Javier Marías, Balzac
Hoje ia fazer uma prova sobre a trilogia do Javier Marías – que, como vocês sabem, não li. Não tinha medo: planejava improvisar, usando o que já li do Marías mais o que já li sobre, achei que com isso ia dar conta.
Cheguei e, como de costume, havia toda aquela liturgia na biblioteca, a arrumação dos dias de exame, o silêncio. Quando estava já pra começar a escrever, entrou no salão um homem de uniforme, um guarda, e trocou algumas palavras com o supervisor que, imediatamente, apontou para mim, assentindo com a cabeça. O guarda se aproximou, me abordou, confirmou meu nome, e me disse que eu precisaria retirar meu carro, que estava obstruindo o trânsito.
Obviamente, me atrapalhei, me esbafori e me apressei, saí correndo para tirar o carro logo e voltar o quanto antes, a tempo de ter tempo para fazer o exame. Mas ao retornar a biblioteca parecia ter se desdobrado em várias outras, uma infinidade de salas e corredores e escadarias semelhantes que nunca me levavam à minha sala, ao salão de onde eu tinha saído, onde me esperava meu supervisor, meus colegas e, em minha mesa, minha folha de exames com meu nome, minhas canetas, tudo de que eu precisava para escrever minha dissertação sobre a trilogia de Marías. Perguntei a uma pessoa que lia no corredor sobre o teste e ele fez um gesto em direção a uma sala e me disse Aqui é sobre Balzac. Caminhei mais, a luz baça dos vitrais no corredor, apertei o passo para alcançar uma moça que caminhava à minha frente e perguntei a ela sobre a prova e ela disse Eu também tô indo pra lá, tô atrasada, é no salão, sobre Balzac, não é?
Exercícios de Crítica Literária Contemporânea
1.
O comentário biográfico incide reiteradamente sobre dois processos em Henry James.
Um, é seu tartamudear: não é de forma alguma uma gagueira, mas uma enunciação hesitante e tateante que o persegue desde muito cedo. Não há gravações de James, mas podemos imaginar a sequência de Well… Uhm… I mean… So… etc
Outro é o uso que faz de um amanuense: por volta dos 50 anos, James começa a manifestar os sintomas do que hoje é a conhecida Síndrome do Túnel do Carpo e, como uma resolução para seu sofrimento cotidiano, contrata um copista. É possível imaginá-lo, a partir desse momento, alterando sua rotina de trabalho, e incorporando ao seu processo composicional um deambular pela sala, um ir e vir que ocorre em paralelo à enunciação enquanto o copista, silencioso, oculto, atento, copia.
Estabeleça um paralelo entre os incidentes citados e as peculiaridades do discurso indireto livre na obra tardia de James, com particular atenção a The Golden Bowl.
2.
Em 1942, Bowles se mudou para um apartamento na 14th St com a 7th Ave. O ocupante anterior tinha sido Duchamp e, assim, eles se conheceram.
Improvise.
3.
É conhecida a afirmação de Piglia: A critica é uma das formas modernas da autobiografia. Um sujeito escreve sua vida quando crê estar escrevendo suas leituras.
Disserte sobre o tema, considerando as manifestações em A, B, e C.
Dia do Trabalho, 2011
É o Dia do Trabalho de 2011. Nada melhor do que recuperar um trecho de uma das autobiografias de Schklovsky, Zoo, or letters not about love.
Escritas e publicadas em Berlin no início da década de 20, essas cartas forjam um romance epistolar sui generis. Há um romance entre o autor das cartas e “Alya”, a destinatária, isso parece claro – mas, na verdade, é ambíguo, e sua maior clareza está em perdurar no fio da navalha, amor sem dizer o próprio nome jamais, amor que se infere e se toma por certo, na exclusão de outras possibilidades, que parecem candidaturas menores no espectro das emoções. O livro teima em refratar toda certeza em seu vórtice de autoreferencialidade; o narrador, que está em Berlin, é fustigado por mil senões. Volta e meia, retorna sobre seu texto, desdiz, entorta o que disse em uma carta anterior, ou ficcionaliza algo que já havíamos tomado por certo como fato – estamos, é sabido, nas mãos de um admirador de Sterne, que compreende o Romance como teimosia disciplinada do artifício em luta contra o empenho seguro da linha reta, estamos na região em que sempre podemos nos dar conta de que não sabemos: é essa Berlin de imigrantes russos, que conhecemos em Nabokov, um mundo no qual Benjamin passeia também.
Numa carta datada justamente de Primeiro de Maio de 1921, o narrador inclui um panfleto: na verdade, inferimos isso, uma vez que ele menciona ter ido a uma reunião e, depois da despedida habitual das cartas (“Seu, etc”), aparece um asterisco no meio da página: em uma tipografia diferente, com letras chapadas e maiores, lemos:
Primeiro de Maio.
O Camarada Trabalha – pois, apesar de ser domingo, a Revolução urge, e não há hora que não seja apropriada para combater a Vilania.
É monstruoso que a irracionalidade tome conta do Trabalho, e que a competição com seu Irmão Trabalhador seja a marca maior do endereçamento laboral do Camarada.
É vil que o Trabalho construtivo, salubre e bom do Camarada se dissipe tão facilmente na volatilidade, e que seja apropriado pela mão mesquinha e sistemática do Controlador Burocrata que, com sua pena seca, pretende rescindir o Camarada da Memória, da História, da Vida.
O Camarada sabe que seu Inimigo é, também, seu Irmão – sabe e sofre com isso, pois por mais bruto que tenha sido o triturador, a Revolução será feita também com o Coração, ou não será.
O Camarada sabe, ainda, que seu Inimigo é, também, ele mesmo, o próprio Camarada – quando fraqueja e se dissipa, quando se distrai ou esquece, quando se perde da Alegria e do Amor e abraça a Grande Melancolia de Existir ao invés.
Fico estupefato com essas palavras, dirigidas a mim noventa anos depois de sua fatura como se fossem o murmúrio de um amigo que, ao abraça-lo, diz em seu ouvido exatamente o que você precisa ouvir, a indenização própria e justa para toda sensação de falência, toda vã consumição de tempo, de vida, de alegria e de amor. Ao trabalho, pois.
Joseph Mitchell, Dad, 1992
Lembramos daquele comentário de Piglia: um crítico narra sua vida ao escrever sobre os livros que leu – suas leituras inscrevem um padrão de saliências específico nos textos, uma marca de identidade hermenêutica. Isso faz sentido: basta ler o blog do Zé Castello ou o do Kelvin por um mês pra perceber que há algo dessa ordem em operação – não é apenas estilo, é mais um modo de usar.
A publicação recente de uma tradução de trechos dos Diários de Cheever me fez dar atenção ao canto da estante no qual estão depositados meus livros de Cheever – Cheever estava na berlinda, vários conhecidos comentando, então pensei em Cheever de novo, fui me aproximar dele de novo, e fui pro canto da estante onde estão seus livros:
É só um amontoado de livros – mas a história do seu amontoamento é, certamente, uma biografia: o crítico também escreve sua vida nos livros que acumula, como os acumula, como os separa, organiza e controla, o que mantém, o que dissipa. Ora, tenho trabalhado como um cão ultimamente pra escrever uma biografia de Saer – mais: para dar sentido ao projeto de sentar todo dia para escrever uma biografia de Saer. Se esse arroubo a respeito da vida nos livros que se tem funciona, o que faria eu diante de um trecho de prateleira de livros de Saer? Esses livros seriam indício suficiente de quê? Servem para quê, a não ser para serem manuseados por febris epígonos fanáticos, eventualmente fazerem uma graninha para a família, os Nobres Livros do Autor Morto – servem para quê?
