ensaio

3.1

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on outubro 24, 2009

1.

Tentando concluir um ensaio – vejam bem: um ensaio – me vi diante de um problema. Manter uma alusão no início significava ter de retomá-la ao final e, com isso, comprometer o que já parecia uma boa conclusão: sem ápice nem melodrama, mas uma efetiva conclusão, e não um simples abandono do texto. Por outro lado, retirar a alusão tornava meu texto mais ordinário do que estou preparado para aceitar – o delírio de grandeza não é exatamente a minha praia, mas esse negócio é meu trabalho, e respeito o meu trabalho, respeito trabalho. O que fazer?

Lembrei então de um trecho de Out stealing horses do qual gostei muito. Nele, Trond, o personagem que narra a história – quase a única voz com a qual travamos contato no livro, já que tudo é contado por ele e, embora o livro não faça uso de qualquer traquinagem metaficcional, se você trabalha com esse negócio você tem de pelo menos considerar a implicação dessa escolha da primeira pessoa para uma narração: é arbitrária, mas isso não é, nem nunca foi, sinônimo de “é feita à toa” (embora às vezes seja, mas isso são outros quinhentos). Então lembrei de um trecho e, como estava em casa, fui pegar o livro, localizei fácil, estava assinalado, com rabiscos à margem e tudo o mais: é o momento em que Trond imagina para si mesmo um desenlace, que o lembra das histórias de Dickens que ele aprecia, e ele descarta esse desejo como uma coisa vã, pois “quando você lê Dickens está lendo uma longa balada de um mundo perdido, no qual tudo tem de se ajustar no final como uma equação, no qual o equilíbrio do que foi perturbado deve ser restaurado pra que os deuses possam sorrir de novo”.

Minha tradução é tosca, e já é feita de segunda mão – o original é em norueguês. É um trecho que julgo lapidar: da escolha de certos vocábulos – “balada”, “equilíbrio”, “equação” – até sua resolução em uma imagem tão datada e demodê que só pode nos lembrar de algo tão “perdido” quanto o final de um romance de Dickens ou de um filme de Frank Capra. Não as coincidências, nem o heroísmo necessariamente recompensado, nem a fibra moral justamente reconhecida – mas o bendito final feliz.

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Uma resposta

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  1. Adriana said, on outubro 26, 2009 at 3:32 am

    é…traduzir é difícil…gostei do teu texto.


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