ensaio

Sobrinho

Posted in Ensaio by antoniomarcospereira on outubro 21, 2009

Outro dia me disseram que eu puxo o saco do Kelvin aqui. Isso não é verdade, embora seja verdade que o fato de ele ser meu único sobrinho angula de maneira toda particular nossa relação, e longe de mim querer supor uma  tabula rasa – não é o caso.

Comento sobre o Kelvin aqui com frequência em certa medida porque acho o tema da amizade um pouco maltratado e subutilizado, tenho curiosidade a respeito, acho que há coisas sobre a amizade a examinar, a descobrir, a dizer. Sei que Derrida andou falando disso no fim da vida e, embora não saiba o que Derrida disse sobre esse assunto, devo dizer que o tema apareceu para  mim por outras razões. O que é um amigo? Quem é o amigo? Como se faz o amigo – como, em um dado momento, uma pessoa deixa de ser um conhecido e passa a ser um amigo? Conseguimos recuperar esse momento em particular? É a amizade um modus operandi em extinção, matéria de arquivo e memória – uma conduta datada, como usar chapéu? Em Os meninos da rua Paulo quem é amigo de Nemeczek – e de quem ele é amigo? A moeda da amizade é a verdade, algum tipo de verdade? Ou a amizade é melhor descrita como uma ficção, um tipo de ficção fora da escrita que ainda não nos ocupamos de inserir na taxonomia dos gêneros?

Venho pensando nessas questões de pouco Ibope, leio um poema que o Kelvin escreveu hoje mesmo e penso É meu amigo. É isso:


Explicação

A epifania, hoje, é
um pouco de ruído branco
misturado com um ensaio
de Gilda, Mello e Franco

Explora a vida e a matéria
como na primeira peça
de Beckett:
Eleotéria

Que quer dizer liberdade,
em grego,
sem pretender,
com isso,
desgastar a
boutade

Do verbo bouter, empurrar.
No seu Lattes não tem francês:
É por isso que eu preciso
explicar

Mas não leve a mal:
no meu não tem italiano,
ainda que eu seja fã
do velho Mastroiano

Não o ator, não:
me refiro ao livreiro,
dono daquele sebo na Liberdade.
Um pardieiro.

Lugar de gente encurvada,
cinza e manchada,
mas todos conscientes
de que ler
é maçada.


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2 Respostas

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  1. tiago a. said, on outubro 26, 2009 at 9:40 am

    Amizade é não precisar ficar cheio de dedos pra falar que é muito mala essa mania–sua e de c.–de antepor artigo definido ao nome próprio do cidadão quando ele calha de morar ao sul de Teixeira de Freitas. “O” Kelvin, o caralho–é Kelvin, essa porra! Kelvin! 😀

    • Myriam Kazue said, on novembro 2, 2009 at 5:24 am

      Confesso que também tenho essa mania-mala, Tiago.

      Aliás, nem sabia que era muito mala, essa mania ‘de antepor artigo definido ao nome próprio do cidadão quando ele calha de morar ao sul de Teixeira de Freitas’.

      Aliás [2], eu nem sei onde fica Teixeira de Freitas.


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