Posso favorecer a hipótese da utilidade tomando minha própria prateleira na foto como exemplo: aí estão minha vida em NY (os balcões mais baratos da Strand), uma ex (duas, melhor dizendo), um amigo perdido, a época em que queria ser tradutor, o momento em que parei de fumar (era 2008, janeiro, e estava lendo os Diários de Cheever), etc. Aí está também aquela história do Kelvin indo no Berinjela vezes sem conta e vendo o volume de cartas do Cheever e paquerando o livro sem comprar até que, anos depois, o Berna o enviaria pra mim – exatamente o mesmo livro, passando por dois amigos meus, e chegando a mim graças ao antigo dono, ignorado, sem nome pra mim, que um dia o depositou lá no Sebo – e como abriu mão das cartas de Cheever, em benefício de quê.
Aí está também, envolvido num papel pardo para proteger um pouquinho a capa, um de meus livros favoritos, o quarto exemplar que tenho do mesmo livro, Up in the Old Hotel, de Joseph Mitchell. Mitchell, que tinha uma paciência de Jó, escreveu esses textos maravilhosos, nos quais não se conta quase nada: são só umas histórias de tipos ordinários, que se fazem envoltos em mistérios vãos acho que mais pela força magnética que a noção de idiossincrasia exerce sobre nossa espécie que por qualquer outra razão. São histórias de quase nada, e todavia. Lembro de uma época em que lia os capítulos, ritualisticamente, toda terça e quinta à noite: eu não trabalhava nesses dias, e ficava grifando trechos e sonhando em escrever bem (eu também fumava, e nem pensava em parar). Lembro de minha melancolia ao ler Joe Gould’s Secret, e como me surpreendeu o fato de estar aparentemente mais tocado ao ler o texto pela segunda vez, tolamente surpreso por estar contrariando uma regra pseudocristã que dá sempre mais valor ao mais virginal (li esse texto em voz alta uma outra vez, lembro). E outro dia – está fresco, foi agorinha mesmo, agora no Natal – cheguei no hotel de uma visita a mil sebos, cheio de livros, feliz, e com mais um volume do mesmo livro de Mitchell. Deitei na cama, abri o livro e vi, então, a dedicatória.
I am Assange
Muitos vão duvidar, assim como eu duvido agora de mim mesmo, mas vou mencionar Saramago laudatoriamente, utilizá-lo e, com isso, enviar meus leitores à leitura dele. O que, convenhamos, não é de todo mau.
O caso está em A Jangada de Pedra, que foi o primeiro livro dele que li, em um verão bem distante, quando ainda dividia apartamento com Dick Noir, e que li por recomendação dele. O mote do livro, sabemos, é que a península ibérica se descola do resto do continente – fica aí, uma massa de terra, o que se faz com ela, aterrorizando o Atlântico, solta. Há um belo momento, quando a ficha cai, os Europeus se apercebem do que está em jogo com a península à deriva e, como sempre, nas engajadas universidades parisienses começam a dizer Eu também sou Ibérico. O que, entendi, queria dizer Eu também sou Outro, ou Sem o Outro não sou eu – algo dessa ordem. É lindo, é uma apoteose, um florescimento. Se esgarça, obviamente, o livro tem outros destinos, o Autor deseja, nesse caso creio que desgraçadamente, muito mais. Mas é uma onda, é emocionante, e também diz algo, pois o incidente está repleto daquilo que faz com que ainda hoje falemos “Maio de 68″ – há aí coisas ditas, coisas feitas, e fermento imaginário e conversacional fazendo o evento crescer e se sedimentar como um fato que sempre ultrapassa o slogan que, supostamente, o define.
Para comentar e situar o caso específico do Wikileaks e da prisão de Assange, não poderia fazer nada melhor que o Avelar já fez aqui – como sempre com a bala na agulha, ele organiza o incidente em uma narrativa, faz do bruhahá um fio na trama do presente, e com isso nos ajuda a produzir sentido e encontrar um lugar na narrativa também. Um lugar que pode ser esse, de dizer Eu sou Assange, Eu também sou Assange. Isso, em meu caso, quer dizer que não tive a vida aventuresca e heróica que ele teve e tem, e que não estou na berlinda como ele está – mas que há algo de empatia entre o que eu julgo justo e bonito fazer e o que ele passa a ser quando, a respeito dele, podemos dizer coisas assim. E Herói é pra isso mesmo.









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