenha, por exemplo, do Bolaño: li boa parte desse livro na Argentina, quando fui lá em 2011, para um evento sobre Saer. O livro tinha acabado de sair, estava em todas as livrarias, não resisti. Li o abominável prefácio cometido pelo Masoliver Ródenas naquele jardinzinho ao redor da Biblioteca Nacional num dia gelado, depois do almoço: lembro de pensar “Porra, mas que merda esse prólogo, que coisa mais cu” e pensamentos afins, irritado com o imperativo de explicação literária prévia e defesa dos interesses dos que sobrevivem ao Autor. Lembro de comentar o livro com F, que adorou; alguma coisa deve ter aparecido também em minha conversa com o K, em alguma conversa com o K. Essas memórias de leitura não sei como entram na economia da resenha, mas sei que entram, pois tudo isso é combustível, é nutriente para o que se há de fazer no comentário.

Folheei a prova que a editora me enviou, mas o que me serviu mesmo foi o meu original, os velhos grifos, e uma marginália miúda, mas assertiva: eu parti dessas coisas para fazer a resenha e, uma vez que decidi concentrar o texto em Amalfitano, fazer o texto gravitar em torno de Amalfitano, ficou fácil: eu já tinha anotações pra dez resenhas com esse tema. Algumas decisões fundamentais já tomadas (seria necessário comentar algo sobre os gerentes do espólio; a direção seria aprobatória; Amalfitano é um bravo; etc), a coisa se faz sem muito titubeio. “Pronto”, pensei – e me aliviei, pois estava no prazo, o que era muito importante (sempre é: isto também é um negócio, e o prazo é parte do jogo “negócio”), e o resultado era honesto e, na medida do possível, bom.

“Mas será que não dá pra melhorar? Ainda dá tempo.” Ora, claro que dá – e lá fui eu, então, tentar melhorar a resenha; nesse caso, implicou basicamente em elidir, comprimir, reduzir. O que resultou, enfim, nisso:

 

Consta que uma das maiores preocupações de Bolaño em seus últimos dias era garantir o sustento de sua família após sua morte. Preocupou-se à toa. Com a fartura de sucesso que já marcava a recepção de sua obra quando ainda estava vivo e que só se multiplicou – a recepção de seu trabalho está robusta como nunca – e com a notável astúcia gerencial dos administradores de seu espólio literário, recursos não hão de faltar para a sobrevivência de seus dependentes. É pela combinação do sucesso de crítica da obra com o trabalho desses gestores que podemos ter acesso a este As agruras do verdadeiro tira, e isso merece menção por estar associado a uma característica marcante desse livro: seu caráter de esboço, material de trabalho, papéis em processo de uso e elaboração pelo autor, que lembra um ensaio de jazz, de cujos improvisos os músicos vão retirar material para suas composições definitivas.

Inúmeros temas e personagens presentes em outros textos aparecem aqui, e a leitura, para aqueles que já passaram por outros trabalhos de Bolaño, oferecerá a graça adicional do reconhecimento desses trechos, da observação de semelhanças e diferenças entre o que está aqui e o que foi publicado antes em outro lugar. Esse jogo encanta: nos momentos de pura reprodução parece que estamos verificando nossa expertise como leitores, medindo a familiaridade com sua obra pela extensão de nossa capacidade de reconhecimento. Se as semelhanças são notáveis, há também refrações curiosas e surpresas – em particular na maneira como os dois protagonistas, Amalfitano e Arcimboldi (sem o “h”) se articulam no livro, invertendo a ordem de prioridades aparente em 2666.

Redescrito e apresentado sob uma luz trágica algo distinta da que inferimos de sua vida em 2666, Amalfitano é aqui um personagem movido pela descoberta algo tardia, algo casual, de sua homossexualidade, descoberta transformada em escândalo pelo fato de que o alvo de seu desejo é um de seus alunos, um poeta de vinte um anos, Padilla, coisa que o pudibundismo do mundo universitário espanhol não pode tolerar e que motiva sua expulsão da universidade e sua migração para o México. A relação entre os dois constitui o núcleo dramático mais produtivo, e é circundada por todos os demais personagens, com seus dramas particulares: a filha de Amalfitano, Rosa, que vive as dificuldades do deslocamento de Barcelona para o México e da descoberta da homossexualidade do pai; os personagens de Sonora, como Pancho Monje, e os gêmeos Pedro e Pablo, um policial e o outro, acadêmico; o escritor francês J. M. G. Arcimboldi, que tem várias obras descritas e comentadas, teve um de seus livros traduzidos por Amalfitano, e cuja biografia é esboçada em esquetes, a partir de listas de seus amigos, inimigos, e com quem se correspondia. Todos têm seu lugar, e contribuem para o que há de trama aqui – mas esse lugar está situado à periferia do drama do professor de filosofia que se descobre homossexual aos cinquenta anos. Se há um problema e uma investigação aqui – algo que somos levados a crer necessário, dado o título do livro –, consiste em compreender as agruras de Amalfitano, suas negociações consigo mesmo, com os que lhe são próximos e com suas novas circunstâncias.

Ao longo da correspondência que trocam quando já estão distanciados, Padilla comenta com Amalfitano um projeto de romance que ambiciona escrever, O deus dos homossexuais, “o deus dos mendigos, o deus que dorme no chão, nas portas do metrô, o deus dos insones, o deus dos que sempre perderam”.Essas alusões parecem retratar o Grande Romance ambicionado por Bolaño por muito tempo, que encontrou aqui nesse Agruras seu espaço de exercício e experimentação. Com isso, por mais que o que tenhamos aqui seja também algo produzido por mãos alheias ao autor – a viúva e os editores, que decidiram publicar da forma em que está – trata-se de um livro capaz de generosidade suficiente para contemplar o que há de enigmático nas experiências do mais ínfimo e esquecido dos humanos, capaz de acolher o perdedor, o estranho e o fodido no mesmo gesto em que acolhe intensas perplexidades, sofisticadas produções culturais, guerras, convulsões sociais. Tal ambição, que se espalhou por toda sua obra, é admirável, mas a grande raridade é sua realização feliz em literatura, que merece destaque onde quer que se manifeste.

 

É melhor? Se é, de fato, melhor, devo ser capaz de colocar o dedo em cima da melhora e dizer “Aqui, veja: isso estava tosco antes, agora está melhor”. “Antes estava turvo, agora está claro”. “Antes estava obtuso, agora está incisivo”. E assim por diante nessa oposições.  E, se não consigo fazer isso, se não tenho esse tipo de clareza, como posso pensar que está melhor? É como na história de Nabokov: se você não sabe o nome daquela árvore, desista de ser escritor. Ou quase isso.

O fato é que quando meus amigos F, K, R, O e M elogiaram a resenha, destacaram todos como núcleo de interesse e evidência do valor da resenha, de seu acerto como comentário a esse livro, um mesmo trecho – que eu sem hesitar retirei, e que sobreviveu na resenha publicada por obra e graça do meu editor.

Anúncios

3 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. RafaelGutierrez said, on março 6, 2013 at 12:55 am

    vc tinha visto isto aqui do Echavarría?, acho que está em sintonia com tua leitura: http://www.elcultural.es/version_papel/LETRAS/28519/Bolano_Penultimos_sinsabores_de_un_novelista_convertido_en_leyenda

  2. Em Julho de | ensaio said, on julho 15, 2013 at 6:28 pm

    […] minha pausa habitual, pois não sei de outro jeito, só tenho esse jeito, lamentavelmente. Queria continuar o que comecei no último post: escrever sobre os bastidores do trabalho de resenhista – escrever sobre o que poderia ser […]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: