ensaio

Três notas

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on abril 3, 2010

1. Señor Daniel Pellizzari retorna à vida online, sabe-se lá por quanto tempo – é boa notícia.

1.1. Referido senhor, no twitter, indica um blog do qual nunca tinha ouvido falar.

1.1.1. Referido blog, de um acadêmico, parece com o que gostaria que este blog aqui fosse caso desse certo – significando portanto que há uma certa idéia de correção que aplico aqui, significando que este blog tem não apenas um ethos, mas também um telos.

1.1.1.1. Há mais que isso, claro: neste post, por exemplo, me sinto muito próximo do autor: apesar de todas as distâncias (pra começo de conversa, o cara ensina em Londres), seus problemas são os meus também – embora não sejam exatamente iguais, guardam uma inegável semelhança de família com coisas que me afligem e, ao tomar conhecimento dessa semelhança, me vejo devolvido a C. S. Lewis dizendo We read to know we are not alone.  É certo que lemos por mil e uma razões que não essa, mas também é certo que há uma dinâmica de identificação, uma produção de empatia que, embora às vezes de foco errático, faz da leitura isso que me traz até aqui para comentar o blog que o Pellizzari recomendou e daí derivar para mencionar C. S. Lewis. É essa mesma dinâmica que me levava, já faz um tempão, a custear os intervalos de minhas aulas de inglês com a leitura do finado blog do Pellizzari no wunderblogs. Os demais autores desse coletivo me pareciam abominações, e me impressionava ver como se jactavam com facilidade, como se compraziam de si. O que pode levar um cara a achar que é bom ser um reaça colocando pó-de-arroz nas próprias tetas em um arremedo de vir a público?, aquela versão mais naïf se perguntava. No meio dessas coisas, e no meio das hostilidades com as quais eu me deparava quase que cotidianamente, ler o blog do Pellizzari era um bálsamo e um refrigério, meu encontro com um artifício aparentemente feliz de autocriação, o lugar onde aprendi a dar o devido valor ao Fail better.

2. Li no Estadão, numas notinhas que a Raquel Cozer faz no rodapé, que o AX está deixando sua condição de mais ou menos autopublicado e mais ou menos independente para assinar contrato com a Rocco. O parabenizei, claro: é um indicador mais ou menos óbvio de reconhecimento e progresso, imagino que ele esteja feliz e celebrando. E me pergunto: o que será essa experiência? A Punk goes Pro? O que isso representa na construção da autonomia financeira, e essa autonomia o que representa na fertilização de outros trabalhos do autor, e ambas as coisas o que representam no incremento da possibilidade de divulgação do trabalho literário, em auxílio para que esse Autor tenha acesso a mais e melhores leitores?

2.1. Essas questões que me ocorreram com relação ao caso do Xerxenesky – a quem poderia perguntar essas coisas, a quem provavelmente vou perguntar essas coisas – tem a ver com um tema que me interessa e com um texto que estou fazendo (molto lento, lentissimo) sobre Como vivem os Autores.

2.1.1. Como vivem os Autores? De onde tiram os recursos para viver sua vida de Autores, com estilo de Autores, amizades de Autores, consumo de Autores? Não estou interessado nos murmúrios privados da Guilda – aos quais provavelmente não teria acesso – mas sim nos elementos que talvez pudessem ajudar a consolidar uma compreensão dessa profissão no Brasil hoje. Ou então ver se falar em “profissão” é insultar a matéria para seus praticantes – ver se é o caso de recuperar o vocabulário da “vocação”, do “chamamento”, com suas conhecidas implicações de destino, inevitabilidade, abnegação.

2.1.1.1. Tenho pensado nessas coisas e me interessado em fazer esse texto porque com uma frequência cada vez maior ouço colegas falando sobre um curso de “escrita criativa”, a ser inaugurado na universidade em que trabalho. E me pergunto.

3. A resenha mais infeliz que leio em muito tempo é essa. Não seria o caso de examinar aqui com minúcia a natureza das muitas infelicidades desse texto.  Mas talvez seja o caso de pensar sobre o bombástico parágrafo final, e sobre o que esse parágrafo, enquanto instância exemplar, pode nos dizer sobre como um Autor brasileiro contemporâneo comenta o trabalho de outro Autor brasileiro contemporâneo. Pode nos dizer algo? Há algo mais para se dizer sobre isso?

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Uma resposta

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  1. Blogologia – 1 « ensaio said, on junho 2, 2010 at 4:20 pm

    […] – 1 Publicado em Ensaio por antoniomarcospereira em junho 2, 2010 Como já comentei aqui antes, esse blog busca se aproximar de outros, que servem de modelos com relação aos quais meço meu […]


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