ensaio

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on abril 25, 2014

Era uma vez um corvo de quatro patas. Ou melhor, cinco. Era corvo, mas queria ser pica-pau. Ou melhor, humano. Imaginou, de acordo com Maiakovsky, que, se em algum lugar, talvez no Brasil, havia um homem feliz, ele seria então, por força da sua grande e obstinada Vontade, brasileiro – e, ademais, ficcionista, pois inventou a si mesmo. E assim se fez mais um, um ex-corvo branco, aliás, pica-pau sem bico, humano sem ânus, uma flor do futuro nascida no presente. O narrador tinha esquecido de lembrar ao leitor que o nosso era um corvo branco: era sim, o que era uma vantagem, e não um handicap: assim se pode gozar as benesses melancólicas da corvidão e, ao mesmo tempo, posar de ganso. Corvo, sim, sempre – mas com alma de cisne! Lá vai ele, puro brio, cinco pernas, amolando as garras no feno, cheirando a parte interna das unhas e o próprio cabelo.

Um presente do futuro, uma revolução de um só, música mística revelada nos florilégios de seu estilo middlebrow consciente de si mesmo, sábio, ágil, um escritor de cinco pernas, corvo, Autor. Nas reuniões da Associação de Autores, está mais ao centro do que você imagina: penetrante e oportuno, dirigido à via media de todas as opiniões. Mas, na dúvida, pede desculpas, nosso autor corvo, Me desculpem vocês, mas eu gosto muito de X. Ou Não se ofendam, mas a verdade é que aprecio. Ou Não é para causar controvérsia, mas venho estudando com afinco a Obra de Z. E assim sucessivamente, em seu mavioso chilrear, segue o poeta de novas massas. Escolheu cuidadosamente a indumentário, sopesa com olho de ourives sua opinião de ouro, forja perene de jóias seu juízo crítico, que é pura mansidão, luz, abraço amigo aos amigos, muito fiel, a defender.

Ora, eis que um dia, na hora mais crepuscular de uma certa Weltanschauung, estava nosso personagem roendo as avelãs alheias e bebendo licor artesanal, nessa apoplexia toda particular dos semifamosos, quando se engasga com um noz de bile. Imediatamente, Renard, O Raposo, que já fazia parte da história mas apenas como pano de fundo e não tinha ainda dito seu nome, apareceu, como sói, célere e fagueiro e comeu seu olho. Hmmmm… Que gostoso!, disse Renard. Adoro um olhinho de menino literário, yummy yummy. Furtivo e dietético, considerou se deveria degustar o outro olho mas, à mineira (Renard é um Universal), lembrou que quem come e guarda come duas vezes, inclusive cu, então hesitou, e disse Ah, foda-se. Ou melhor, pensou. Mas, como aqui ninguém diz nada, tampouco pensa, na verdade tanto faz. Na verdade, ou no conto.

 

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on abril 10, 2014

Picnic Paquetá fev- 2010 (61)

 

 

Eis que se ergue, podemos vê-lo na curva do tronco da árvore: estava a olhar para o outro lado, olhar adiante da costa, altaneiro, o cenho febril e intranquilo dos que contém multidões: é o Xamã-Mor, o Neo-Babalorixá, o Pós-Buda, o nosso, o autóctone e autêntico, a rezar. Urna grega nos trópicos, cercanias da árvore, diante do mar, reverberação dos vais-e-vens todos do universo quântico vibratório da murta.

Eis que o Neófito se aproxima, sem titubeios, pois a vontade é muita e a juventude é forte e rotunda e abrupta: busca a benção, será quiçá merecedor da benesse da benta saliva que é aspergida em fractal paralela à voz do mestre, que canta a voz de um antanho futuro e místico, relativo e absoluto em si mesmo a partir sempre de decreto próprio de si e dos seus.

Ainda que eu ande pelo vale da Sombra da Árvore do Picnic de Paquetá não temerei mal algum, pois sua eufemia e seu cajado verbal estão comigo, Mestre, Xamã maior, Pós-Babalorixá, ânus austral máximo de pura sabedoria incandescente, fonte do grande peido místico celebrado na Quinta da Boa Vista como o Novo Advento, a Última Vinda. Em Paquetá, onde o Claudio Cavalcanti celebrou um alterego que celebrava a curva boa da fértil melancia, onde a semente de melancia foi lançada da barca, e além, em um mesmo plano de consistência, na esquina do desvio, alors! Ou, como já disse um dileto discípulo (há quem o chame O Herdeiro), Na mola mestra das pregas do cu do mestre se oculta O Segredo. 

O Neófito se aproxima, o Mestre completa a curvatura do círculo ao redor que circunda a árvore, há um colóquio, Mestre, ao que o Mestre, imediato, retruca Não vai falar com ela? E o Neófito, qua neófito, inquiridor e estupidificado, mas ao mesmo tempo pronto para a prenhe novidade do Outro maior sempre à espreita, nada responde, olha e espera, ao que o Mestre, sabedor de tudo que é dos Novos e da Novidade, suplementa, cândido e manso, Ela, A Árvore. E o Neófito diz Como vai, prazer.

 

“Eu também tô lendo Karl Ove”

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on abril 8, 2014

Estou lendo os livros do Karl Ove. Milhares de noruegueses e suecos já leram, e aqui estou correndo atrás, esperando as traduções saírem, ávido. Não sei exatamente o que os livros tem, e como eles fazem o que fazem: isso me interessa, pois é parte de meu trabalho examinar essas questões. Mas, por enquanto, estou lendo os livros do Karl Ove como se fosse possível apenas ler os livros do Karl Ove. Coisa vã: acho estúpida a alusão a Proust, que virou um vício do cachimbo da recepção, e outro dia vi um sujeito comparando o Karl Ove a, valha-nos deus, FranzenNada a ver, cara, pensei. Nada a ver.

Estava eu portanto com meu Karl Ove na mão, já o volume 3, e lembrando de coisas que a C falou sobre a vida na Noruega, sobre os anos que ela passou na Noruega e sobre como tem sido bom pra ela ler o Karl Ove e lembrar dessas coisas. Sim, eu tenho sido evangélico com o Karl Ove, eu tenho presenteado as pessoas com o livro, tenho insistido para que leiam, tenho dito Leia, cara, é bom, ou Rapaz, esse livro é do caralho, ou O melhor livro que eu li ano passado foi esse, e coisas da mesma estirpe.

Sendo as coisas como são estava eu assim sentado no sofá ao lado de minha sogra que, diante da novela na TV, dizia, não exatamente pra mim, mas pra qualquer audiência que tivesse, inclusive a dela mesma, que Nessa novela não acontece nada mas eu não consigo deixar de ver essa porcaria! Fala enfática, declaração de perplexidade: constata-se uma falência, mas apesar disso afirma-se um sucesso; constata-se uma falência e talvez exatamente por isso verifica-se um sucesso. A audiência diz que o gênero está sendo violado: viola-se o gênero, rompe-se o pacto, frustram-se expectativas. E todavia: ouvindo minha sogra comentar a novela respondi É, eu também tô lendo Karl Ove. Mas respondi isso comigo mesmo, sem falar.

 

“Estudando Lydia Davis”

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on abril 4, 2014

A acabou de assistir a uma conferência de uma escritora muito apreciada por B, seu amigo.

“Conferência” é uma má palavra, pois tratou-se de um desses incidentes do campo literário, cada vez mais comuns, em que um autor é convidado para ler trechos de sua produção e responder às questões ou de um animador, ou da audiência, ou das duas fontes, ou nenhuma questão. A autora compôs a noite na companhia de um autor que, embora seja infinitamente mais popular, é considerado por B um energúmeno, um “idiota glorificado” – como lembra A, que estava presente, ao lembrar do amigo, e daquilo em que o amigo pensa, e do modo como o amigo fala o que pensa. Então temos aqui A, assistindo a uma, digamos, conferência, ou palestra, ou fala, ou leitura de trechos de textos com direito ou não a questões. Enquanto assiste, A pensa em B, ou talvez fosse melhor dizer que o pensamento de A ligeiramente toca B, as coisas que já conversaram ou partilharam, a presença difusa de B em seu gosto literário, e em particular o fato de B gostar muito do trabalho da autora que está agora falando enquanto A, digamos, pensa em B. Estamos tratando aqui de uma conexão que é ao mesmo tempo mais espessa (é possível que A sequer estivesse aqui não fosse pela ação evangélica de B com relação ao trabalho da autora) e muito mais diáfana (pensa-se em Odo Marquard, em Aristóteles, nas contas a pagar, numa mulher: algo se espicaça e concentra em um fino foco, e longe, longe disso a vaga presença do amigo na memória A, que sequer se articula plenamente em pensamentos do tipo “B ia adorar isso”, que só vão acontecer depois, quando A contar a B o ocorrido).

A autora, após seu desempenho no palco, ainda vai autografar exemplares do livro que está lançando, e A pensa que irá agradar seu amigo com um livro com um autógrafo da autora que ambos admiram mas que, como já sabemos, B admirou antes, B divulgou, B insistiu para que o amigo lesse, fazendo assim dela uma espécie de propriedade de B, um seu direito de precedência e pioneirismo e, por tudo isso, A decide presentear o amigo com um livro autografado pela autora. Para isso, A entra na fila, imensa, de membros da audiência interessados em prolongar seu encontro com a autora ou em conferir uma fixação mnemônica particular à sessão que acabou de ocorrer ou em incrementar o valor do livro recém-adquirido ou em uma série de outras razões – são muitos, a fila é imensa. A entra na fila e, em poucos minutos, é acometido de uma puta vontade de mijar.

“Acometido” é uma má palavra, uma vez que o que está em jogo não tem nada a ver com cacofonia fisiológica de nenhuma ordem. A tomou uma bebida antes de vir, tomou um café ainda antes, e pela ordem natural do funcionamento do corpo humano o que cabe é que o líquido solicite também, uma vez metabolizado, sua excreção.  A já tinha consciência de sua vontade de urinar desde quando estava lá, na audiência, sentado, ouvido os proferimentos do idiota glorificado que fez companhia à autora que aprecia: sua distração e seu tédio provavelmente propiciaram vantagem ao corpo, a uma certa inquietude e desconforto na cadeira, ao gesto de ajeitar o suéter, afastando ele da barriga com um beliscão discreto que já foi, em outra situação, observado por B, que é o tipo de pessoa que observa essas coisas nos amigos e que, ainda, aprecia a autora porque ela parece ser o tipo de pessoa que observa essas coisas em tudo, e B acredita que aí há alguma espécie de moralidade ou exemplaridade, e essa é uma das fontes de sua admiração por ela assim como uma das fontes de sua admiração por A é a maneira como ele afasta o suéter da barriga, o jeito como ele faz perguntas e usa o termo “Camarada”, as mãos que ele tem e muito frequentemente, em febre de eloquência etílica, se movimentam com a graça dos pães que Chaplin uma vez fez dançar no conhecido filme. É aí, nesse momento em que afasta o suéter da barriga, que A se dá de que está com vontade de mijar, e trata-se então de uma situação que é como um chamado do seu nome quando você passeia numa vizinhança estranha de um país que não é o seu, uma improbabilidade mas ainda assim você olha, você busca quem exercita o verbo com seu nome, quem lhe reconheceu, e assim A acolhe a vontade de mijar ligeiramente, com um meneio de cabeça, digamos, ou um “Porra” espiritual, bem diáfano, leve, reconhecendo em si a companhia do mijo, sabedor da fonte originária desse processo típico de nosso funcionamento , o conhaque, a água, o café e lá está a vontade mijar e ao reconhecer isso A a deixa lá, e lá ela fica até que, por força da passagem do tempo e de uma série de outros fatores que são próprios das contingências misteriosas do corpo lá está A na fila, a dez, quinze pessoas da autora, muito perto de conseguir o autógrafo para B, e percebe que não vai conseguir esperar mais, que precisa urgentemente ir ao banheiro e, enquanto hesita pela última vez, ponderando ainda coisas de força de vontade e do tipo “Já esperei até agora”, a autora, em um hiato no que está fazendo que é, provavelmente, hiato pra ela também, uma pausa, um silêncio entre um solicitante e outro a depositar um livro diante dela, proferindo palavras de praxe, trocando sorrisos, nessa pausa que num outro sentido não é absolutamente pausa, pois o processo continua, a autora ergue os olhos, olha para a fila, e seu olhar encontra o de A. E é aí, e só aí, que ele enfim se autoriza a sair da fila, correr para o banheiro, experimentar a conhecida mescla de aflição extrema e alívio justo, e contar depois para B o que passou e o porquê.

lydia